A Santa e O Pecador

Barbara Cartland

Ttulo Original:

THE SAINT AND THE SINNER

Traduo DIOGO BORGES

Composto e impresso nas oficinas da
ABRIL S A CULTURAL E INDSTRia

Digitalizao

Ana Paula Ruas

Reviso

Ftima Toms


CAPTOUO 1
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Pandora costurava a capa que havia lavado, colocando novamente a almofada dentro dela. Achava difcil imaginar que pudesse haver uma cor ou um desenho mais desgraciosos.

Era de um tom muito feio de marrom e o bordado, feito com uma linha esverdeada.

Seu pai costumava dizer que as pessoas podiam ser associadas com as cores e ela achou que aquelas eram tpicas de sua tia Sophie.

Suspirou, pensando o quanto tinha sido infeliz desde que viera morar no palcio do bispo, em Lindchester.

Era grande, frio e, aos olhos de Pandora, excessivamente opressivo. Era esta a palavra que melhor descrevia sua vida, desde que havia se mudado para l.

Tinha sido to feliz na pequena casa paroquial, em Chart, com seus jardins povoados de roseiras e os estbulos que abrigavam os cavalos de seu pai.., Sua me costumava dizer, rindo muito, que eram os membros mais importantes da famlia.

Na verdade, seu pai jamais quisera ser pastor, mas como era o terceiro filho de uma famlia dedicada  igreja, no lhe restou muita escolha. No entanto, fora suficientemente hbil para -conseguir se sustentar, em um lugar onde havia muito pouca coisa a se fazer, e onde podia caar e cavalgar a seu bel-prazer.

Denominavam-no O Pastor Caador, um tanto injustamente, alis, pois esqueciam-se com facilidade do fato de que ele fazia suas prdicas

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todos os domingos. Preferiam pensar nele apenas como um homem atraente e jovial, amigo de todos, nos locais onde se realizavam as caadas.

Como fora divertido estar em sua companhia, pensou Pandora, reprimindo as lgrimas que imediatamente lhe marejaram os olhos.

Havia chorado com tamanho desespero e descontrole, quando lhe deram a notcia do acidente que havia matado seus pais! Achou que, depois disso, no lhe sobravam mais lgrimas.

No entanto, depois de viver durante mais de um ano com seu tio, o bispo de Lindchester, sentia dificuldades cada vez maiores em conter o choro, pois tudo lhe parecia rido e ela estava desesperadamente s.

Mesmo agora no suportava pensar no acidente que a privara de seus pais.

Como seu pai no dispunha de meios para adquirir cavalos treinados, ele mesmo costumava amans-los. Ele e sua esposa partiram para uma caada, servindo-se de dois cavalos ainda um tanto ariscos.

Na vspera da caada, Charles Stratton enviara os dois cavalos para o estbulo de um amigo, de tal forma que as montarias estivessem bem repousadas e alimentadas, quando ele e sua mulher chegassem na calea que sempre usavam para suas viagens.

Era velha e um tanto desconjuntada, mas transportava-o para onde ele quisesse ir, e era s isto que importava.

Deixara a calea e os cavalos que a puxavam no estbulo e, em seguida, partiram para a caada. O dia havia sido magnfico e no havia nada que Charles Stratton apreciasse mais.

Ele e sua mulher ficaram cansados e, quando a tarde caa, empreenderam a viagem de volta, seguindo as trilhas estreitas que levavam a Chart.

O dia fora belo e luminoso, mas o tempo comeava a esfriar. Charles Stratton dissera um tanto desapontado:

- Pelo visto, acho que no poderemos mais caar durante o resto da semana.

- Quem sabe acaba nevando - comentara sua mulher, cheia de otimismo.

- Duvido... Voc est bem aquecida, querida?

- Sim, obrigada - respondeu ela, achegando-se um pouco mais a ele. Chegaram ao topo de uma colina que descia em direo a um rio.

Charles Stratton percebera que havia gelo na estrada e que ele teria de conduzir a calea com muito cuidado.

Freava os cavalos e avanava mais lentamente quando, de repente, um veado pulou por cima de uma cerca e atravessou correndo a estrada.

Os cavalos ficaram muito assustados e comearam a galopar, sem que ele pudesse control-los. Estavam indo a toda a pressa em direo ao rio.
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Depois contaram a Pandora o que aconteceu: a velha calea despedaara-se contra a ponte e seus pais foram jogados dentro do rio.

Seu pai quebrou o pescoo e sua me, que desmaiou, caiu de bruos e morreu afogada.

Muitas vezes Pandora desejou ter estado com eles naquele dia, morrendo em sua companhia.

Quando seu tio, o bispo anglicano, demonstrando bvia relutncia e uma grande magnanimidade hipcrita, levou-a para viver com ele e sua esposa no palcio episcopal, Pandora achou que seria impossvel voltar a rir um dia.

Por outro lado, no havia como rir na companhia de seus tios. No eram fisicamente cruis com ela, mas sua presena os importunava e tudo o que ela fazia parecia errado aos olhos deles.

Era impossvel agrad-los, por mais que tentasse, e, devido  sua inteligncia, compreendeu que sua aparncia ofendia sua tia mais do que tudo.

Pandora parecia-se bastante com sua me. Seu rosto, de um oval muito puro, e seus olhos grandes, de um azul-violeta, ofereciam um contraste to grande com sua tia, magra e feia, que ela at chegava a entender por que a mulher no a apreciava.

Havia sempre numerosas tarefas para ela exercer e, apesar de estar preparada para execut-las com a maior boa vontade, os resultados nunca eram precisamente os que sua tia desejava.

Agora, tinha plena certeza de que haveria algo errado com a capa da almofada. A costura estaria apertada ou solta demais, ou ento apresentava-se excessivamente amarfanhada. Sua tia de forma alguma ficaria satisfeita com o resultado e ela, com toda certeza, teria de refazer tudo.

Suspirou aliviada quando se lembrou de que seus tios partiriam para Londres aps o almoo.

Tinham sido convidados para uma festa oferecida pelo bispo de Londres, no palcio de Lambeth.

Sua tia aguardara ansiosamente aquele acontecimento, ano aps ano, e durante trs semanas Pandora arrumara seu vestido, pregando nele algumas rendas a mais. Reformou tambm o chapu e fez inmeros reparos na sombrinha que a tia carregaria.

O que quer que fosse que tia Sophie usasse, sua figura desgraciosa no valorizava as roupas. Esta era sem dvida uma das causas que a levaram a encarar Pandora com animosidade, enquanto tomavam o caf da manh, pois o corpo esguio da jovem no conseguia ser prejudicado pela saia deselegante que usava.

Tomaram o caf em silncio, como sempre, pois o bispo no gostava de conversar muito na parte da manh.

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Em vez disso, lia o jornal The Times, que o mordomo lhe trouxera em uma salva de prata.

Dois criados serviram uma grande quantidade de comida em uma baixela de prata. Augustus Stratton e sua mulher alimentaram-se bem, pois tinham uma longa jornada pela frente.

Pandora comeu muito pouco e sentiu-se aliviada quando sua tia passou-lhe trs listas.

-  o que voc deve fazer em minha ausncia, Pandora. No deve mostrar-se relaxada ou indolente s porque seu tio e eu estaremos ausentes. V riscando cada tarefa,  medida que desempenh-la. Espero que tenha dado conta de tudo antes de sexta-feira, quando estarei de volta.

- Farei o que estiver a meu alcance, tia Sophie.

- Pois tomara que desta vez voc renda mais do que de costume...

- disse sua tia, com menosprezo.

Pandora pegou as listas, levantou-se, fez uma reverncia e saiu da sala.

Assim que fechou a porta, foi correndo para a pequena sala de estar onde deixava sua cesta de costura e outros objetos de uso pessoal.

Em vez de ler as listas, como deveria ter feito, foi at a janela e ficou a contemplar o sol brilhando l fora. Uma enorme alegria a invadiu ao sentir que estava livre!

Durante trs dias ningum a importunaria, apontando-lhe erros, ningum faria aluses veladas a seu pai e a sua me, ningum faria crticas diretas a ela e a sua aparncia.

- O que farei? Como vou passar o tempo? - perguntou, j sabendo a resposta.

Assim que seus tios partissem, iria a cavalo at Chart e conversaria com os aldees, que tanto tinham amado seu pai e sua me.

No iria at a casa paroquial, pois no podia suportar a ideia de outras pessoas viverem naquela residncia, que ela ainda considerava seu lar.

Havia porm outras pessoas que a receberiam afetuosamente, por ela ser filha do pastor e por conhecerem-na desde que era bem pequena.

Colocou a almofada na cadeira  qual pertencia e constatou novamente sua feira. Ao faz-lo, a porta ao lado da lareira deu um pequeno estalo e abriu-se. Pandora percebeu que a causa era o vento, pois algum entrara no escritrio de seu tio, que ficava ao lado. Ouviu ento a voz de sua tia.

- Augustus, antes de partirmos, diga a Pandora que ela no deve cavalgar nas proximidades de Chart Hall.

- Pois estava justamente pensando nela. Ainda no tive oportunidade de contar-lhe, Sophie, que ontem, antes de ir visitar seu pai, Prosper Wtheridge perguntou-me se podia lhe fazer a corte.

- Est querendo insinuar que ele deseja desposar Pandora? -

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perguntou a sra. Stratton, como se uma ideia to inverossmil jamais lhe tivesse passado pela cabea.

- Ele disse que tem uma grande considerao por ela, mas como se trata de uma pessoa muito correta, no lhe falou diretamente e preferiu pedir minha permisso.

- S posso dizer que imaginei que ele tivesse um pouco mais de juzo... Quanto  sua sobrinha, ela deve ficar muito grata por um homem to bom desejar torn-la sua esposa.

- Pandora  muito jovem. Pensando bem, acho prefervel ela esperar um pouco, antes de assumir a responsabilidade do casamento.

- Ela jamais h de conseguir uma proposta melhor. Claro, lorde Witshaw tem dois filhos, mas, no entanto, Prosper possui um ttulo de cavaleiro e isto quer dizer alguma coisa. Na verdade, quer dizer muito!

- Eu no estava pensando no lado social da coisa...

- E o que mais resta? Como  possvel que voc hesite em dar a permisso?

- Disse a ele que pensaria no assunto e lhe comunicaria minha deciso quando voltssemos de Londres.

- Pois que seja sim, Augustus, um sim, sem a menor dvida! Garanto-lhe que para mim ser um grande alvio no ter mais Pandora sob sua responsabilidade. S espero que Prosper Witheridge seja suficientemente forte para domar aquele temperamento revoltado!

Fez-se uma grande pausa e a sra. Stratton disse:

- E j que tocamos no assunto... estava lhe dizendo que voc deve proibir Pandora de ir a Chart. Penso que aquele homem est morando l.

- O conde?

- Quem mais? Contaram-me que ele chegou h dois dias e voc sabe to bem quanto eu o que isto significa.

- Sei, de fato! E no h nenhuma atitude que eu possa tomar, aps o modo como ele se dirigiu a mim, da ltima vez que o admoestei.

- Ele desgraa o nome de sua famlia e  um insulto  vizinhana. L em Lindchester todos ficaro pasmos, ao ouvirem o que est acontecendo em Chart Hall e ao saberem que tipo de gente se hospeda l.

Ela esboou um gesto que exprimia ao mesmo tempo nojo e irritao.

- Lady Henderson contou-me que as mulheres a quem o conde hospeda la no passam de rameiras e atrzes. Nenhum homem decente haveria de querer ser visto na companhia de semelhantes criaturas!

- Lady Henderson no deveria macular seus lbios, ao referir-se aos objetOs dos esgotos de Londres! Espero, Sophie, que voc no encoraje aqueles que espalham histrias sobre o que acontece em Chart Hall. Voc 9 
sabe tanto quanto eu que as histrias sempre contm uma grande dose de exagero e que s podem prejudicar aqueles que as ouvem.

- Seria difcil exagerar qualquer coisa que se diga a respeito do conde. Voc tem de proibir Pandora de se aproximar da aldeia.  mais provvel que ela obedea a voc do que a mim.

- Eu lhe direi, e Prosper Witheridge, que estar de volta hoje  noite, poder ficar de olho nela.

- Quanto menos ele ouvir falar dos parentes de Pandora, melhor! Isto poderia lev-lo a pensar duas vezes em relao a sua oferta de casamento - disse a sra. Stratton, com rancor.

Logo em seguida, Pandora ouviu a porta do escritrio se fechar. Havia guardado absoluto silncio, enquanto ouvia o que estava sendo dito no escritrio.

Agora conseguia perceber os passos pesados de seu tio, enquanto ele juntava vrios papis. A porta do escritrio abriu-se e fechou-se novamente.

Pandora percebeu que havia prendido a respirao por tanto tempo que agora chegava a sentir falta de ar.

Prosper Witheridge! Era possvel, sequer por um momento, contemplar a ideia de que ele pudesse ser seu marido?

Tinha sido nomeado capelo de seu tio h trs meses. Sentia, instintivamente, que o modo como ele a encarava no era o de um homem a servio de Deus e o evitava sempre que possvel.

Mas, agora, se sua tia fosse em frente com suas pretenses, ela deveria despos-lo!

Sabia muito bem que, pelo fato de ter apenas dezoito anos e ser tutelada por seu tio, ser-lhe-ia muito difcil opor-se a qualquer deciso que ele tomasse em relao a seu futuro.

Mas Prosper Witheridge! S de pensar nele sentia arrepios.

- No posso me casar com ele... no posso! - disse em voz alta.
- Eu o odeio! H algo nele que me faz sentir revoltada, como nunca me senti em relao a qualquer outro homem!

Sabia, porm, que to logo seu tio desse seu consentimento para as npcias, seria difcil, se no impossvel, dizer ou fazer qualquer coisa que impedisse o casamento de se realizar.

- Eu o odeio! Eu o odeio! - disse novamente.

Em seguida estremeceu, ao recordar o brilho do olhar de Prosper Witheridge e como suas mos sempre pareciam estar quentes e suadas.

Subitamente, pareceu-lhe que o palcio era uma priso na qual estava encarcerada. Se o abandonasse na qualidade de esposa de Prosper Witheridge, sabia que estaria trocando uma priso grande por outra menor e que nunca mais voltaria a ser livre.

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- No posso suportar este pensamento!

De repente percebeu que sua tia a chamava.

Foi at o hall, onde seus tios estavam prontos para partir. Os criados carregavam suas bagagens para a carruagem.

- Onde  que voc-estava, menina aborrecida? - perguntou a sra. Stratton. - Nunca est presente, quando se precisa de voc! Sabe muito bem que seu tio e eu viajaremos s dez e meia.

- Desculpe, tia Sophie, esqueci-me das horas.

- Desculpe! Desculpe!  s isso o que voc sabe dizer! J disse mais de uma vez que voc  uma cabea oca. Faa o favor de se comportar enquanto estivermos fora. A sra. Norris vir dormir aqui no palcio, mas s pode chegar l pelas seis da tarde e, portanto, voc ter de cuidar de si mesma at que ela chegue.

- Sim, tia Sophie.

- Seu tio tem algo a lhe dizer - acrescentou a sra. Stratton, lanando um olhar carregado de intenes para seu marido.

- Sim, sim,  claro - disse o bispo, como se tivesse esquecido o que lhe mandaram comunicar a sua sobrinha. - Pandora, voc deve abster-se de cavalgar nas proximidades de Chart Hall. Compreendeu?

- Sim, tio Augustus.

- Pois trate de no esquecer o que seu tio lhe disse - finalizou a sra. Stratton, com muita secura. - Se o desobedecer, Pandora, ser severamente castigada quando voltarmos.

- Sim, tia Sophie.

A sra. Stratton dirigiu-se para a porta da frente e, descendo a escadaria da entrada, entrou na carruagem do bispo.

Era um veculo muito imponente e trazia o braso de armas do religioso no painel de cada porta. O cocheiro e o palafreneiro usavam libr. Quatro cavaleiros os acompanhariam em sua viagem a Londres.

Enquanto descia a escadaria com Pandora a seu lado, o bispo disse-lhe en voz baixa:

- Faa o possvel para no desagradar sua tia, minha filha, e cornporte-se muito bem em nossa ausncia.

- Farei o que estiver a meu alcance, tio Augustus.

Durante alguns instantes o olhar do bispo repousou em sua sobrinha, como se estivesse apreciando o sol que se refletia em seus cabelos e em seus olhos azul-violeta.

Ento uma voz vinda do interior da carruagem disse em tom peremptrio:

- Augustus! J est na hora de partir.

- Sim,  claro, querida.

O bispo entrou, um criado fechou a porta da carruagem e os viajantes
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se puseram a caminho, seguidos por sua comitiva. Pandora pensou com ironia que aquela partida deveria ser saudada por um toque de trombetas.

Ficou a contempl-los, enquanto eles se afastavam, e ento voltou para o palcio.

Tinham partido, finalmente!

Estava livre, mas qualquer alegria que sentisse ficava prejudicada por aquilo que seus tios haviam dito.

Sem se dar muito bem conta de onde seus ps a conduziam, entrou no escritrio de seu tio.

Seria um aposento agradvel, se sua tia no o houvesse decorado com cortinas cor de mostarda e um tapete em que a mesma cor predominava, misturada com vrios tons de marrom.

Era uma pea fria, sem flores ou toques coloridos que aliviassem sua austeridade.

No entanto, as cadeiras eram bem estofadas, pois seu tio apreciava o conforto, e na grande mesa empilhavam-se papis, dispostos na mais perfeita ordem.

Pandora imaginava estar classificada sob a rubrica: Pandora Stratton
- sobrinha e objeto de caridade.

Se tivesse dinheiro, pensou, iria para Londres, encontraria um emprego e me tornaria independente.

Era uma ideia to revolucionria, to pouco prtica, que ela faria melhor em pensar em voar para a Lua ou viver debaixo da terra.

O pouco dinheiro que seu pai lhe deixara estava sob a administrao de seu tio. imaginava que seria usado para comprar seu enxoval e para providenciar um dote, por ocasio de seu casamento.

Seu casamento! Sentiu-se novamente muito perturbada diante da ideia.

- O que posso fazer? Oh, papai, o que posso fazer? - perguntou em voz alta.

Sabia que seu pai e sua me jamais a forariam a desposar um homem de quem no gostasse.

Haviam se casado contrariando a famlia Chart, horrorizada com o fato de que um de seus membros desposasse algum to desprovido de dinheiro e, para suas mentalidades, to pouco importante quanto um pastor.

Lady Eveline havia dito  filha, porm, que vrios membros da famlia compreenderam a razo de sua escolha, no momento em que conheceram Charles Stratton.

- Seu pai era uma pessoa to feliz, atraente, simptica... Acho que minhas tias, minhas primas e at mesmo minha av, que reprovavam nosso casamento, quase se apaixonaram por ele!

Pandora sabia perfeitamente que isto no queria dizer, em absoluto,

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que elas sacrificariam uma posio importante na sociedade, como sua me havia feito, e seriam infinitamente felizes com muito pouco dinheiro.

- Alguma vez se arrependeu por ter desposado papai? - perguntou Pandora, certa vez.

Sua me riu.

- Por acaso pareo me censurar por ser a mulher mais feliz do mundo? - perguntou. - Adoro seu pai, ele me adora e, o que  melhor, temos uma filha adorvel! Por que pedir mais?

Sua me parecia no se preocupar por no poder mais fazer as coisas que fizera em solteira. Estavam descartadas de vez as possibilidades de ir a bailes e festas em Londres ou de aceitar os convites que de vez em quando recebia do prncipe regente, em Carlton House. Em vez disso, ficou muito satisfeita em tornar a pequenina casa paroquial confortvel e atraente para seu marido, e fazer o mximo de economia, a fim de que se dessem ao luxo de cavalgar um ao lado do outro no vero e caar no inverno.

De certo modo, no parecia inusitado que os cavalos que Charles Stratton apreciava tanto fossem responsveis por sua morte trgica.

Mesmo em meio  tristeza, Pandora algumas vezes achava melhor que seu pai e sua me tivessem morrido juntos, pois um estaria completamente perdido sem o outro.

Era o tipo de casamento que ela desejava para si. Tendo visto duas pessoas to felizes, to contentes uma com a outra, como poderia encarar a possibilidade de desposar algum como Prosper Witheridge? Alm de lhe despertar averso fsica, ele era pretencioso, carola e pronto para criticar e achar defeito em tudo, exatamente como sua tia.

Seu pai tinha sido extremamente tolerante com as falhas dos outros.

- Eles fazem o melhor que podem - dizia, quando algum era criticado, ou: - Precisamos dar-lhes uma oportunidade. As pessoas s podem dar aquilo de que so capazes e muitas vezes exigimos demais.

Prosper Witheridge jamais pensaria assim e Pandora sabia que ele teria muito a dizer sobre a festa que se desenrolava naquele momento, em Chart Hall.

Ningum, no palcio do bispo, jamais pensou o quanto ela se sentia magoada ao ouvi-los referir-se em tom de desprezo ao homem que era seu primo.

Podia muito bem ser tudo aquilo que diziam que era, mas achava que dariam demonstraes de tato se no o condenassem na presena dela.

Ainda no conhecia o atual conde de Chartwood, pois seu av, o quarto conde, havia morrido dois meses aps a morte de seu pai e sua me.

Era bem velho e estivera doente durante algum tempo. Pandora sabia

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que, como era de se esperar, ele odiava profundamente seu herdeiro presuntivo e jamais lhe permitira pr os ps em Chart Hall.

A atitude de seu av era compreensvel, pois os dois irmos de sua me tinham sido mortos na guerra. O mais novo ingressara na marinha e morrera com apenas dezesseis anos, na batalha do Nilo, lutando ao lado de Nelson, em sua magnfica vitria sobre a armada francesa. O mais velho, de quem Pandora gostava muito, foi morto na batalha de Waterloo.

Seu pai sentiu um choque, no somente por perd-los, mas tambm por saber que o ttulo e o castelo pertenceriam um dia a um primo obscuro, pelo qual no tinha o menor interesse.

Houve um momento em que a sucesso parecia estar assegurada, mas ento, subitamente, seus filhos desapareceram e sua filha morreu.

Um dos aldees dissera a Pandora:

- Quando sua me se foi, o conde virou o rosto para a parede e seu corao se consumiu...

Pandora podia compreender porque sentia exatamente o mesmo, mas fora-lhe doloroso saber que o quinto conde de Chartwood era um homem muito diferente de seus tios.

Logo chegaram a Lindchester histrias de suas extravagncias, de festas loucas, de somas imensas gastas com cavalos, de um comportamento aparentemente to dissoluto que as pessoas murmuravam a respeito na presena de Pandora.

Ento, logo aps a sucesso, o novo conde viera para Chart Hall e Pandora esperou, com certa ansiedade, que ele a convidasse para conhec-lo.

Havia muitas pessoas no castelo e na imensa propriedade que poderiam lhe informar onde ela fora viver. Por ocasio do Natal, comearam os murmrios mais incrveis, relativos a orgias em Chart Hall.

No se falava de outra coisa na igreja da aldeia, que se assemelhava a um viveiro de periquitos.

Aos poucos, o assunto foi morrendo, at que o conde voltou uma segunda vez, dois meses mais tarde. As famlias do condado, que pareciam estar dispostas a lhe fazer uma visita, ficaram por demais escandalizadas e mudaram de ideia.

Quando Pandora se dirigia s pessoas da aldeia, todos lhe falavam de mudanas e do prprio conde com o medo estampado no olhar.

Sua tia disse claramente o que pensava dele, sem poupar palavras, e Pandora soube que seu tio havia feito uma visita formal, no somente para ficar conhecendo o novo conde, como tambm para censur-lo em relao a determinados fatos que estavam acontecendo no castelo.

O bispo voltou de l irado e afrontado.

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- H muito tempo no era insultado desse jeito! - declarou.

No contou exatamente o que havia acontecido. Pandora apenas conseguiu perceber que o conde havia zombado de tudo aquilo que seu tio reverenciava.

- Como ser que o conde ? - perguntou Pandora a si mesma,
De repente veio-lhe uma ideia. Era algo to fantstico que durante um
breve momento quase riu, ao pensar nela.

Conseguia ouvir sua tia dizer claramente, naquela mesma sala: bm - O conde diverte-se com rameiras e atrizes. Nenhum homem decente admitiria ser visto na companhia de tais criaturas!

Nenhum homem decente...

mas Aquelas palavras pareciam estar gravadas a fogo na mente de Pandora e, subitamente, pareceu-lhe que havia encontrado uma soluo, uma maneira de escapar.

Sentou-se  mesa de seu tio, algo que jamais teria ousado fazer, se ele estivesse em casa, e escreveu uma carta no elegante papel de linho que era usado unicamente por ele.

Dobrou-o e foi para o quartinho que lhe havia sido dado, no segundo, andar do palcio.

Tocou a campainha, chamando a criada e, quando ela veio, deu-lhe instrues em uma voz to calma e controlada, que quase a surpreendeu.

Uma hora mais tarde, Pandora afastava-se do palcio em uma das carruagens que ela e sua tia usavam quando iam fazer visitas em Lindchester.

O velho cocheiro pareceu ficar surpreso quando ela lhe disse aonde
queria ir, mas estava h muito tempo a servio do bispo para questionar qualquer ordem que lhe era dada.

Pandora sentou-se na carruagem aberta, tomando o cuidado de verificar se o pequeno ba contendo suas roupas tinha sido colocado na parte de trs.

Atravessaram o rio pela antiga ponte, construda no tempo dos normandos.

J se afastara uns trs quilmetros da cidade e encontrava-se no meio daquele campo belo e silencioso que havia conhecido durante toda a vida.

L os bosques eram menos densos e recordou o quanto gostava de errar

por dentro deles, quando criana, e percorr-los a cavalo, quando ficou mais velha. Finalmente chegou  aldeia, com suas casinhas pintadas de branco e preto e os tetos cobertos de palha.

Agora, o castelo j se tornara visvel. Era magnfico em qualquer poca do ano, principalmente no vero, quando ficava rodeado por rvores verdes, que se assemelhavam a jias preciosas. Suas pedras cinzentas
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contrastavam com as rvores e as chhamins; esttuas e urnas sobre o telhado destacavam-se contra o cu. Tinha uma majestade e uma imponncia que denotavam com muita preciso a grande famlia que o possua. Cada gerao dos Chart fizera um acrscimo  edificao original, que havia sido iniciada no-reinado da rainha Elizabeth.

O segundo conde acrescentara duas alas e uma nova fachada, tornando o palcio belo e imponente.

- Adoro Chart! - exclamou Pandora.

Aquilo tudo fazia parte de sua vida. L estava o lago onde seu pai a levava para passear de barco, em meio aos lrios da gua, os gramados por onde rolava quando era novinha, gritando, cheia de excitao.

Na parte traseira do castelo havia o pomar, onde costumava brincar de esconde-esconde, e as estufas. O velho jardineiro lhe dava pssegos to grandes que ela mal podia segur-los em suas mos pequenas.

- Se pelo menos tio George no tivesse sido morto em Waterloo...
- murmurava com melancolia.

Ele se parecia demais com sua me e jamais teria permitido que ela fosse morar com os parentes de seu pai, que no gostavam dela.

A calea aproximou-se da enorme escadaria que terminava na porta da frente.

Um criado, que Pandora no reconheceu, desceu correndo a escada, a fim de abrir a porta da calea, e Pandora saltou.

Teve a sensao de que estava voltando para casa, ao percorrer o enorme hall repleto de esttuas de deusas gregas, colocadas em nichos. O teto, pintado por um artista italiano, luzia com mil cores.

Um mordomo um tanto estranho, com uma expresso de desdm no olhar, estava l parado,  espera de que ela se manifestasse.
- Desejo falar com o conde de Chartvvood.

Estava desconcertada, pois havia verificado que no conhecia os criados. Esperava que o velho Burrows ainda estivesse l, bem como os criados que um dia haviam sido meninos na aldeia e cantavam no coro da igreja.

O mordomo no perguntou seu nome, mas lanou-lhe um olhar desdenhoso, antes de atravessar o hall e abrir a porta de uma das salas de estar.

Seu pai gostava demais daquele aposento, pois dava para o jardim e era menor do que os grandes sales, sendo, portanto, mais fcil mant-lo quente durante o inverno.

Pandora esperou, mas, para sua surpresa, o mordomo entrou no aposento, deixando-a no hall.

- H uma damme que deseja v-lo. milorde.

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- Outra? - respondeu uma voz. - Meu Deus, Dalton, mas quem , desta vez ?

- No tenho a menor ideia, milorde.

- Mais uma abelha voando em torno do pote de mel, imagino...

Elas sentem seu cheiro, Dalton, onde quer que se encontrem!

- O senhor  quem o diz, milorde.

- Pois ento mande-a entrar, mas saiba que no fui eu quem a convidou.

O mordomo voltou para perto de Pandora, ainda surpreendida e um pouco chocada com o que acabara de ouvir.

Desejou no ter vindo, mas agora era tarde demais. No havia mais nada a fazer, a no ser obedecer ao gesto quase imperioso que o mordomo esboou, indicando que ela devia entrar.

Foi o que fez, endireitando instintivamente as costas e levantando um pouco o queixo.

Bastou um olhar rpido para notar que nada havia mudado, desde o tempo de seu pai. As trs janelas muito grandes deixavam passar os raios de sol e, por um momento, ofuscaram seus olhos, de tal forma que lhe foi difcil distinguir o nico ocupante do aposento.

Logo em seguida o viu.

Estava sentado muito  vontade em uma poltrona de espaldar alto,

que seu av costumava ocupar. Uma de suas pernas estava dobrada sobre o brao da poltrona e a outra estendida diante dele. Tinha um copo na mo e, durante um breve momento, Pandora sentiu dificuldade em fixar o olhar em seu rosto.

Viu ento que ele, sem sombra de dvida, era um Chart, com os mesmos olhos cor de violeta que os dela, exceto pelo fato de que os dele eram mais escuros e continham uma expresso de dureza. As sobrancelhas, da cor do cabelo, quase se encontravam.

Havia Chart loiros e Chart morenos. Estes ltimos eram perigosos e tambm aventureiros.

O novo conde era muito moreno e seu cabelo tinha uma aparncia quase byroniana. Esta impresso era acentuada pelo fato de ele ter afrouxado a gravata, que pendia na frente da camisa.

Estivera cavalgando, notou Pandora, pois no somente usava calas de montaria como suas botas muito polidas estavam cobertas de poeira.

Ficou a contempl-lo, mal percebendo o que fazia. Ento ele lhe perguntou, em tom carregado de zombaria:

- Quem  a senhorita e o que deseja?

Um tanto desajeitadamente, pois estava muito interessada no que via, Pandora fez uma pequena reverncia.

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- Sou sua prima, Pandora Stratton, e vim at aqui solicitar... sua ajuda...

- Pandora Stratton... E est me dizendo que  minha prima?

- No  um parentesco muito prximo, mas o falecido conde era meu av.

O conde jogou a cabea para trs e riu.

- Seu av? Graas a Deus que no se parece com ele, mas estou certamente muito surpreendido em v-la, prima Pandora. Pelo que sei, deveria ser evitado por todos os meus parentes.

-  mesmo? No sabia.

- Pois ento deve estar muito mal informada... - replicou o conde, com uma expresso zombeteira no olhar. - Mas espere a... j sei! Stratton! Deve ter algo a ver com aquele bispo carola que me visitou na ltima vez que estive aqui.

- ... meu tio.

- Ento s me resta dizer que sinto muito por voc!

- Eu tambm... digo o mesmo.

Ele sorriu pela primeira vez e sua fisionomia alterou-se substancialmente.

- Espero que queira me falar a respeito, mas se vier me pedir auxlio para os pobres, os doentes, os aleijados, e os desempregados de Lindchester, no conte comigo!

- No vou pedir nada para nenhum deles, apesar de que ficariam muito reconhecidos... no, vim pedir... por mim mesma!

Enquanto falava, sentou-se em uma cadeira em frente ao conde.

Ele a fitou, notando, segundo lhe pareceu, os menores detalhes de sua saia simples e do chapu enfeitado unicamente com as fitas com que era amarrado ao pescoo.

- Acho que voc tem alguma semelhana com esses nossos ancestrais de nariz empinado, cujos retratos povoam as paredes do castelo...

- Como voc sabe, existem Chart loiros e Chart morenos. Somos representantes dos dois tipos.

- E qual  a diferena?

- Um  bom e o outro  mau. O conde riu novamente.

- Isto torna as coisas bem mais simples e eu fao o melhor para viver de acordo com aquilo que  esperado de mim. Voc disse que precisa de minha ajuda. O que ser que aconteceu para que a santa viesse procurar o pecador?

Foi a vez de Pandora rir, pois no conseguia controlar-se. Depois ficou muito sria e disse:


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- Vim procur-lo, primo Norvin, pois  a nica pessoa, acho eu, que poder... salvar-me.

- Espero que no esteja se referindo  sua alma...

- Estou falando sobre minha vida... ou melhor, sobre meu futuro. Meu tio, o bispo, pretende que eu despose seu capelo, o cavaleiro Prosper Witheridge.

- E que atitude espera que eu tome? - perguntou o conde, sem maiores rodeios.

Pandora sentiu-se subitamente intimidada e baixou os olhos. Aps um momento, disse bem baixinho:

- Estava pensando... se voc me convidaria para ficar aqui uma ou duas noites...

Fez-se o mais profundo silncio depois que ela falou. Em seguida, o conde disse:

- Ser que a estou ouvindo bem? Voc est se convidando para ficar comigo, por pensar que de certo modo este fato impedir seu casamento?

Fez-se uma pausa carregada de tenso e ele acrescentou:

- Devo ser muito pouco perspicaz, mas no entendo qual a causa desta sugesto.

Pandora prendeu a respirao.

- Espero que aquilo que vou dizer no o deixe zangado.

- E que importncia tem, se isto acontecer?

- Talvez voc no se mostrasse solidrio e compreensivo.

- So duas virtudes que infelizmente no fazem parte de minha formao. Mesmo assim, gostaria que voc fosse adiante e me explicasse melhor o que tem a dizer.

- Meu tio e minha tia foram at Londres, assistir a uma festa no palcio de Lambeth, residncia do bispo.

- Sinto muito por eles! Um pastor j  demais, em qualquer ocasio, mas um conclave de pastores, sem a menor dvida, seria um desafio para a pacincia de qualquer santo!

- Antes de partirem... ouvi meu tio dizer que seu capelo havia pedido a permisso para me fazer a corte. Minha tia insistiu demais que meu tio consentisse e que eu desposasse o sr. Witheridge.

- E no  esta a sua vontade?

- Ele  horrvel! No gosto dele e faria qualquer coisa para no ser sua mulher.

- Prossiga com sua histria. Ainda no estou percebendo como entro nela.

Pandora ficou intimidada mais uma vez. O rubor subiu-lhe ao rosto e ela disse:

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- Minha tia comentou que as mulheres que voc convida para vir aqui so criaturas de vida ruim... Falou tambm de atrizes... e que nenhum homem decente deveria ligar-se a elas.

No conseguia encarar o conde e prosseguiu, cheia de hesitao:

- Achei que se eu ficasse aqui o sr. Witheridge desistiria de me fazer a corte.

Fez um breve silncio e em seguida o conde caiu na gargalhada. Riu at quase perder o flego. Ento, pela primeira vez endireitou-se na cadeira e disse:

- Segui seu raciocnio, mas no sei se  uma piada. Jamais ouvi coisa mais engraada em toda a minha vida... Imagine s... voc procurar justamente a mim para livr-la das atenes do pastor!

Levantou-se, atravessou a sala e foi at uma mesinha cheia de garrafas de bebida. Serviu-se e disse:

- Acho que fui muito pouco hospitaleiro, pois no lhe ofereci nada para beber. Gostaria de tomar alguma coisa?

- No... obrigada.

Pandora encarou-o e havia uma expresso de profunda ansiedade em seu olhar.

- E voc deseja fazer algo to desagradvel? - perguntou o conde, voltando para perto dela e ficando em p ao lado da lareira, com o copo na mo.

- No h outra soluo. Estou em uma encruzilhada. Tio Augustus  meu tutor e quando meu pai e minha me morreram... ningum mais se ofereceu para me receber.

- O que acontecer se voc simplesmente disser que no se casar com o homem por quem sente uma profunda averso? - perguntou o conde. Desta vez no estava sendo irnico.

- Eles me obrigaro... Acho que no me resta outra alternativa. Penso que no tenho escolha. Minha tia no gosta de mim e sente-se ansiosa para livrar-se de minha presena.

- Deve haver alguma alternativa para o que voc est sugerindo. Sabe muito bem o que diro de voc, se permanecer aqui.

- Sim... compreendo. Mas, por favor, deixe-me ficar apenas por duas noites. Tenho certeza que depois disto o sr. Witheridge mudar de ideia. Tem muita conscincia da posio que ocupa na sociedade e disse que voc transformou este lugar em... um antro de pecado!

- Mas que sujeito impertinente! O que uma pessoa como ele pode saber do pecado e quem  ele para me julgar?

- Voc escandalizou de fato... a vizinhana.

-  exatamente esta a minha inteno

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Subitamente, sua fisionomia assumiu uma expresso dura.

- Quis que todos ficassem chocados e horrorizados. Isto inclui tambm meus parentes, todos eles, at mesmo voc!

Sua voz, nesse momento, adquiriu um timbre metlico e desagradvel e em seus olhos surgiu um brilho que a Pandora pareceu de extrema crueldade. Em seguida, ele disse:

- Mas  claro! Por que estou hesitando? Venha ficar comigo, minha pequena Pandora. Venha ficar neste ninho de marimbondos. Sinta-se  vontade no antro do pecado. Eu lhe dou as boas-vindas e recebo-a de braos abertos!

- Est sendo sincero?

- J no lhe disse que estou disposto a agir como um perfeito anfitrio e convid-la para ser minha hspede pelo tempo que quiser ficar aqui? Minha casa lhe pertence!

- Oh, obrigada! Obrigada! Poderia pedir a um criado que entregasse este bilhete ao cocheiro e lhe dissesse para regressar a Lindchester sem mim?

- De que se trata?

-  para o sr. Witheridge, comunicando-lhe onde me encontro.

- Voc pensa em tudo, no  mesmo?

- Tento, pelo menos. Ele estar de volta hoje  noite, pois foi visitar seu pai, e quando souber que me encontro aqui ficar ao mesmo tempo horrorizado... e enojado!

- com toda certeza! - disse o conde, e havia uma nota de satisfao em sua voz.

- Trouxe bagagem comigo, esperando que voc fosse suficientemente compreensivo e me permitisse ficar aqui.

O conde estendeu a mo, puxou o cordo da campainha e quase imediatamente a porta se abriu.

- Entregue este bilhete ao cocheiro da srta. Stratton e diga a ele que volte para casa. A srta. Stratton vai ficar conosco, portanto traga sua bagagem.

- Sim, milorde.

Pandora no deixou de notar que o mordomo parecia muito surpreendido.

- Pensei que fosse encontrar Burrows aqui. Voc substituiu muitos criados?

- No tenho a menor ideia. H algum que se encarrega desse tipo de coisas para mim.

Pandora sabia que esta era uma das razes pelas quais as pessoas da aldeia tinham ficado preocupadas e assustadas.

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Estava para fazer mais uma pergunta quando a porta se abriu e uma das mulheres mais belas que havia visto at ento entrou na sala.

Seus cabelos eram de um vermelho intenso e a pele, em contraste, era to branca que Pandora levou um ou dois segundos para perceber que no se tratava de algo natural. Seus lbios eram escarlates e ela usava uma quantidade inusitada de jias, juntamente com um vestido generosamente decotado e que escondia muito pouco daquele corpo sensual e bem torneado.

Ela parecia flutuar na sala e olhou para Pandora e para o conde de um modo algo ofensivo.

- Ouvi dizer que chegou uma senhora - disse, acentuando a palavra -, e fiquei a imaginar quem poderia ser. Imaginei que seus convidados s chegariam mais tarde.

- No precisa ficar exaltada. Apresento-lhe minha prima, Pandora Stratton, a quem ainda no conhecia.

- Espera que eu acredite nisso?

Olhou para Pandora com ar de suspeita ainda maior.

Achando que deveria fornecer uma explicao, Pandora apressou-se em dizer:

- Moro em Lindchester e vim at aqui pedir a ajuda de meu primo.

- Ele no tem dinheiro para fins de caridade - disse a mulher com muita grosseria. - Eu mesma cuido disso!

- Cale-se, Kitty, e comporte-se! Minha prima tem todo o direito de pedir minha ajuda, se quiser e, na realidade, no est atrs de dinheiro.

- Ento o que  que ela quer?

- Um convite para passar uma noite ou duas no castelo, pois acha que isto esfriar o ardor de um pastor que deseja despos-la.

A mulher olhou para ela com ar de incredulidade e em seguida riu.

- Meu Deus do cu! Mas, afinal de contas, onde estamos? Nesta pea no h um papel para voc, Norvin, como deve saber muito bem.

- Pelo contrrio. Estou disposto a interpretar o papel de diretor de cena ou ento do vilo. Que tal comearmos pelo incio? Quero apresent-la.

Fez um gesto com a mo.

- Pandora, quero lhe apresentar Kitty King e, como imagino que voc no conhea o teatro londrino, devo lhe informar que ela desempenha papis importantes no teatro de Drury Lane e tambm  a substituta eventual da famosa madame Vestris, o que alis faz com muita garra!

Aquilo tudo no significava nada para Pandora, mas obviamente agradava Kitty King.

- Garra  a palavra exata! - disse a atriz. - Voc deveria me ver
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no palco, de calas e botas. O pblico chega a ficar em p, no  mesmo, Norvin?

- Eles apreciam v-la! - replicou o conde.

- E h muito o que ver!

- Voc precisa emagrecer um pouco para seu prximo papel.

- Impossvel, com todas as bebidas que existem neste lugar. Alis, bem que gostaria de tomar uma agora.

- Desculpe-me se pareo pouco hospitaleiro, mas minha prima me deu muito o que pensar.

O conde puxou novamente o cordo da campainha.

- Champanhe! - ordenou, assim que a porta se abriu.

- Estava justamente trazendo, milorde - respondeu o mordomo. Atrs dele surgiram dois criados, carregando um grande balde de prata no qual havia duas garrafas.

- No entendo o que est acontecendo.- disse Kitty, sentando com muito espalhafato no sof e cruzando as pernas, de modo a exibir uma parte do tornozelo. - Nunca soube recusar nada a um amigo que estivesse em dificuldades.

- Ento voc  exatamente a pessoa de quem minha prima precisa, neste momento.

Kitty King olhou para Pandora com ares mais benevolentes.

- Mas o que h de errado com o tal pastor? - inchigou. - Parece-me que voc tem tudo para ser a mulher dele...

- No  verdade e, para ser franca, preferia morrer a me casar com ele!

- No acredito! - disse Kitty, rindo. - Nenhum homem vale a pena que se morra por ele!  preciso tentar viver com ele e isto  muito mais difcil!

Riu novamente e estendeu a mo, pegando uma taa de champanhe que um dos criados servia em uma bandeja de prata. Levantando a taa em direo ao conde, brincou:

- Que a vida seja breve, porm alegre!  a minha divisa! O criado ofereceu uma taa a Pandora.

Ela hesitou durante alguns momentos.

- Tome um pouco de champanhe - disse o conde, - Tenho certeza de que voc precisa dela. Acho que foi preciso lanar mo de muita coragem para vir at aqui.

- Sou-lhe muito grata - disse-lhe Pandora em voz baixa.

- No tem por qu e pressinto que voc provavelmente se arrepender por este gesto impulsivo. Mas por que haveria eu de me preocupar?

No tenho nada a ver com o que voc faz, nada! Ele se exprimia com uma certa violncia e Pandora olhou-o surpreendida.

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Ento disse a si mesma que no faria crticas a seu comportamento ou ao de qualquer outra pessoa na casa.

Havia se voltado para o conde em um momento de desespero, esperando que lhe jogasse um salva-vidas, e lhe seria eternamente grata pela ajuda que ele estava lhe prestando.

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CAPTULO II

Os convidados chegaram um pouco mais tarde, enquanto o conde e Kitty ainda tomavam champanhe.

Eram trs jovens aristocratas, todos eles detentores de ttulos de nobreza, mas como eram sempre chamados por seus nomes de batismo
- Freddie, Clive e Richard - Pandora no conseguiu saber com exatido de quem se tratava.

Tinham vindo de Londres, cada um em seu coche, acompanhados por trs mulheres to atraentes quanto Kitty, desde que se aceitasse o seu estilo...

Pandora ficou sem saber quais eram seus sobrenomes, mas isto parecia no ter muita importncia, pois eram tratadas por minha pombinha ou minha gatinha por seus adoradores, que no escondiam o quanto estavam fascinados com elas.

Os trs cavaleiros declararam que suas gargantas estavam secas, devido  poeira da estrada, e que a viagem os deixara exaustos.

Providenciou-se rapidamente mais champanhe e eles fizeram um brinde ao conde e a Kitty, usando de muitas palavras de duplo sentido, que Pandora ouviu com certo constrangimento. Eram, no entanto, to bemhumorados e demonstravam tamanho prazer por se encontrarem em Chart Hall que ela os achou muito divertidos, ao mesmo tempo que apreciava sua elegncia.

Ento a porta se abriu e mais um cavaleiro surgiu. Diversamente dos outros, foi anunciado pelo mordomo.

- Sir Gilbert Longridge, milorde!

De bela aparncia e vestido com sofisticao ainda maior, sir Gilbert era mais velho do que os demais.

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Enquanto ele atravessava a sala em direo ao conde, Pandora sentiu que nele havia algo que no lhe agradava. No conseguia entender com clareza seus sentimentos, mas seu pai sempre dizia que ela era muito perspicaz no que dizia respeito s pessoas e aos cavalos e que quase nunca se enganava.

- Sozinho, Gilbert? - exclamou o conde, surpreendido.

- Fanny no compareceu - respondeu sir Gilbert. Sua voz soava desagradavelmente. - Nunca mais gastarei meu tempo e meu dinheiro com uma mulher que no sabe manter seus compromissos. O duque que fique com ela, estou pouco me importando!

- Ele ficar encantado - comentou Freddie. - Eu pensaria duas vezes antes de sair com suas namoradas. Voc as mima to excessivamente que o preo delas vai acima de todas as possibilidades do mercado.

- De que vale o dinheiro, meu caro, a no ser para nos proporcionar muitos prazeres? - perguntou sir Gilbert com afetada indolncia.

Olhou em torno da sala e seu olhar pousou sobre Pandora. Durante alguns momentos olhou-a sem falar e, em seguida, indagou:

- Ser que me engano ou estamos em nmero par? Como  que voc pde ser to previdente, meu caro Norvin, a ponto de saber que eu chegaria aqui de mos vazias?

- Quero lhe apresentar minha prima, Pandora Stratton. No esperava que ela tomasse parte em nossa reunio, pois chegou de improviso.

- E pode haver algo de mais agradvel do que um imprevisto? perguntou sir Gilbert em tom melfluo.

Caminhou at Pandora e, tomando a mo dela nas suas, declarou:

- Voc e eu fomos fadados um para o outro, minha linda criatura, e at hoje jamais ousei enfrentar o destino.

No momento em que ele a tocou, Pandora compreendeu que no gostava nem um pouco dele. Estava imaginando como poderia retirar a mo, quando o conde disse:

- No quero apress-los, mas o jantar ser servido s sete e meia. Trouxe Alphonse comigo e no gostaria de deix-lo enraivecido se o jantar esfriasse. Vocs sabem como esses franceses so temperamentais.

- Fico muito contente em saber que Alphonse est aqui - comentou Clive. - Ele  ainda mais essencial para meu bem-estar do que voc, boneca.

Beijou o rosto da mulher sentada a seu lado. Tinha olhos negros, belos cabelos e Pandora achou que era a mais perturbadora de todas as mulheres presentes.

Ao mesmo tempo se deu conta de que os artifcios empregados pelas trs mulheres, que adivinhou serem atrizes, podiam ser muito enganadores.

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Aps contempl-las durante alguns momentos, constatou que elas, sem dvida, precisavam da magia das luzes da ribalta para esconder as olheiras, as rugas e a ctis spera, que  primeira vista no eram evidentes. Seus toucados ornados com plumas de avestruz, os mantos de tafet e os vestidos enfeitados com rendas e laos conferiam-lhes a aparncia colorida e extravagante de um bando de beija-flores.

- Vamo-nos vestir - disse a criatura a quem chamavam de Hettie.
- Trouxemos nossos melhores trajes, para que eles faam justia a esta manso ancestral.

Ela se exprimia com ironia e o conde retrucou:

- Vocs, com toda certeza, daro um toque de alegria a este mausolu. Deus sabe que  tudo de que preciso!

Pandora encarou-o, surpreendida. Amava imensamente aquela casa e admirava suas nobres propores e a coleo de tesouros que ela abrigava. No conseguia acreditar que algum pudesse menosprez-la.

Como se o conde tivesse percebido o que ela sentia, fitou-a e declarou:

- Se est comeando a mudar de ideia e quer deixar esta casa, ainda  tempo, pois poder contaminar-se...

Ningum ouviu o que ele disse e Pandora, encarando-o, imaginou se ele se dava conta de que ela estava ao mesmo tempo aturdida e um tanto chocada.

- No, claro que no... - balbuciou. - Voc  muito gentil em me receber e tenho certeza de que isto produzir o efeito desejado sobre o sr. Witheridge,

- E isso,  claro,  tudo o que importa.

Pandora saiu apressadamente da sala, em companhia das outras mulheres.

Quando chegou perto delas, vrou-se e notou que, enquanto o conde se voltava para conversar com um de seus amigos, sir Gilbert a contemplava de um modo que a deixou nervosa.

Enquanto subiam a imponente escadaria central, que tinha sido usada por tantos ancestrais dos Chart, Pandora percebeu, a partir do que elas diziam, que unicamente Kitty tinha estado antes no castelo. - Meu Deus, mas como  grande! Aqui cabe um exrcito! - exclamou uma das atrizes.

- Por que no convidou todo o elenco para vir aqui, hein, Kitty?
- sugeriu uma outra.

- A casa de sir Edward Trentham no  muito longe daqui - respondeu Kitty. - Gabrielle est com ele e h muito mais gente l. Vem todo mundo jantar.

As outras soltaram gritinhos de alegria e Pandora percebeu que sir Edward era o favorito delas,

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- Sabem o que ele deu a Gabrielle na semana passada? - perguntou uma delas.

- Mais um colar de diamantes?

- No. Uma casa em Chelsea, com escritura passada em seu nome!

- Que sorte que ela tem! - exclamou Hettie. - Richard jamais me faria um presente desses.

- Voc devia fazer com que ele parasse de jogar, pois  apaixonado por um baralho. Fico furiosa quando um homem perde em uma mesa de jogo o que ele poderia ter gasto comigo.

- Concordo com voc - disse Hettie.

Seus cabelos eram to loiros que quase chegavam a ser prateados. Havia pintado os clios de tal maneira que eles ficaram tesos como pequenos palitos de fsforo.

Assim que chegaram ao andar de cima, Pandora constatou que,  espera delas, estava uma governanta a quem ela nunca tinha visto.

Ficou muito surpreendida por no ver a velha sra. Meadowfield, que estava em Chart Hall desde a primeira infncia de Pandora.

A nova governanta era mais jovem e tinha as mesmas maneiras desdenhosas e um tanto insolentes que Pandora havia notado no mordomo.

- Boa noite, minhas senhoras! vou mostrar-lhes seus quartos. Enquanto as outras esperavam, Ktty disse:

- vou deix-la entregue  sra. Jenkns. No se atrase! Seu primo fica muito aborrecido se os sufls murcham. Garanto que isto no acontecer com nenhuma de ns, hoje  noite!

Deu-lhe as costas e entrou em um quarto que Pandora percebeu situarse ao lado do quarto principal, no qual seu av havia sempre dormido.

A sra. Jenkins levou as outras mulheres para quartos separados um do outro por um quarto intermedirio. Ficou intrigada com esse arranjo, pois lembrava que, quando sua me desempenhara o papel de anfitri em Chart Hall, aps a morte de sua av, sempre acomodava os homens e mulheres solteiros em alas separadas.

Foi a ltima a receber a ateno da governanta.

- Chegou sua vez, srta. Stratton - disse em um tom um tanto familiar. - Coloquei-a no quarto rosa.

- Oh, que bom! Foi sempre um de meus quartos favoritos e adoro a vista para o jardim!

A sra. Jenkins contemplou-a e perguntou:

-  mesmo verdade que  prima de milorde?

- Mas  claro! Minha me, quando solteira, era lady Eveline Chart e o velho conde era meu av.

- Ver que as coisas agora so um pouco diferentes.

Pandora no soube como responder. Em vez disso, apressou-se em
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entrar no quarto rosa e constatou que seu ba estava sendo aberto por uma criada a quem reconheceu.

- Boa-noite, Mary! Que bom encontr-la aqui! No sabia que voc estava trabalhando no castelo.

- Ela  nova - disse a sra. Jenkins, antes que Mary dissesse qualquer coisa.- Se ela no der conta de suas tarefas, espero que a senhorita me comunique e eu providenciarei outra pessoa.

- Tenho certeza de que Mary cuidar de mim admiravelmente.

- Essas moas do campo me parecem muito ignorantes - declarou a sra. Jenkins, com uma inflexo de desprezo na voz.

Mary no falou at que a governanta tivesse sado do quarto e ento disse a Pandora:

- Mas que contentamento to grande em v-la, srta. Pandora! As coisas agora esto muito diferentes daqueles bons tempos, quando eu vinha aqui dar uma mozinha para sua me, sempre que havia uma festa no castelo.

- Voc foi contratada permanentemente?

- Espero que sim, mas muitos dos empregados antigos foram despedidos e tem muita gente nova trabalhando aqui. Ns l da aldeia j no entendemos mais nada.

- E sua me, o que faz?

- Est ajudando na cozinha. Diz que o cozinheiro tem verdadeiros ataques de raiva e ela fica apavorada.

- Ouvi dizer que ele  francs, portanto diga a sua me que no se preocupe. Espero que vocs duas estejam contentes com o que ganham aqui.

- Estamos, sim, senhorita!

Pandora achou que Mary poderia ter problemas, se ficasse conversando com ela durante muito tempo, pois devia atender a mais uma convidada.

- Volte mais tarde, para ajudar a me vestir... Voc sabe muito bem que posso faz-lo sozinha, no ? - disse Pandora, com um sorriso malicioso.

- Quando me disseram que a senhorita estava aqui, quase ca das nuvens! Achei que nunca mais a veria em Chart Hall, sobretudo depois que isto aqui virou um entra-e-sai que no tem mais fim...

Pandora achou que seria por demais desleal para com o conde encorajar os comentrios de Mary, mas percebia que a moa estava desejosa de desabafar.

- Agora deixe-me, Mary, e volte daqui a uma meia hora.

- Est bem, senhorita.

Mary arrastou o ba do centro do quarto e colocou-o encostado  parede.

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- Retirarei o resto de suas coisas mais tarde, quando a senhorita for jantar.

Quando chegou  porta do quarto, declarou:

- Estou to contente com sua volta! Contente de fato!

Saiu e Pandora, ligeiramente intrigada, continuou a se arrumar.

Havia no modo de Mary se exprimir um certo temor. Sentiu-se preocupada e apreensiva com o que estava acontecendo em Chart Hall.

Sabia que no gostava dos novos criados e isto no se devia simplesmente ao fato de no concordar com a demisso dos antigos.

Ficou a imaginar o que seu pai e sua me teriam pensado do novo conde.

Ele era certamente muito estranho, excntrico seria a palavra apropriada, e no entanto no sentia averso por ele, ao contrrio do que tinha acontecido em relao a sir Gilbert Longridge.

No faz o menor sentido ter implicncias ou preferncias por essas pessoas, pensou ela. Vim para c porque estava desesperada e devo relacionar-me do melhor modo possvel com elas, sejam quem forem.

No entanto, no conseguia deixar de sentir que tudo aquilo era muito estranho, mas tinha certeza de uma coisa: Prosper Witheridge reprovaria indignadamente Kitty, Hettie, Lottie e Caro.

Ouvira-o dizer certa vez que os teatros eram uma armadilha para os incautos e um lugar de encontro dos pecadores.

Tenho certeza que depois disso ele no haver de querer que eu lhe pertena, pensou Pandora.

Seus pensamentos voltaram-se para o que seus tios diriam, quando soubessem onde ela estivera.

Se o conde me deixar ficar, permanecerei aqui at sexta-feira de manh, falou para si mesma. Se voltar antes para o palcio, Prosper estar esperando para me censurar.

J conseguia imaginar os sermes que ele pregaria. Como se o simples fato de pensar nele fosse suficiente para atra-lo, Mary entrou no quarto e disse:

- Senhorita, l embaixo tem um cavalheiro que deseja lhe falar.

- Um cavalheiro?

- O criado disse que  um pastor. O corao de Pandora disparou.

No tinha dvidas de quem se tratava, mas no esperava que ele chegasse to rapidamente.

Constatou que eram sete horas. Se ele tivesse chegado a Lindchester pouco antes do que ela esperava, teria tido tempo de vir at o castelo,

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antes de ler seu bilhete. Devia ter mandado entregar no dia seguinte, pensou, mas agora era tarde demais.

Mary ajudava-a a vestir o traje de noite. Pertencera a sua me e ela o reformara. Colocara-o no ba porque achava que era o melhor vestido que tinha. Sentia tambm que ele deveria ser usado novamente em ChartHali......

Tinha no entanto plena conscincia de que pareceria muito simples e talvez um tanto antiquado, ao lado dos trajes vistosos que as atrizes sem dvida usariam. A aparncia delas era muito vulgar, e sabia que nem seu pai nem sua me as aprovariam.

O pensamento de Prosper Witheridge esperando por ela deixou-a agitada demais para sequer contemplar-se no espelho.

Passou em torno do pescoo o lacinho de veludo azul-turquesa que combinava com as fitas de seu vestido e disse a Mary:

- Preciso descer. H mais algum l embaixo?

- Penso que no, senhorita. As criadas disseram que as senhoras s ficam prontas no ltimo momento, pois levam um tempo enorme se pintando.

Pandora permaneceu indecisa durante um momento e disse em seguida:

- Mary, voc no quer pedir para um dos criados informar ao conde quem est a?

- Como no, senhorita!

- Diga que o cavalheiro a quem enviei o bilhete veio me ver.

- Pois no, senhorita. Pandora hesitou.

No queria descer, esperando que talvez o conde se oferecesse para acompanh-la.

Em seguida, disse a si mesma que no deveria ser covarde. Era impossvel esperar que um homem a quem acabava de conhecer se envolvesse em seus problemas pessoais, mesmo que fosse seu primo.

Endireitou-se, ergueu a cabea, percebendo ao mesmo tempo que seu corao batia furiosamente, e desceu lentamente a escadaria.

Seus ancestrais, que a fitavam nos retratos colocados na parede, pareciam infundir-lhe coragem.

Ajudem-me! - suplicava Pandora, baixinho. - Por que deveria eu temer um homem como Prosper Witheridge?

Sentia muito medo e seus dedos estavam gelados quando chegou ao hall. O mordomo disse-lhe:

- Senhorita, acomodei seu visitante no salo pequeno.

O modo como se exprimia revelou a Pandora que ele estava se

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divertindo com o que lhe parecia ser um drama e ela replicou, com fria dignidade:

- Obrigada. Penso que vamos nos encontrar no salo prateado, antes do jantar.

- Sim, senhorita.

Achou que ele a olhava de modo mais respeitoso, ao se dar conta de que ela estava habituada com os costumes da casa.

Abriu a porta do salo pequeno, uma parte do castelo que sua me muito amara e onde recebera frequentemente visitas, por ocasio das doenas de seu av.

Prosper Witheridge estava de costas para a lareira de mrmore branco. Parecia particularmente agressivo, constatou Pandora, com um aperto no corao.

Pandora esforou-se por andar lentamente em direo a ele, mantendo a mxima dignidade possvel.

Esperou at que ela se aproximasse e disse, com a voz tremendo de clera:

- Voc perdeu o juzo? Enlouqueceu a ponto de vir a um lugar como este?

- Como j lhe comuniquei em meu bilhete, vou ficar aqui com meu primo.

- Pois ento prepare sua bagagem. vou lev-la imediatamente de volta comigo.

- Meu primo convidou-me para ficar aqui como sua hspede e  o que pretendo fazer.

- S me resta presumir que voc perdeu completamente o juzo. Sabe muito bem que seus tios jamais apoiariam sua atitude e tem suficiente sensibilidade para concluir que no deve permanecer em um lugar como este.

- Pois esta casa pertenceu a meu av.

- Mas ela foi ocupada por um dissoluto e no permitirei que fique mais um segundo em sua companhia.

- O senhor no tem a menor autoridade para me impedir.

- Na qualidade de seu futuro esposo...

- No me casarei com o senhor! Quero deixar bem claro de uma vez por todas, que no o desposaria, nem que fosse o ltimo homem do mundo!

Prosper Witheridge permaneceu em silncio durante um momento, atnito. Era um homem muito presunoso. Tantas mulheres o haviam lisonjeado e solicitado que nem sequer por um momento concebeu que Pandora no caisse em seus braos, cheia de alegria e gratido.

- Sabe o que est dizendo?

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O tom de surpresa que havia em sua voz teria divertido Pandora, se ela no tivesse achado difcil pensar em algo mais que no seu corao, o qual batia loucamente.

- Eu no o desposarei! - reiterou, e desta vez com deciso ainda maior.

- Depois de ter permanecido aqui,  muito pouco provvel que um homem a aceite como esposa.

- Compreendi isto perfeitamente, quando vim para c.

-  por demais jovem e inocente para saber o que est dizendo ou fazendo.

- Tenho plena conscincia de meus atos e vim para c de propsito, pois esta era a minha vontade. A despeito de tudo o que meu tio e minha tia possam dizer... no me casarei com o senhor!

- O que a senhorita est dizendo  um total absurdo! - retrucou Prosper Witheridge, comeando a perder o controle. - vou lev-la de volta comigo e quando estivermos no palcio eu a trancarei em seu quarto, onde permanecer at a volta de seu tio.

- Pois saiba que no permitirei!

- Pois saiba que no lhe resta outra escolha.

Estendeu a mo e agarrou-a pelo brao. Sua atitude tomou-a de surpresa. Nunca imaginou que ele fosse capaz de toc-la e muito menos apoderar-se dela  fora. Debateu-se e seus dedos machucaram a maciez da carne de Pandora.

- Como ousa tocar em mim? Largue-me!

- Voc ir comigo! Espero que, quando seu tio regressar, a castigue como merece, pois seu comportamento  uma vergonha!

Comeou a arrast-la pelo salo e Pandora reagia com todas as suas foras.

Era muito frgil e ele era grande demais. Percebeu, desesperada, que estava perdendo a batalha.

- Solte-me! - disse, fora de si, e comeou a gritar, enquanto ele a arrastava brutalmente em direo  porta.

Assim que Prosper a abriu, deparou-se com o conde.

Estava vestido com seu traje de noite. Parecia ainda mais correto do que antes e quase resplandecia, com sua gravata branca de pura seda, a casaca muito bem ajustada e as calas estreitas que estavam no rigor da moda.

Ficou parado na soleira da porta e Prosper Witheridge, arrastando Pandora pelo brao, viu-se forado a no prosseguir.

- Posso saber o que est acontecendo por aqui? - perguntou o conde, em tom glacial.

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- O senhor  o conde de Chartwood ? - perguntou Prosper Witheridge, sem soltar Pandora.

- Sou eu quem deve fazer as perguntas, pois o senhor veio aqui sem ser convidado.

- Vim aqui buscar uma jovem, que no tem direito de impor sua presena ao senhor conde, e lev-la de volta para o lugar ao qual pertence.

- E com que autoridade?

- com minha prpria autoridade! Sou o capelo particular do muito reverendo bispo de Lindchester!

- Parabns! - disse o conde, zombeteiro. - E esta posio lhe confere o direito de sair por a raptando jovens criaturas do lar de seus parentes?

- No estou raptando a srta. Stratton. Seu tio, o bispo, deixou-a a meus cuidados. Mal acabei de voltar a Lindchester e fiquei sabendo que ela havia empreendido esta fuga lamentvel, que magoar profundamente aqueles que, por pura bondade, haviam-lhe proporcionado um lar decente.

- Est querendo insinuar que minha casa  indecente?

Ele se exprimia em tom cortante, mas Pandora sentia que, no fundo, estava se divertindo imensamente.

Prosper Witheridge estava por demais exaltado para se mostrar cauteloso.

- O senhor conde sabe muito bem que Chart Hall no  o lugar apropriado para uma criatura jovem e inocente.

-  uma opinio pessoal? Em caso afirmativo, gostaria de saber em que se baseia para fazer tal colocao.

- No h o menor sentido em discutirmos, senhor conde - retrucou Prosper Witheridge, um tanto desconcertado. - com sua permisso, levarei a srta. Stratton para casa. Mandarei buscar seus pertences amanh de manh.

- Pois no permitirei! Minha prima encontra-se aqui na qualidade de minha convidada e poder ficar o tempo que lhe aprouver!

- O senhor no est falando a srio!

- Achei que como homem bem-educado o senhor entendesse um bom ingls...

Pela primeira vez, desde que discutiam, Prosper Witheridge largou o brao de Pandora.

- Esta conversa  absurda! O que o senhor conde faz em sua vida particular diz-lhe unicamente respeito, mas a srta. Stratton  jovem e inocente demais para compreender.

- Compreender o qu?

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- Que o estilo de vida do senhor conde e os amigos que frequentam so alheios a tudo o que ela sabe ou imagina.

- O que sabe a respeito da vida que levo e de meus amigos?

- Sei que ela cheira mal para aqueles que vivem com correo! O que acontece na casa de seus antepassados  algo que se coloca sob o patrocnio do prprio Sat!

Estas ltimas palavras foram ditas quase aos berros e, assim que ele acabou, o conde ps-se a gargalhar.

- Quanta imaginao! As mulheres de Lindchester sem dvida devem apreciar o fogo e as punies infernais que o senhor prev para pecadores como eu! Muito bem, senhor pastor, vamos colocar os pingos nos is: no estou absolutamente impressionado com suas ameaas e como devo levar minha prima para jantar, sugiro que volte para perto daqueles que apreciam sua eloquncia.

- Se partir, levarei a srta. Stratton comigo!

O conde estava a ponto de responder quando ouviram-se passos que atravessavam o hall e Kitty e Caro surgiram por detrs do conde.

- Achei que amos nos encontrar no salo - disse Kitty. Ao notar Prosper Witheridge, interrompeu a frase e exclamou:

- Quem  esse a?

- Este cavalheiro veio dizer-nos que queimaremos no fogo do inferno e no nos oferecer nem mesmo a caridade de uma gota de gua para nos refrescarmos.

- Uma gota de gua? - disse Caro. - Mas quem est ligando para isso? Estou morrendo de vontade de tomar uma taa de champanhe!

Tomou o conde pelo brao, como se quisesse arrast-lo para que ele lhe proporcionasse o que ela desejava.

Pandora olhou o rosto de Prosper Witheridge e quase riu. No havia dvida de que ele estava chocado com a aparncia de Kitty e Caro, o que alis no era surpreendente.

Pandora jamais havia visto mulheres com saias to curtas e reveladoras. Os decotes eram mais do que generosos e as curvas de seus seios eram vistas claramente. Os cabelos estavam cobertos com jias e os braceletes em seus punhos pareciam acentuar a nudez daqueles braos.

Pandora achou que at mesmo aos olhos de seu pai elas teriam parecido fantsticas, mas para Prosper Witheridge elas eram a encarnao de tudo aquilo que ele denunciava, no que dizia respeito ao teatro e s tentaes que ali se ofereciam aos que o frequentavam.

- Nossos convidados vo chegar a qualquer momento - disse Kitty. Por que no pede a ele para ficar conosco? Ele vai nos fazer rir um bocado!

- Boa ideia! Fique para o jantar, Witheridge, e brinde-nos com o

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conhecimento ntimo que tem dos desgnios de Sat. Tenho certeza de que at mesmo adeptos fervorosos do demnio, como  o nosso caso, aprendero algo de novo.

Prosper Witheridge estava plido de dio, pois compreendia que qualquer resposta que desse o tornaria objeto de escrnio.

- No tenho mais nada a dizer, senhor conde. Deixarei esta casa e esta infeliz moa, que no tem a menor ideia da profundidade da cloaca em que est a ponto de se precipitar.

- No seremos ns que o impediremos de partir, sr. Witheridge disse o conde, dando passagem.

Prosper Witheridge voltou-se para Pandora:

- Ainda h de se arrepender por este dia! Lembrar para o resto da vida que foi a senhorita quem escolheu ir para os braos do diabo, que a tentou, ao invs de ir para o Deus que a criou!

Sua voz parecia vibrar em toda a sala. Ento,  semelhana de um cruzado momentaneamente derrotado pelas foras do mal, ele se afastou.

Atravessou o hall como uma fria, pegando bruscamente o chapu da mo do criado que o estendia e, saindo pela porta da frente, desceu precipitadamente a escada, em direo  carruagem que o esperava.

- Os sinos do inferno esto tocando! - exclamou Kitty. - Depois disso, quem no h de querer uma bebida?

- Ele me deu calafrios! - exclamou Caro. - Sinto como se ele tivesse me amaldioado!

- Ele amaldioou a todos ns - replicou o conde -, e muito especialmente a Pandora.

Encarou-a com curiosidade, mas Pandora apenas deu um suspiro de alvio.

- Ele, com toda certeza, no haver de querer casar comigo.

- Pelo visto, de agora em diante vai descrev-la como uma mulher de m reputao e a arrastar toda pintada de vermelho pelas ruas de Lindchester! - comentou o conde.

-  verdade que eles faziam isso no tempo antigo? - perguntou Kitty.

- Isso acontece ainda hoje - informou o conde. - Tome muito cuidado!

- Voc est tentando me assustar - protestou Kitty. - Tirando minhas calas compridas e voc, sou uma mulher quase respeitvel.

- Se no fosse o quase... - disse o conde, irnico. - Mas Caro tem razo. Estamos todos precisando de um drinque. Estes dramas antes do jantar so extremamente cansativos.

Caminhou em direo ao salo e Pandora seguiu-o.

Sentia-se um tanto perturbada com o que tinha acontecido. A fria e

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o desprezo presentes na voz de Prosper Witheridge haviam-na afetado, apesar de dizer a si mesma que a nica coisa que realmente importava era que ela havia se livrado dele.

Agora havia a preocupao com o que seu tio e sua tia diriam, mas sabia que no havia a menor possibilidade de ser perdoada por Prosper.

Ele era extremamente ambicioso e no havia a menor dvida de que um dia poderia vir a ser bispo, mas no se tivesse uma esposa cujo comportamento fosse escandaloso. Era assim que ele apareceria aos olhos daqueles que viviam em Lindchester.

Pouco me importa!, pensou Pandora, em uma atitude de desafio.

Mal tinham chegado  sala de jantar, onde os demais convidados j se encontravam, quando sir Edward Trentham chegou com vrias pessoas.

Ao v-lo, Pandora lembrou-se de que ele havia adquirido uma propriedade no condado, pouco antes de ela deixar Chart.

O antigo proprietrio tinha sido amigo de seu pai e agora lerribrava-se de ouvir dizer que ele tinha perdido todo o seu dinheiro nas mesas de jogo. com certeza sir Edward devia ter sido o vencedor.

Era fcil adivinhar, pelo modo efusivo com que as atrizes o acolhiam, que no s ele era rico, como tambm generoso. Todas o beijaram, passando os braos em torno de seu pescoo.

Pandora notou que era um homem por volta dos quarenta anos, vestido com trajes um tanto coloridos, como se desejasse aparentar menos idade.

- Que prazer v-lo no lugar que lhe pertence, Norvin! - disse ao conde. - Nunca estive aqui antes. Mas que bela qasa voc tem! O que pretende fazer com ela?

- Pretendo comportar-me  altura dela! Todos riram, ao ouvir tais palavras.

- No ser uma tarefa to rdua assim. No me incomodaria nem um pouco em ganh-la de voc em uma mesa de jogo.

- Infelizmente est vinculada, mas garanto-lhe que meu sucessor receber pouco mais do que paredes vazias.

Pandora achou que no tinha ouvido muito bem aquele comentrio. O que ele queria dizer com isso? Por que se referia assim quela casa maravilhosa, que era em si mesma uma pgina da Histria?

Queria pedir uma explicao, mas naquele momento sir Gilbert estava a seu lado.

- Pretendo tomar conta de voc hoje  noite, minha pequena Pandora, e mal posso exprimir o quanto este pensamento me agrada...

Pegou sua mo, enquanto falava, e levou-a aos lbios. Pandora sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, no momento em que os lbios de sir

Gilbert pousaram sobre sua pele.

-

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Sentia o mesmo em relao a Prosper Witheridge e ficou a imaginar por que tinha a desventura de atrair homens to horrveis.

- Achava que iria sentir-me abandonado e solitrio hoje  noite - dizia sir Gilbert -, mas agora sei que vou apreciar este nosso encontro de um modo tal que me sinto animado s de pensar no que poder ser

Seu rosto estava muito prximo ao dela e Pandora deu um passo atrs

Esperava que ele no se sentasse a seu lado durante o jantar, mas para seu pesar verificou que ele estava  sua esquerda. Sentiu-se aliviada ao constatar que o conde fora colocado  sua direita.

Kitty sentava-se ao lado do anfitrio e monopolizava-o, fazendo-o rir e cochichando em seu ouvido com despudor. Pandora, chocada, constatou que jamais poderia imaginar que um dia presenciaria uma cena daquelas  mesa que fora tantas vezes presidida por sua me.

Por menos que quisesse, viu-se forada a conversar com sir Gilbert e ele aproveitou o mais que pde.

- Voc  encantadora! Seus olhos fazem um contraste completo com seu cabelo e,  luz da vela, tornam-se misteriosos...

Fez uma pausa e perguntou, do modo mais insinuante possvel:

- Ser que no consigo fazer nascer neles o fogo do desejo?

- Parece trecho de algum romance que o senhor no encontraria na biblioteca do castelo - disse Pandora, com a maior frieza.

- Est me provocando, ou simplesmente no quer ser gentil?

- Acho que suas perguntas me pem muito pouco  vontade. Disse a si mesma que no o temia e simplesmente achava-o muito aborrecido. Preferia olhar em torno e pensar em como era maravilhoso estar de volta  imponente sala de jantar onde seus avs costumavam receber, quando ela era menina.

No tinham oferecido muitas festas, depois que seu tio George foi morto em Waterloo.

Aps a morte de sua av, seu av costumava sentar-se sozinho  cabeceira da comprida mesa onde o conde se encontrava agora, e sobre a qual o velho Burrows depositava a prataria da famlia.

Ele costumava poli-la com suas mos reumticas e ela refletia no somente os convidados, como tambm o braso de armas gravado no encosto das cadeiras.

- Quantos homens j lhe declararam amor? - murmurava sir Gilbert ao ouvido de Pandora.

- Ningum me declarou amor! - replicou Pandora, com deciso.
- Prefiro conversar a respeito de cavalos. Tem muitos, sir Gilbert?

Ele riu, como se estivesse se divertindo com sua tentativa de lhe escapar.

- No momento estou interessado apenas em uma potrinha muito

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bonita e que ainda no foi arreada... Devo dizer que  algo que gostaria imensamente de fazer...

- No sei a que se refere.

Pandora sentiu-se contente quando a conversa de sir Gilbert foi interrompida pelos criados. Eles lhe ofereciam pratos no somente deliciosos, mas diferentes de tudo o que experimentara antes.

Sua me lhe havia ensinado a cozinhar e Pandora tentou adivinhar os ingredientes que faziam parte do molho usado no escalopinho de vitela.

Quem sabe fosse possvel conversar com o cozinheiro, antes de partir de Chart Hall, e pedir-lhe, algumas receitas...

No havia a menor esperana de melhorar o cardpio sensaboro que sua tia ordenava no palcio, mas talvez algum dia tivesse a oportunidade de cozinhar para algum que achasse que a boa comida era uma arte, a exemplo de seu pai.

- Estava lhe dizendo - prosseguiu sir Gilbert, naquele tom meloso que ela comeava a detestar - o quanto sinto vontade de beij-la e ensinar-lhe tudo a respeito do amor, minha potrinha selvagem!

Ele estava ficando um tanto cansativo, pensou Pandora, e, alm do mais, ainda ia beber muito.

 medida que o jantar terminava, ela olhou em torno e verificou que a maioria dos cavalheiros presentes j estava um tanto alta, para usar a expresso pitoresca empregada por seu pai.

Estavam todos um tanto corados e tinham uma expresso mortia no olhar, que lhe recordava a maneira como Prosper Witheridge a fitava.

Alguns j haviam afrouxado as gravatas e desabotoado as casacas e ela, escandalizada, achou que aquilo era uma afronta s boas maneiras.

As mulheres haviam ficado mais barulhentas e suas vozes tornaram-se mais agudas.

Quando chegou o momento de servir a sobremesa, os decotes das atrizes estavam ainda mais baixos e, se Prosper Witheridge as visse naquele momento, certamente as condenaria s penas do inferno.

Toda vez que se inclinavam para conversar com algum que se encontrava do outro lado da mesa, Pandora ficava rubra, ao ver o que eles revelavam. Ficou contente em saber que seu vestido de mangas curtas era muito discreto e que sua aparncia no chocava ningum.

Ao mesmo tempo, achava que, em contraste com aquelas criaturas, devia parecer muito simples e sem atrativos. Um pardal, misturado com exticas aves do paraso, constatou.

Devia estar se divertindo com seus prprios pensamentos, pois o conde, voltando-se para ela, perguntou:

- O que a faz sorrir desse jeito?

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- Nada de mais. Estava achando que devo parecer um tanto deslocada, no meio dessas senhoras to coloridas...

- A escolha foi sua.

Ele se exprimia com uma certa rispidez.

- No estou me queixando. No deve pensar assim, mas acontece que este jantar  to diferente dos que so dados no palcio episcopal...

- Como, alis, no podia deixar de ser

- Costumvamos dar lindas festas na casa paroquial, quando morvamos l. Papai sabia como fazer as pessoas rirem e mame gostava de receber, sempre que dispnhamos de meios para tal.

- Vocs eram muito pobres?

- Tnhamos de economizar muito, a fim de que papai e mame pudessem ter seus cavalos.

Lembrou-se de que haviam sido aqueles mesmos cavalos que a tinham privado da companhia de seus pais e durante um breve momento seus olhos se enevoaram.

Constatou que o conde no tirava os olhos dela.

- Tenho muitos outros parentes iguais a voc?

- A maior parte deles so velhos e um tanto antiquados, e nunca mais vi aqueles que so mais interessantes, desde que vov desistiu de dar recepes.

- Quando foi que isto aconteceu?

- Aps Waterloo, quando tio George foi morto.

- Foi um acontecimento muito propcio, no que me diz respeito.

- No imagino que possa caber maior felicidade a algum do que herdar esta casa e constatar que  o chefe de uma famlia que existe h tantas geraes.

- E  claro que voc espera que eu seja um chefe exemplar e exalte o nome da famlia - comentou o conde. Agora no havia a menor dvida de que ele estava zombando dela.

- Por que haveria de desejar outra coisa, sobretudo quando tem tido tanta sorte?

Ele a encarou um tanto surpreendido e nesse momento os protestos espalhafatosos de Hettie se fizeram ouvir, do outro lado da mesa.

O cavalheiro sentado a seu lado, talvez um pouco bbado, havia derramado um copo de vinho em seu colo.

- Seu estpido! Seu cretino! - exclamou ela, furiosa, e pegando o prato de sobremesa, da mais fina porcelana, quebrou-o na cabea dele.

Toda a mesa se ps a gargalhar, gritando:

- Bem-feito! Ensine-o a se comportar melhor, Hettie! Pandora prendeu a respirao.

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- Era porcelana de Svres! - murmurou baixinho. - Mame sempre recomendava s criadas que tivessem o mximo cuidado com ela.

O conde ouviu o que ela dizia e, inclinando-se para ela, disse:

- V dormir, Pandora. No diga boa noite. Saia da sala sem chamar a ateno.

Pandora encarou-o, atnita, disposta a protestar, pois queria ficar l, mas havia nele um ar autoritrio que ela no tinha notado antes.

- Boa noite, primo Norvin, e obrigada por ter sido to gentil para comigo.

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CAPTULO III

- No estou... cansada! No quero... ir dormir!

Kitty agarrava-se ao corrimo, enquanto falava, mas o conde desprendeu seus dedos e quase a carregou escada acima.

A exemplo das demais pessoas que participavam da festa, Kitty estava muito bbada.

Haviam se despedido de sir Edward e seus amigos aos gritos e soluos, que haviam ecoado no hall de mrmore, produzindo um rudo dos diabos.

Os que haviam permanecido subiam a escadaria central e os criados, exaustos, trancavam a porta da frente, no vendo a hora de se recolher.

Os homens tinham mais controle sobre suas aes do que as mulheres.

Caro havia desmaiado e Richard a carregava aos tropees.

Hettie encontrava-se agitada e protestava,  semelhana de Kitty, dizendo que no queria absolutamente ir para a cama e que desejava mais uma bebida.

O conde ps Kitty no cho e ela debateu-se inesperadamente em seus braos. Como ele no a segurava com firmeza, ela chocou-se contra um aparador, quebrando um vaso de flores.

- Quero... danar... Vamos todos... danar...

- Acho melhor voc ir para a cama, Kitty - disse o conde.

- No vou! No vou, no! - protestou ela, em tom de desafio. Caiu para a frente e ele foi obrigado a ampar-la com os dois braos.

- vou lhe dar uma ajuda, milorde - disse algum. Era a sra. Jenkins, que passou o brao em torno da cintura de Kitty.

Ajudaram-na a percorrer o corredor e entrar no magnfico aposento que tinha sido sempre ocupado pelas condessas de Chartwood.

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Quando se aproximaram da cama, o conde verificou que Kitty j no se debatia mais. Seus olhos estavam cerrados e ela se apagara.

Est fora de ao! - observou a sra. Jenkins. - vou p-la na cama, sr. conde.

Ela tambm se exprimia com voz pastosa, o que fez com que o conde a olhasse com severidade.

O rosto da governanta estava muito vermelho e seus cabelos apresentavam o mais completo desalinho. No havia a menor dvida de que tambm estivera bebendo.

Pegou as pernas de Kitty pelos tornozelos e acomodou-a na cama, quase como se desdenhasse o que estava fazendo.

- No conseguir falar com ela at amanh de manh e, portanto, senhor conde, v dormir... s! - comentou ela, com grande impertinncia.

O conde franziu o cenho, porm no disse nada. Aps um momento, a sra. Jenkins acrescentou:

- Todo mundo j est muito bem acomodado... Um dos cavalheiros, sir Gilbert no sei das quantas, me deu um dinheirinho para que eu lhe dissesse em que quarto sua prima est dormindo...

O conde ficou tenso.

Estava a ponto de dizer qualquer coisa, mas como se achasse que uma reprimenda, naquelas circunstncias, fosse intil, dado o estado da sra. Jenkins, deu-lhe as costas e saiu do quarto.

Percorreu o corredor e deteve-se diante do quarto rosa.

Ele mesmo havia designado onde seus hspedes ficariam, mas no teria sabido onde Pandora estava acomodada se ela no tivesse dito, durante o jantar:

-  to bom estar de volta e dormir no quarto rosa, que eu costumava ocupar...

- Costumava ficar aqui com frequncia, quando tinha casa na aldeia?

- Somente quando papai e mame viajavam, partindo para o que eles chamavam sua segunda lua-de-mel.

O conde estava a ponto de lhe fazer mais perguntas a respeito de sua vida, porm Kitty solicitara sua ateno, com cimes de que ele falasse com qualquer outra mulher que no ela.

Chegou diante do quarto rosa e por alguns momentos hesitou.

L de dentro no vinha o menor rudo, mas uma rstia de luz escapava por debaixo da porta e ele ficou surpreendido ao imaginar que Pandora ainda estava acordada.

Girou a maaneta com muito cuidado, abriu a porta e entrou.

Havia somente duas velas acesas, colocadas sobre a mesinha ao lado da cama.

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Olhou o cortinado de seda que pendia de uma argola presa no teto e constatou que Pandora dormia. Estava recostada nos travesseiros, com o cabelo caindo sobre os ombros. As mos seguravam um livro aberto.

O conde aproximou-se um pouco mais. Ficou a contemplar aquele rosto de um oval muito puro e as pestanas longas e recurvadas, assemelhando-se a uma meia-lua, delineadas contra sua pele plida e translcida.

A luz da vela valorizava o ouro de seus cabelos, que no tinham o brilho dos de Hettie, mas traziam a cor da aurora, quando ela surge no horizonte.

Como se aquela inspeo penetrasse em seus sonhos e a despertasse, Pandora abriu os olhos.

Por um momento, contemplou-o, sonolenta, como quem no tivesse certeza de quem se tratava, mas soltou um pequeno grito de surpresa e sentou-se.

- Adormeci sem apagar as velas - disse, atemorizada. -  uma recomendao que mame me fazia sempre, pois caso contrrio corria-se o perigo de atear-se fogo na casa. Oh, sinto muito!

Ela demonstrava tamanho arrependimento que o conde sorriu.

- Voc estava cansada. No h nada mais exaustivo do que sentir-se preocupada e talvez atemorizada.

- Sinto-me envergonhada por sentir medo de Prosper Witheridge. Ela parecia no ter conscincia plena do fato de que ele se encontrava em seu quarto. Apesar de ser seu primo, ainda assim era um homem. Pandora, naquele momento, parecia muito jovem e muito inocente e, aps um momento, o conde disse:

- Vi uma luz por debaixo de sua porta e imaginei que voc estivesse acordada.

Pandora contemplou o livro que ainda segurava.

- Retirei um livro da biblioteca quando me recolhi. H muito desejava rel-lo.  um de meus livros favoritos.

- Como chama?

- O Paraso Reconquistado. No acha que Milton descreve muito convincentemente o que ele imaginou?

- Faz muito tempo que li Milton. Acho que me lembro melhor do Paraso Perdido.

- Odeio esse livro!  to deprimente, to assustador...  como se eu estivesse ouvindo Prosper Witheridge!

-  bem pouco provvel que voc tenha de ouvi-lo novamente.

- Ele me denunciar a meu tio, usando palavras ainda mais violentas do que as que me dirigiu.

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- Esquea-o, pelo menos hoje  noite. E j que aprecia tanto o Paraso Reconquistado, pode ficar com ele de presente.

Notou o quanto Pandora havia ficado contente. Ao invs de agradecer, ela procurou cuidadosamente as palavras.

-  muita bondade sua, mas trata-se de um livro muito valioso e pertence  coleo da biblioteca.

- E o que importa? Tenho certeza de que voc o apreciar muito mais do que eu ou meus convidados.

Havia um certo sarcasmo em seus lbios, quando pensou em Kitty, que quela altura dormia a sono solto.

Sabia que ela mal sabia escrever e era de se duvidar que conseguisse ler algo mais difcil do que as cifras contidas em uma nota.

- Se os livros forem emprestados e no voltarem ou se forem dados, voc estar privando seu filho de uma herana, bem como seus netos e bisnetos.

- Meu filho? - repetiu o conde, surpreso.

- Vov me contou h muito tempo, quando eu era bem menina, que os condes de Chartwood na verdade no possuem o que se encontra aqui no castelo. So apenas os guardies destes tesouros maravilhosos, em nome daqueles que os sucedero.

Olhou com certa ansiedade para o conde, antes de prosseguir.

- Talvez tenha achado uma impertinncia de minha parte eu ter ficado preocupada durante o jantar, quando o prato foi quebrado, mas o servio foi dado a um de nossos ancestrais por madame de Pompadour, que se interessava enormemente pela manufatura de Svres. Mame sempre dizia que se tratava de uma porcelana excepcional e que s deveria ser usada em ocasies muito... especiais...

- Pelo que sei, a ocasio hoje foi muito especial.

Pandora teve a sensao de que ele estava falando automaticamente, s para discutir com ela.

- Voc se divertiu? - perguntou, sem a menor inteno de parecer sarcstica.

- Muito! - afirmou ele, em tom de desafio.

- O que fez... depois que me retirei?

A pergunta era quase ansiosa, como se ela estivesse achando que havia perdido alguma coisa.

O conde hesitou e nesse momento a porta do quarto se abriu e sir Gilbert Longridge entrou.

Havia trocado seus trajes de noite por um longo roupo de brocado vermelho. Parou na soleira da porta, ao ver o conde, e Pandora ficou a contempl-lo, atnita

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- Acho que voc entrou no lugar errado, Gilbert - disse o conde cordialmente. -  muito fcil acontecer, em uma casa to grande quanto esta.

- No esperava encontr-lo aqui, Norvin.

- Estava apenas dizendo boa noite a minha prima. Como voc sabe, ela recolheu-se cedo, mas infelizmente adormeceu e deixou as velas acesas.

Sir Gilbert no prestava a menor ateno no que o conde dizia e encarava-o com um brilho estranho no olhar. O conde aproximou-se dele e ento sir Gilbert disse:

- Voc j tem Kitty. No vejo por que eu tenha de ser deixado de lado!

- Verei o que posso fazer por voc amanh, mas agora Pandora quer dormir e eu tambm.

Havia em sua voz aquele tom autoritrio que Pandora j havia notado antes, quando ele a mandara dormir.

Durante alguns momentos, sir Gilbert no teve a menor reao, mas logo, indignado, deu as costas e saiu do quarto.

O conde olhou para Pandora, que no conseguia disfarar a surpresa que se apoderava dela.

- Agora vou para meu quarto, mas assim que eu sair voc trancar a porta. Compreende? Saia da cama e tranque a porta. E s abra quando for chamada, amanh de manh.

Ela inicialmente no compreendeu e aos poucos o rubor invadiu seu rosto.

- Voc acha que sir Gilbert poderia voltar?

-  muito fcil para as pessoas se perderem nestes corredores to compridos... Tranque a porta, Pandora, e s volte a abri-la pela manh. Compreendeu?

- Sim. primo Norvin. Desculpe por ter deixado as velas acesas.

- Desta vez est perdoada. Durma bem, Pandora.

Ele saiu do quarto e Pandora, obediente, afastou os lenis e atravessou o quarto.

Trancou a porta e ao faz-lo pensou, apreensiva, o quanto teria sido assustador se o conde no se encontrasse l, quando sir Gilbert chegou.

Ele poderia ter tentado beij-la, sobretudo depois de tudo que lhe dissera durante o jantar. Sabia que sentiria um medo enorme e talvez ningum ouvisse seus gritos.

Deve ter sido mame que enviou primo Norvin para ver se eu estava bem, pensou Pandora. Teria sido horrvel se a casa pegasse fogo e talvez ainda mais terrvel se sir Gilbert me encontrasse sozinha.

Voltou para a cama. mas agora era difcil reconciliar o sono.

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Ficou a pensar no que tinha acontecido durante o dia e preocupou-se com os eventuais danos que poderiam ter ocorrido, depois que deixou a sala de jantar.

Imaginou se seria possvel convencer o mordomo a guardar o servio de Svres e substitu-lo por aquele outro, belo mas no to valioso, e que sempre estivera em uso no tempo do seu av.

Em seguida, constatou que no tinha o direito de fazer uma coisa daquelas. Seria muita presuno de sua parte interferir na direo dos assuntos domsticos.

No ocupava nenhuma posio naquele lugar e devia sentir-se grata pelo fato de seu primo ter sido to bom para com ela.

Tenho certeza de que ele no  to mau como diz ou como finge ser, pensou.

Tinha a sensao de que tudo aquilo no passava de fingimento. Mas por qu? Qual era o motivo?

Algumas linhas de Milton vieram-lhe  mente.

Os homens mais sensatos por mulheres ms foram atraioados.

Seria este o caso?

Adormeceu, antes que conseguisse chegar a uma concluso.

Pandora despertou com uma batida na porta e levantou-se, sobressaltada. Percebeu ento que o sol atravessava as cortinas e j era dia.

Saltou da cama, abriu a porta e deparou com Mary, que carregava uma bandeja com o caf da manh.

- Caf da manh na cama? - exclamou Pandora. - Mas que bom! H anos que isto no me acontecia.

Sem esperar a resposta de Mary, atravessou correndo o quarto e voltou para a cama, ajeitando os travesseiros e alisando os lenis.

Mary colocou a bandeja diante dela e Pandora contemplou-a, toda feliz.

Nela havia ch, leite, bacon, torradas, manteiga, mel e um enorme pssego.

Aquilo lhe recordou uma poca em que ficara de cama, com laringite, antes da morte de sua me.

O mdico dissera que ela no podia levantar-se e devia cobrir-se bem. Sua me a mimara com todo tipo de guloseimas e ela aguardava gulosamente a hora das refeies.

Estava para recordar tudo aquilo com Mary, mas de repente notou que os olhos da criada estavam inchados e vermelhos de tanto chorar

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- O que foi que aconteceu, Mary?

- No posso lhe contar, srta. Pandora. Este lugar no presta, esta  que  a verdade!

- Mas o que foi que aconteceu?

- Eu no devia estar lhe contando estas coisas...

- Mas que coisas?

Pandora reparou que seus olhos se enchiam de lgrimas. Controlava-se o mais que podia, mas de repente o pranto explodiu.

-  tudo to cruel, to duro... srta. Pandora... quanta maldade! Nunca imaginei que pudesse haver tanta maldade!

Pandora colocou a bandeja do outro lado da cama.

- Voc deve me contar o que aconteceu, Mary. Sabe que a ajudarei, se puder.

-  a sra. Jenkins. Que mulher m! M de verdade!

- Mas o que foi que ela fez?

Mary olhou em direo  porta e viu que a havia deixado parcialmente aberta, quando entrou com a bandeja.

Foi at l, fechou-a e voltou para o lado da cama, com as lgrimasdeslizando por seu rosto.

- No teria coragem de contar a minha me o que ela me disse hoje de manh...

- Mas quero saber o que foi... - insistiu Pandora.

- Bem, senhorita, vim para c faz dois dias, ajudar na casa.  claro que a gente ficou muito contente com esse dinheirinho a mais. Papai foi despedido pelo novo administrador do conde.

- Despedido? Mas seu pai trabalhava no jardim desde que eu era criana.

- O novo administrador... o nome dele  sr. Anstey... trouxe para c uma poro de amigos, senhorita, e deu-lhes todas as casas das terras do castelo.

- Como assim... deu-lhes as casas?

- Ps para fora quem morava l... at mesmo minha av...

- A sra. Clay! Quer dizer que a sra. Clay foi expulsa de sua casa?

- Sim, senhorita, e ela no tem para onde ir, a no ser o asilo se meu pai arranjar logo outro emprego.

- Mas que vergonha! A sra. Clay e seu av trabalharam no castelo a vida inteira!

- Eu sei, senhorita, mas hoje em dia isto no conta mais...

- Pois devia contar! Agora me diga o que a deixou preocupada. Mary.

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- Eu no devia contar uma coisa destas a uma dama como a senhorita...

- Diga o que foi!

- Ontem  noite, vendo o que estava acontecendo nesta casa, tratei de trancar a porta quando fui deitar.

- No que, alis, fez muito bem - disse Pandora, recordando a cena da vspera, quando sir Gilbert entrou em seu quarto.

- J era bem tarde e eu estava dormindo fazia um tempo quando a sra. Jenkins veio bater em minha porta. Voc est a, Mary?, perguntou ela. Do- jeito como falava, percebi que tinha bebido a valer! Nem respondi, pois senti medo da ordem que ela ia me dar.

- Mas como assim... o que ela iria mandar voc fazer? - indagou Pandora, curiosa.

Mary torceu o avental, mais nervosa do que nunca, e declarou:

- No tenho muita certeza, senhorita, mas depois de ver o que vi, j sabia o que me esperava.

- No entendo.

- Esta manh, assim que a sra. Jenkins levantou, mandou me chamar e disse que um dos moos queria que eu fosse ao quarto dele ontem  noite.

- Meu Deus! E o que voc respondeu?

- Sou uma moa direita, dona - disse eu. - Ela fica zangada quando falo assim e sempre responde que eu, ou obedeo suas ordens, ou ento posso arrumar a mala e ir embora!

Mary ps-se a chorar convulsivamente e contou o final da histria:

- A sra. Jenkins disse que, se eu for embora, minha famlia tambm ir. E que contratar algum que faa tudo o que ela ordenar.

Pandora mal conseguia acreditar no que ouvia e Mary, desamparada, perguntou:

- O que posso fazer, senhorita? Se nos mandarem embora, para onde  que vamos?

Pandora permaneceu em silncio.

Ao mesmo tempo, sentiu nascer dentro de si um dio diferente de todos os sentimentos que havia experimentado antes.

Agora compreendia por que os aldees pareciam temerosos e se recusavam a falar sobre o que estava acontecendo, quando estivera com eles em Chart. Agora sabia por que pessoas como Prosper Witheridge denunciavam o que acontecia em Chart Hall.

Afastou as cobertas e saiu da cama.

- Oua, Mary. No diga nada  sra. Jenkins antes de eu falar com o conde. No acredito que ele saiba que isto vem acontecendo.

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- Ele nem vai ligar, senhorita. Despediu o sr. Farrow porque achava que era muito velho e no lugar dele ps o sr. Anstey.

- O que aconteceu com o sr. Farrow?

- Acho que ele j estava mesmo querendo se aposentar, mas esperava que o filho dele ficasse no seu lugar.

- Mas claro... Michael Farrow!

- Ele era um homem to bom, senhorita... Tratava to bem as pessoas que precisavam dele... No era como este sr. Anstey.

- O que mais ele fez?

- Aumentou os arrendamentos, senhorita, e se algum atrasa, ainda que por alguns dias, ele expulsa das terras do castelo.

Olhou furtivamente para a porta e cochichou:

- Ele tem uma mulher, mas arrasta as asas pela sra. Jenkins.  por isso que ela faz o que bem entende.

Pandora no respondeu e caminhou em direo ao lavatrio.

- Se j est se levantando, senhorita, vou buscar um pouco de gua quente... a menos que queira tomar um banho...

- No tenho tempo nem para uma coisa, nem para outra. Derramou gua fria da jarra na bacia de loua e lavou o rosto, apesar dos protestos de Mary.

- Prossiga com o que estava me contando. Quero saber de tudo agora.

- Minha me h muito tempo vem dizendo que as coisas por aqui no andam muito certas. O sr. Anstey despediu o sr. Burrows e o novo mordomo, sr. Dalton, bebe os melhores vinhos do senhor conde e vive como um lorde, quando no tem ningum na casa. Faz questo de ser servido como um gr-fino! E dizem... - Mary baixou ainda mais a voz. - Dizem at mesmo que ele vendeu as melhores caixas de rap da coleo, algumas at com diamantes.

Pandora evitou fazer qualquer comentrio, do qual viesse a se arrepender.

Vestiu-se em silncio, encorajando Mary a prosseguir no relato das coisas que haviam acontecido na propriedade. Colocou um vestido de algodo, simples, porm gracioso, e penteou os cabelos o mais rpido possvel. Em seguida, disse a Mary:

- No conte para ningum que falou comigo. No responda  sra. Jenkins e limite-se a obedecer s ordens, at que eu a mande chamar. Voc me promete?

- Prometo sim, srta. Pandora, mas no quero que a senhorita se meta em complicaes.

- As coisas j esto suficientemente complicadas e eu no me importo

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que elas se compliquem um pouco mais - replicou Pandora, pensando em si mesma pela primeira vez, desde que a criada lhe fizera as confidncias.

Percebeu subitamente que, se o conde se enfurecesse com o que ela tinha a lhe dizer, encontrar-se-ia na mesma posio de Mary e de seus pais.

Pela primeira vez se deu conta de que havia tomado uma atitude definitiva. O que faria, se seu tio no a perdoasse por ter vindo para o castelo?

Agora sabia que jamais tinha acreditado nas histrias que sua tia e as senhoras de Lindchester propagavam com tanta maldade, relativas ao comportamento do conde. No entanto, enquanto descia a imponente escadaria, concluiu que passara a crer na veracidade de tudo o que elas murmuravam.

No havia o menor sinal do mordomo, mas vrios criados estavam a postos no hall.

- O senhor conde est aqui embaixo? - indagou.

- Encontra-se na sala de jantar, senhorita.

- Quem mais est com ele?.

- Dois cavalheiros.

- Pea ao senhor conde que venha falar comigo.

O criado pareceu ficar surpreendido com a firmeza com que ela se exprimia, mas obedeceu-a e foi at a sala de jantar.

Pandora ficou imaginando o que faria se o conde recuasse, mas, alguns minutos mais tarde, ele saiu da sala. Notou que usava trajes de montaria.

- Voc levantou-se cedo... - comeou a dizer, interrompendo-se ao notar a expresso do rosto de Pandora. - O que foi que aconteceu?

- Tenho algo a lhe dizer, e  da maior importncia. No podemos ir at a biblioteca? L ningum nos interromper.

Ela se exprimia como se no houvesse a menor possibilidade de ele recusar seu pedido, e ps-se a andar em direo  biblioteca antes que o conde pudesse dizer qualquer coisa.

Entraram no grande aposento que tinha todas as paredes cobertas com estantes. Muitos daqueles livros eram verdadeiras raridades e tratava-se de uma coleo nica, que tinha sido reunida ao longo dos sculos.

O sol penetrava pelas grandes janelas e criou em torno dos cabelos de Pandora um halo dourado.

Seus olhos violeta, to semelhantes aos do conde, refletiam a clera de que ela se sentia possuda.

- O que foi que aconteceu? O que a est preocupando?

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- Tem conhecimento do que se passa nesta casa? Ele deu um pequeno sorriso irnico e respondeu:

- Tenho uma boa ideia.

- No estou me referindo a seus amigos. O comportamento deles no me diz respeito. Est sabendo que uma jovem criada, uma menina de dezesseis anos, recebeu ordem de sua governanta para ir ao quarto de sir Gilbert, na noite passada? Tenho certeza de que foi sir Gilbert quem a solicitou.

- O que  que voc est me contando?

- Mary Clay, cuja famlia conheo desde que nasci, veio trabalhar aqui h dois dias.  uma menina muito decente e apesar de estar um pouco nervosa por ter de trabalhar aqui, no pde recusar, pois precisa do dinheiro, posto que seu novo administrador despediu o pai dela.

- Isto tudo est me parecendo complicado...

- E  complicado sim, mas acabar compreendendo, se ouvir o que tenho a lhe dizer.

Tremia no de medo, mas de fria, e o conde olhou-a intrigado, enquanto se sentava.

- Prossiga! - disse.

- Pois no! A av de Mary j teve de desocupar a casa onde morava, para dar lugar a algum protegido do sr. Anstey. A famlia est completamente desprovida de dinheiro, a no ser aquele que a me e, agora, Mary ganham. Ela tem quatro irmos pequenos. Sua governanta avisou a menina de que, a menos que ela v ao quarto de certo cavalheiro que a deseja, a famlia inteira ser posta no olho da rua!

A voz de Pandora tremia de raiva e, aps uma pausa, o conde disse:

- Mas ser que  mesmo verdade?

- Claro que sim! Se no tenho nada a ver com seus amigos, esta gente  minha... papai os amava e cuidava deles e era por minha me que procuravam, quando estavam em dificuldades.

As lgrimas vieram-lhe aos olhos, quando mencionou sua me, mas ainda se sentia enraivecida quando prosseguiu:

- A sra. Meadowfield, que tomava conta das moas que trabalhavam aqui, foi despedida e esta megera horrvel foi colocada em seu lugar. Lembro-me de t-lo ouvido dizer, ontem  noite, que nada tinha a ver com o fato de Burrows, o antigo mordomo, ter sido mandado embora.

Encarou o conde,  espera de um desmentido, e prosseguiu:

- Burrows protestou, pois se sentia como um membro da famlia. Agora conte as caixas de rap e veja quantas esto faltando! O dinheiro foi parar no bolso de seu novo mordomo, da mesma forma que os

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melhores vinhos de vov escorreram pela garganta dele! Recuseime a acreditar que as coisas que diziam a seu respeito fossem verdadeiras. Infelizmente, enganei-me! E elas esto acontecendo em Chart Hall, que  parte de voc, embora no queira admiti-lo. Como  que pode fazer uma coisa destas? Como pode ser to cruel, to insensvel, a ponto de destruir aquilo que nossos antepassados lutaram para preservar?

Agora as lgrimas desciam pelo rosto de Pandora. Nada fez para det-las e continuou a fitar o conde com uma expresso de ira nos olhos to semelhantes aos dele.

Durante um momento, ele no se moveu, nem falou. Em seguida, declarou em uma voz quase to tensa quanto a dela:

- Voc se exprimiu com toda franqueza, Pandora, e ouvi suas acusaes. Agora talvez voc gostasse de ouvir minha verso.

Ela no respondeu e ele prosseguiu:

- Desde que me tornei o herdeiro, tenho feito o possvel para arrastar na lama o nome de nossa famlia e pretendo dissipar e liquidar tudo o que esta casa contm, a exemplo do que j comecei a fazer com nossa residncia de Londres.

- Mas por qu? Por qu?

-  o que lhe direi. Meu pai, como voc sabe, era primo distante de seu av e, quando jovem, apaixonou-se por uma mulher de grande beleza. Foi discriminada por todos os membros da famlia Chart, que a desdenhavam pelo fato de ser uma atriz.

Pandora pareceu surpreendida e o conde prosseguiu:

- Na verdade no se tratava disso. Ela possua um grande talento musical e, devido  pobreza de seus pais, recorria  nica qualificao que possua, a fim de mant-los. Ela evidentemente apareceu nos palcos, as pessoas pagavam para ouvi-la e isso aviltou-a completamente aos olhos daqueles aristocratas to presumidos. Meu pai, posto de lado pela famlia, fez amigos onde pde. No se tratava de gente particularmente recomendvel, mas pelo menos o divertiam enquanto ele tinha dinheiro, que alis no era muito.

Havia um tom de amargura e cinismo na voz do conde e ele continuou:

- Ento minha me morreu. Ele sentiu-se doente e ningum queria saber dele, sobretudo o conde de Chartwood, que, segundo voc, deveria ter protegido os membros mais fracos e pobres da famlia.

- E... o que aconteceu?

- Meu pai morreu, pois no conseguiu levantar dinheiro suficiente para fazer uma operao, de que dependia sua vida.

- Voc pediu a vov para ajud-lo?

- Claro que procurei o todo-poderoso conde de Chartwood, o chefe

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da famlia, aquela grande figura paterna que, a exemplo de Deus, deveria cuidar de todos ns! - replicou o conde, com violncia. - S que nem o conde, nem Deus se importaram! Meu pai morreu angustiado e sem necessidade. Era um homem ainda jovem e a operao no seria difcil, mas era absolutamente essencial para que ele pudesse sobreviver.

- Tem certeza de que vov se recusou... a ajud-lo?

- Escreveu-me uma carta absolutamente encantadora - disse o conde, sarcstico. - Mandou-me dez libras, dez libras!, e comunicou-me que mais do que isso no me daria, quaisquer fossem as circunstncias.

Deixou-se cair em uma poltrona, como se estivesse exausto devido  violncia com que tinha se exprimido.

- Sinto muito...

- Quando foi que seu pai morreu?

- Em 1815.

- Aps a batalha de Waterloo!

- Penso que aquele acontecimento memorvel ocorreu no mesmo ano - disse o conde, zombeteiro.

- Lembro-me... agora lembro-me exatamente do que aconteceu, mas no tinha a menor ideia de que se tratava de seu pai.

- O que  que voc est dizendo?

- Voltei de um passeio a cavalo e mame conversava com papai. Parecia muito preocupada. Que aconteceu, mame?, perguntei.

- Nada que lhe diga respeito, meu bem, mas seu av hoje est de muito mau humor. Ele se tornou um homem diferente, desde que o pobre George foi morto.

- Eu sei.

- Charles, fiz uma coisa terrvel - disse mame, olhando para meu pai.

- O que foi?

- Roubei cinco libras.

- Roubou?

Pude ver que at mesmo papai havia ficado surpreendido.

- Papai recebeu uma carta de um de nossos primos Chartwood. No o conheo, mas ele escreveu para comunicar que seu pai est muito doente e precisa ser operado. - Mame fez uma pausa, como se a recordao da carta a preocupasse e papai encorajou-a:

- Prossiga, meu bem. Gostaria que voc no precisasse se envolver com essas coisas.

- Agora no resta mais ningum - disse mame, e eu sabia que

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ambos pensavam em tio George. - Sugeri a papai que deveria enviar ao primo o dinheiro de que necessitava, mas ele no me deu ouvidos. Mande-lhe cinco libras e diga-lhe que v para o inferno!, declarou. Ele jamais teria dito uma coisa destas em outros tempos, mas, quando tentei argumentar, recusou-se a me ouvir.

- E onde  que entra o roubo? - perguntou papai.

- Voc com certeza achar muito censurvel, mas tirei o dinheiro da despesa da casa! Papai me d o dinheiro com o qual pago os criados e as contas e no me faz muitas perguntas. Tenho certeza de que jamais achar falta.

- Ento voc enviou dez libras a seu primo?

- Que no bastaro... Oh, Charles, gostaria que fssemos ricos! H tanta gente que eu gostaria de ajudar...

- Voc j faz mais do que o suficiente.

- Mas isto me preocupa e muito!

- J que  assim, tomarei uma providncia. Descubra o endereo de seu primo e irei v-lo.

-  mesmo, Charles? Quanta bondade sua! No posso suportar a ideia de que ele esteja sofrendo e que nenhum de ns pode ajud-lo.

- Traga-me seu endereo.

Pandora olhou para o conde e notou que ele seguia seu relato com muita ateno.

- Se papai tivesse podido localiz-lo, tenho absoluta certeza de que teria encontrado um modo de ajudar seu pai. Ouvi mame contar-lhe, no dia seguinte, que vov, em um acesso de fria, havia jogado a carta no fogo. No pensei no assunto at agora, mas  claro que ele agiu assim porque tio George tinha sido morto e seu pai era o herdeiro do ttulo. Mame ficou muito preocupada porque no conseguia lembrar de seu endereo. Havia escrito vrias cartas naquele dia, e, por mais que tentasse, no se lembrava com exatido.

O conde no disse nada e Pandora prosseguiu:

- Somente de uma coisa tinha certeza: era de que a carta viera de Islington. Papai passou o dia inteiro naquela regio, mas ningum ouvira falar a respeito de um morador chamado Chart.

- No  de surpreender, pois estvamos hospedados em uma penso modesta - disse o conde, com amargura.

Levantou-se, atravessou a sala e ficou parado diante de uma janela, contemplando o jardim.

- Odiei seu av com tamanha veemncia que isso chegou at mesmo a envenenar o modo como eu concebia a vida - declarou o conde

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-, mas s depois que meu pai morreu descobri que h trs meses ele era o herdeiro do ttulo.

- Ento ficou sabendo que o ttulo recara em voc...

- Apoiado nesse fato, tomei dinheiro emprestado - disse o conde, em tom de desafio. - No muito dinheiro,  claro, pois os agiotas no so muito generosos com herdeiros presuntivos, mas o suficiente para me dar o gosto da vida que passaria a levar assim que me tornasse o quinto conde e herdasse uma fortuna!

Pandora no disse nada.

Sentiu subitamente que o ressentimento a abandonara, achando-se ao mesmo tempo esvaziada e frgil.

- Desculpe-me... por ter sido to grosseira. Perdi a calma e sei que vov fez muito mal em se comportar daquela maneira. Isso no era absolutamente de seu feitio.

- Acho que ambos compreendemos que ele me odiava, tanto quanto eu o odiava.

- Vov adorava seus filhos - prosseguiu Pandora, como se o conde no tivesse dito nada, - Imagino que todo homem queira um filho que d sequncia a seu nome. Sei que papai, apesar de me amar, teria gostado de um filho, e sempre esperou que um dia lhe nascesse um. Os mdicos, porm, disseram que s por milagre mame teria outra criana. Mas voc, pelo contrrio, deve ter muitos filhos.

- Decidi no perpetuar o nome de Chartwood.

- Mas como pode ser to ridculo? - perguntou Pandora, tomada de irritao. - Como j lhe disse na noite passada, voc  um homem de sorte, mas, em vez de mostrar-se agradecido, est deixando que aquilo que aconteceu no passado destrua seu discernimento e arruine sua prpria vida.

- Voc acha realmente que ela est arruinada?

- Bem, voc no pode se divertir eternamente com...

Pandora deixou a frase pela metade porque achou que estava sendo grosseira.

- Prossiga. Deixe-me ouvir o que voc pensa dos meus amigos... os nicos amigos que tenho.

- Gostaria de saber por quanto tempo seriam seus amigos, se voc no tivesse dinheiro.

- Voc  de uma franqueza rude, minha santa priminha. Deixe-me com meus pecados: prefiro que seja assim.

- Pode pecar tanto quanto quiser e no farei a menor tentativa de det-lo, mas voc no pode forar uma jovem como Mary a ser corrompida por aquele homem horrvel... e devasso... que entrou no meu

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quarto ontem  noite! Quando ele saiu, pensei que foi uma sorte voc estar l para me salvar... pensei tambm na sua bondade... Fui dormir pensando que voc no era to ruim como pretende ser... mas agora j no tenho tanta certeza.

- Voc est me provocando! Terei de demonstrar-lhe que no sou to mau como voc imagina, mas ainda pior!

- E isto acaso lhe proporcionar muita alegria? O que ter provado, depois que deixar todo mundo aqui chorando, morrendo de fome e infeliz? Que pode ser cruel, duro einsensvel? Pois ouso dizer que a famlia j sobreviveu a homens piores do que voc. Houve um Chart que atraioou o prprio irmo, denunciando a seus inimigos o lugar onde ele se escondia. Houve outro que se matou, pois perdeu uma fortuna enorme no jogo e s conseguiria saldar suas dvidas se vendesse os tesouros da famlia. Importavam-lhe mais do que a prpria vida. Se voc ler os manuais de Histria, achar pelo menos uns doze exemplos semelhantes. Espero que aprecie a companhia.

Deu-lhe as costas e caminhou em direo  porta.-

- Aonde vai?

- Regresso a Lindchester e levo a famlia Clay comigo. Acho pouco provvel que meu tio me perdoe ou queira ajud-los. vou portanto implorar a todos que tenham um pouco de bondade e caridade. Em algum lugar deve haver uma alma sensvel, mesmo entre aqueles a quem voc denomina desdenhosamente carolas.

- Volte j para c, menina temperamental!

Pandora no o obedeceu, mas tambm no saiu do aposento.

- No h a menor dvida de que somos primos. Temos o mesmo modo ousado de enfrentar as coisas.

Pandora aproximou-se dele.

- Voc salvar Mary Clay?

O conde manteve-se em silncio durante alguns instantes e ento declarou:

- Acho que no h nenhum motivo para que os pecados do velho conde recaiam sobre os que aqui se encontram.

- O que est me dizendo? Explique-me...

- Sabe por acaso onde mora a antiga governanta? Como  mesmo o nome dela? Sra. Meadowfield?

- Sim, claro!

- E Burrows, o antigo mordomo? Lembro-me dele, da primeira vez que vim aqui.

- Mora na aldeia.

- Est disposta a ir busc-los?

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- Oh, primo Norvin! Est falando a srio?

As lgrimas estavam de volta aos olhos de Pandora, mas agora brilhavam como estrelas.

- Voc se lembrar de que eu lhe ofereci O Paraso Reconquistado?

- E  exatamente o que voc est fazendo. E... o sr. Anstey?

- O que tem ele?

- Acho que o sr. Farrow, de quem todos gostavam, ficou contente por se aposentar, mas seu filho, Michael, sabe tudo a respeito da propriedade. Trabalhou com o pai nestes ltimos anos e tem capacidade de colocar tudo na mais perfeita ordem. Voc no ser incomodado, no precisar se preocupar com nada. As coisas sero como eram, quando eu, ainda menina, vim aqui pela primeira vez. Era tudo to maravilhoso... como o palcio de um rei em um conto de fadas.

- Muito bem. J que est to decidida, que as coisas sejam como voc quer. Diga a Farrow para me procurar dentro de duas horas.

Riu com certo cinismo e acrescentou:

- Acho melhor se apressar, pois caso contrrio posso mudar de ideia! De qualquer modo, vai haver uma tremenda confuso e, se no quiser se envolver nela, afaste-se daqui!

- Mal posso acreditar! Mas que maravilha! Oh, primo Norvin, sabia que voc estava apenas fingindo ser mau.

- Voc agora est querendo me santificar...

- Estou lhe dando uma aurola, mas no a deixe cair, ouviu?

Saiu correndo em direo  porta e, ao chegar l, espiou por cima do ombro:

- Por favor, conte as caixas de rap. So pequenas obras de arte. Ouviu a risada do conde, enquanto percorria o corredor.

Entrou no quarto e tocou a sineta, chamando Mary. Antes que a criada surgisse, colocou um toucado e procurou um par de luvas na gaveta.

- A senhorita chamou? - disse Mary.

- Agora est tudo bem, Mary! Est tudo resolvido! No diga uma palavra a ningum. Tudo voltar a ser como nos tempos de vov, e todo mundo ser muito feliz!

- Est falando a srio, senhorita?

- No conte nada do que eu lhe disse, nem mesmo  sua me. Comporte-se como se nada tivesse acontecido, at eu voltar.

Havia uma expresso de esperana no rosto de Mary, no momento em que ela se retirava do quarto.

Dalton ainda no dera o menor sinal de vida e Pandora disse a um dos criados:

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- Quero conduo para ir at a aldeia, mas como o dia est bonito percorrerei a alameda a p. Quer dizer ao cocheiro para ir ao meu encontro o mais rapidamente possvel?

- Pois no, senhorita.

Pandora saiu pela porta principal. L fora fazia um tempo esplndido.

O conde lhe dissera para se apressar e ela queria afastar-se de l, caso houvesse alguma alterao em suas ordens. Por outro lado, no tinha o menor desejo de encontrar-se com os convidados de seu primo.

Seu corao estava inundado de felicidade e ela estava to excitada que preferia danar a caminhar, mas dominou-se e andou em direo ao lago e  ponte de pedra.

Agora atravessava o enorme parque, povoado de veados que haviam se tornado muito mansos, pois ela costumava aliment-los. Havia tambm enormes carvalhos e sua galharada frondosa formava um verdadeiro tnel verde, ao longo da alameda.

Aps caminhar alguns metros, voltou-se e olhou para trs.

O castelo apresentava-se majestoso  luz do sol, mas para Pandora era como se a luz que reverberava nas janelas o fizesse sorrir, cheio de felicidade.

Percebeu subitamente que aquela batalha tinha sido ganha por Chart Hall e no por ela. O castelo havia sofrido tantos reveses, desde que fora construdo...

As guerras religiosas e as guerras civis o tinham assolado; houvera membros da famlia Chart que jogavam o dinheiro pela janela e outros eram extraordinariamente avarentos; o castelo, entretanto, sobrevivera a todos eles.

Quem sabe ele havia se tornado uma influncia preponderante na vida de todos os membros da famlia, onde quer que se encontrassem...

Uma determinada atitude de seu av havia levado o atual conde a procurar a vingana, no em relao ao velho morto, mas  casa que era seu mundo e parte intrnseca de sua famlia.

Chart Hall provou ser forte demais para ele!, constatou Pandora.

Mesmo que no tivesse acelerado as coisas, denunciando a ele tudo o que acontecia, sabia que mais cedo ou mais tarde o prprio castelo dialogaria com o conde e o protegeria contra ele mesmo.

Voc est sempre presente em nossas vidas, pensou Pandora.

Ento notou que a carruagem se aproximava.

Primeiramente foi  procura de Michael Farrow.

Sabia que seu pai possua uma casa nos arredores da aldeia. No momento em que a carruagem parou diante do porto, viu Michael, a quem conhecia desde a infncia, trabalhando no jardim.

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Acenou para ele e Michael ps a enxada de lado, vindo ao seu encontro, sem disfarar a surpresa que sentia.

- Quando vi a carruagem se aproximando, srta. Pandora, fiquei sem saber o que pensar.

- Vim ver voc e seu pai.

- Ele ficar muito contente com sua visita. Fala o tempo todo em sua me. Diz sempre que era a criatura mais bela que conheceu at hoje.

-  o que sempre achei - disse Pandora, sorrindo.

- Desculpe-me, mas vou lavar as mos. No temos recursos para pagar um jardineiro e eu mesmo tenho de cuidar disto aqui.

Pandora ficou surpresa ao constatar que o sr. Farrow tinha provavelmente sido demitido sem uma aposentadoria razovel. Isso agora pouco importava, mas ela sabia que se tratava de uma grave injustia, depois de todos aqueles anos em que ele estivera a servio do castelo.

O sr. Farrow, que parecia ter envelhecido bastante nos ltimos tempos, estava sentado na sala de visitas, lendo o jornal.

Colocou-o de lado e encarou Pandora, muito surpreendido, antes de levantar-se com alguma dificuldade.

- Fique sentado.

- Minhas pernas esto me dando um pouco de trabalho.  devido  falta de exerccios, penso eu. Costumava andar a cavalo, quando trabalhava no castelo, mas agora estou me tornando prisioneiro desta cadeira.

Tentou rir, mas a tristeza que sentia era muito aparente.

- Que bom tornar a v-lo! - declarou Pandora.

- Sinto muita falta de seu pai e de sua me, mais do que posso expressar. Toda a aldeia tambm sente falta deles. As coisas j no so mais o que costumavam ser.

-  justamente sobre isso que vim conversar com o senhor.

O sr. Farrow olhou para ela intrigado e nesse momento Michael entrou na sala.

Disse-lhes, sem maiores rodeios, que o conde decidira que o sr. Anstey no lhe convinha mais. Ela havia sugerido que Michael Farrow assumisse a administrao da propriedade e tinha certeza de que seu pai se prontificaria a ajud-lo, at que ele tomasse p na situao.

Pai e filho ficaram a contempl-la durante alguns instantes, como se ela tivesse perdido o juzo. Ento o sr. Farrow perguntou:

- com que ento o senhor conde tambm pretende dispensar os servios do sr. Anstey?

- Espero que sim e rezo para que ele tenha ido embora de l, quando

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Michael chegar ao castelo. O conde disse que queria v-lo dentro de duas horas e j se passou uma hora e meia.

Ela no esperou para ouvir os agradecimentos e saiu apressada em direo  casa onde sabia que iria encontrar a sra. Meadowfield.

L morava sua irm, que tinha sido professora da escola da aldeia at a aposentadoria.

A sra. Meadowfield tinha os cabelos grisalhos, mas era cheia de energia e acolheu Pandora efusivamente.

- Mas que alegria enorme voltar a v-la, senhorita! Ainda ontem falava a respeito de seus queridos pais. No h ningum nesta aldeia que no derrame lgrimas quando se refere a eles.

- Vim lhe perguntar, sra. Meadowfield, se no quer voltar imediatamente comigo para o castelo.

- Para o castelo? E por qu?

- Sua presena l  indispensvel. Haver muita gente que poder lhe contar o que est acontecendo e, portanto, no o farei.

- Est querendo dizer que o senhor conde pediu que eu voltasse para reassumir minhas funes? Bem, aps o modo como fui tratada, srta. Pandora...

Pandora, em um gesto afetuoso, colocou a mo sobre o brao da velha senhora.

- Por favor, sra. Meadowfield, venha comigo.  a nica pessoa que conseguir colocar as coisas em ordem, o que  algo que precisa ser feito imediatamente!

As expresses de dignidade afrontada, que a sra. Meadowfield estava prestes a pronunciar, morreram em seus lbios. Contemplou Pandora e disse:

- A senhorita  muito parecida com sua me e eu nunca fui capaz de recusar qualquer pedido dela.

Pandora deu-lhe tempo apenas de colocar o chapu e o manto.

- Sua irm com toda certeza poder colocar suas coisas na mala e a senhora mandar algum vir busc-la mais tarde,

A casa onde o sr. Burrows morava situava-se a pequena distncia de l.

No era muito longe da casa paroquial e, quando Pandora passou diante da residncia onde tinha sido to feliz com seus pais, ps-se a pensar que eles haviam-na ajudado a acertar o que havia de errado no castelo.

Teriam ficado muito magoados se soubessem o que estava acontecendo e como seus amigos da aldeia tinham sido injustamente tratados ou, pior ainda, que garotas como Mary pudessem ser corrompidas e colocadas no caminho da perdio.

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- Se isto tivesse acontecido de fato, Prosper Witjerdge teria sido justificado em todas as suas acusaes.

Somente quando estava de volta com a sra. Meadowfield e o velho Burrows, ambos surpreendidos demais para dizer qualquer coisa,  que ela se lembrou de que ainda teria de enfrentar os convidados do conde.

Sabia que a sra. Meadowfield ficaria profundamente chocada com o modo como as atrizes falavam e se comportavam, e que o velho Burrows ficaria consternado se os mais finos pratos de porcelana fossem quebrados na mesa ou se algum amassasse a prataria da casa.

Tinha certeza, porm, de que ele era suficientemente sensato para no servir a mesa com as melhores peas de prata e porcelana. Conhecia o valor delas, muito melhor do que o atual proprietrio do castelo.

Disse ao cocheiro que parasse ao lado do castelo, para que a sra. Meadowfield e Burrows entrassem pelos fundos, e encaminhou-se para a porta da entrada. Notou, pela expresso dos criados, que algo acontecera.

Havia demorado mais do que esperava. Estava na hora do almoo e sentia um grande apetite.

As revelaes de Mary haviam-na impedido de tomar o caf da manh e parecia-lhe que transcorrera muito tempo desde o jantar da vspera.

Entrou no hall, viu um chapu depositado sobre uma cadeira e certificou-se de que Michael Farrow tinha chegado. Sem dvida encontrava-se com o conde naquele momento.

Subiu para seu quarto e, enquanto retirava o toucado, Mary entrou.

- Oh, srta. Pandora, est acontecendo cada coisa! Nunca se viu confuso igual!

- Mas o que foi?

- Logo depois que a senhorita saiu, o sr. conde mandou chamar a sra. Jenkins e o sr. Dalton. Despediu os dois e um dos criados me contou que ambos foram muito insolentes. James disse tambm que o conde estava vermelho de raiva quando falou com o sr. Anstey.

- E da, o que aconteceu?

- A senhorita no vai acreditar, mas, quando o sr. Anstey saiu da sala, fez um gesto de ameaa para o conde: Ainda vai se arrepender!, disse. Note bem o que estou dizendo: o senhor vai se arrepender!

Pandora deu um suspiro de alvio.

O conde havia mantido sua palavra. O sr. Anstey fora embora e esperava que todos os forasteiros a quem colocara nas casas da propriedade o seguissem. -

Mary encontrava-se to excitada que quase chegava a ser incoerente, mas tinha poucas coisas mais a dizer.

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Pandora desceu at o salo, l encontrando Hettie, muito abatida, conversando com Freddie e Clive.

- J deve estar quase na hora do almoo - disse Pandora, enquanto os dois homens se levantavam. - Onde esto os outros?

- Est todo mundo passando mal... - respondeu Hettie. - Caro sentiu-se pssima a noite inteira e Lottie tambm. Kitty est com tamanha dor de cabea que nem consegue abrir os olhos.

- O problema com os vinhos de Norvin  que so bons e pesados demais. Se as meninas tivessem seguido meu conselho e ficado apenas no champanhe, isso no teria acontecido! - comentou Freddie.

- Vejam s quem fala! - replicou Hettie. - Voc estava mais pra l do que pra c e Richard mal podia se aguentar nas pernas.

- Isto me lembra que no vimos nosso anfitrio hoje - disse Clive.
- Pensei que ele viesse cavalgar conosco.

- Acho que ele tem mais o que fazer - disse Pandora.

- E se ele fizer essas coisas com voc - comentou Hettie -, Kitty lhe arrancar os olhos. Estou lhe prevenindo... Ela  muito ciumenta e no fala, age!

- No vejo por que Kitty sentiria cimes de mim - retrucou Pandora. - No passo da prima pobre, para quem ningum liga!

Os dois homens riram e Hettie disse:

- Bem, no se queixe de que no a avisei!

O conde apareceu e bastou olh-lo para Pandora certificar-se, sem que ele lhe dissesse, que havia se divertido um bocado. Teve a impresso de que ele era o tipo da pessoa que gostava de enfrentar dificuldades. Aquilo era uma caracterstica de muitos dos Chart e ela achou que talvez um de seus problemas era o fato de que, a partir do momento em que havia herdado uma grande fortuna, tudo se tornara por demais fcil. Sua me sempre lhe dizia que os homens s se sentiam bem quando tinham o que fazer.

- Eles se parecem com as crianas - comentava. - Quando uma criana pergunta: O que vou fazer?,  sinal de que se sente entediada e

 da que nascem as grandes travessuras...
- Onde foi que voc esteve durante toda a manh? - perguntou Freddie. - Clive e eu nos sentimos melhor depois de galopar em seus excelentes cavalos, mas voc no parece ter sentado em qualquer outra coisa que no fosse uma cadeira.

- Estive muito ocupado com assuntos relativos ao castelo e  propriedade.

Olhava para Pandora, enquanto falava, e seus olhos brilhavam.
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Sem ter plena conscincia do que fazia, ela segurou a mo do conde.
- Foi tudo muito excitante! - disse baixinho. O conde apertou sua mo e somente quando ela notou o olhar de Hettie imaginou se acaso tinha sido indiscreta.

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CAPTULO IV

Assim que o almoo terminou, o conde levantou-se e disse:

- vou andar a cavalo.

Ele comeu muito pouco e Pandora tinha certeza de que seu pensamento estava voltado para outros assuntos. Prestava muito pouca ateno no que Hettie dizia e respondia distraidamente s perguntas de seus amigos.

Pandora sentiu-se aliviada ao constatar que no havia o menor sinal de sir Gilbert. Apesar de no perguntar por ele, Richard contou-lhe o que queria saber, mencionando que, na noite passada, sir Gilbert havia dito que iria visitar sir Edward Trentham.

Clive e Richard no tiravam os olhos do conde,  espera de que ele os convidasse para cavalgar, mas, antes que pudessem dizer qualquer coisa, seu anfitrio declarou:

- Se no estiver cansada demais, Pandora, gostaria que viesse comigo. H umas tantas coisas que quero ver e acho que s mesmo voc poder mostr-las para mim.

- Mas  claro, primo Norvin.

Subiu rapidamente para seu quarto, a fim de vestir um traje de montaria. No havia dispensado aquela pea de vesturio, pois tinha a ligeira esperana de que poderia novamente percorrer a cavalo a terra que amava.

Sabia que os homens detestavam esperar e vestiu rapidamente o traje verde, muito bonito, que no usava h vrios anos, mas que ainda lhe servia. Talvez fosse velho, mas era muito bem talhado. Por mais que economizassem nos vestidos de todos os dias, seu pai sempre

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insistia para que ela e sua me se trajassem apropriadamente, quando iam  caa.

Desceu rapidamente a escadaria e encontrou o conde  sua espera no bali. L fora estavam dois cavalos magnficos. Nunca havia cavalgado animais semelhantes e seu pai jamais teria tido condies de compr-los.

O conde ajudou-a a montar e, quando a segurou pela cintura, Pandora percebeu o quanto ele era forte.

Seus olhos se ctuzaram e o que ela estava para lhe dizer subitamente j no tinha mais importncia. Sabia apenas que ele estava sorrindo. Aqueles breves segundos lhe pareceram extremamente longos e ento ele lhe deu as costas e montou.

O corao de Pandora batia de modo estranho e ela sentia dificuldades em respirar. Imaginou que aquilo se devia  excitao de voltar a cavalgar nas terras de Chart.

S quando alcanaram a ponte  que ela conseguiu dizer:

- Aonde voc quer ir?

- Achei que voc gostaria de me mostrar aquela parte da propriedade que ainda no conheo.

- Onde foi que Voc j esteve?

- Em muito poucos lugares. Durante o Natal fazia mau tempo e estvamos todos ns por demais bbados. A ltima vez que estive aqui, passei o tempo todo ao lado de uma certa dama loira que no sabia montar a cavalo.

Pandora imaginou que ele estava fazendo aquelas declaraes com o propsito deliberado de choc-la.

Achou que estavam se batendo em duelo um com o outro, no somente atravs das palavras, mas como se fossem geis esgrimistas, calculando os menores movimentos.

- Pois ento vou lhe mostrar as granjas e lhe falar um pouco a respeito dos homens que cuidam delas para voc.

Foram em direo  granja maior, ocupada por uma famlia que morava nela desde quando Pandora conseguia se lembrar. Eram quatro filhos, que faziam a maioria do trabalho, pois o pai estava ficando velho, e agora se encontravam nas lavouras.

O pai cuidava de alguns bezerros recm-nascidos e sua mulher alimentava os gansos e recolhia os ovos.

Assim que Pandora apareceu, eles a saudaram com efuso, mas, quando ela os apresentou ao conde, houve um momento de frieza e eles se entreolharam com apreenso.

- Se veio nos expulsar, senhor conde, no vou poder fazer nada contra o senhor. Nestes ltimos seis meses, j lhe dei o que podia e o

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nico jeito que tenho de pagar  vender meu gadinho. Isto, como todo fazendeiro sabe,  o comeo do fim.

- Est se referindo  renda? - indagou o conde.

-  claro! - respondeu o meeiro com agressividade.

- Voc por acaso est pagando mais do que pagava, antes de eu herdar Chart?

O meeiro olhou para ele sem acreditar no que ouvia.

- Pelo que entendi, o aumento foi feito obedecendo a ordens do senhor conde.

- Pois est muito enganado!

- Diga ao conde de quanto foi o aumento - falou Pandora.

- Quase o dobro, senhor conde, e tambm nos disseram que dez por cento de tudo que a gente vender no mercado deve ser dado para o senhor.

Pandora ficou atnita. Sabia que aquilo era uma exorbitncia. Ser que o conde compreenderia que seria impossvel para um meeiro satisfazer honestamente quela exigncia?

Fez-se um silncio pesado, antes que o conde declarasse:

- Trata-se, evidentemente, de um engano. Voc pagar a mesma renda que pagava outrora. No tenho nada a ver com os produtos que voc vende, pois eles so o resultado de seu trabalho.

O meeiro mal parecia acreditar no que ouvia e Pandora sentiu vontade de chorar.

- Est falando a srio, senhor conde? - balbuciou o velho.

- Meu novo administrador, o sr. Michael Farrow, explicar que o que aconteceu por aqui nestes ltimos tempos no tem nada a ver com minhas ordens.

- Nem consigo acreditar! - disse o meeiro. - Obrigado, senhor conde, muito obrigado! O senhor tirou um peso do meu ombro e minha mulher voltar a dormir tranquila...

Insistiu muito em que Pandora e o conde fossem at sua casa tomar um copo de cidra e comer uma fatia de presunto feito por ele mesmo.

Pandora ficou muito contente em notar que o conde sentia-se  vontade na companhia daquela gente to simples.

A mulher do meeiro comeou a chorar quando soube daquelas boas notcias, mas enxugou rapidamente as lgrimas e sorria de felicidade quando eles partiram.

- Deus a abenoe, srta. Pandora - disse, quando se despediram.
- Este foi um dia muito feliz para ns. Seu pai, que Deus o abenoe, ficaria muito contente em saber que as coisas no castelo voltaro a ser como eram.

- Tambm acho... - concordou Pandora.

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Ela e o conde se afastaram e, quando chegaram  prxima granja, a mesma cena se repetiu.

Agora sentia que o conde estava apreciando demais tudo aquilo. Era suficientemente perspicaz para compreender que, aps tantos anos passados na pobreza, era-lhe agradvel sentir que estava em uma posio de mando e que as pessoas confiavam nele.

- Espero que compreenda agora como  importante ser conde de Chartwood! - comentou Pandora, quando voltaram a cavalgar. - no somente em Londres, quando est a servio do rei, mas tambm aqui, onde reina soberanamente.

- Eu me tornarei muito convencido e empolgado com minha prpria importncia, se voc continuar me falando neste tom.

- O que estou dizendo  verdade! Papai disse certa vez que Chart  como um Estado dentro do Estado. Somos quase auto-suficientes. Temos no somente granjeiros, mas tambm pedreiros, lenhadores, carpinteiros, ferreiros, alm dos criados que servem diretamente a casa.

- No tinha conhecimento de nada disso. Estou certo de que voc ter algo a dizer em relao  minha negligncia, no?

- No diria que se trata de negligncia, e sim de ignorncia disse Pandora, em tom provocante.

- Pois bem, sabe-tudo, este  o seu momento de triunfo. vou permitir que voc caoe de mim no momento, mas sei que sou um organizador eficiente. Uma vez que voc atingir seus propsitos, saiba que no precisarei mais de seus servios!

Pandora sabia que ele estava caoando, mas percebeu que suas palavras encerravam um fundo de verdade.

Haviam visto apenas um dcimo do que era necessrio, e, no entanto, percebeu que o conde compreendia a organizao da enorme propriedade com uma inteligncia e uma capacidade de aprendizado que jamais teria esperado dele.

Fazia perguntas extremamente pertinentes, no s a ela como aos meeiros e s outras pessoas que encontravam. Na volta, atravessaram a aldeia e ele, olhando para a casa paroquial, disse:

- Gostaria que seu pai ainda estivesse aqui. Tenho certeza de que me informaria a respeito de muitas outras coisas que desejo saber.

- Que tipo de coisas?

- Por exemplo, as pessoas que moram nesta aldeia, o tipo de vida que levam quando no esto trabalhando. Acha que iriam reparar se eu fosse  estalagem e pedisse uma bebida?

- Acho que o sr. Tubb, dono da estalagem, ficaria muito satisfeito em servi-lo. H vinte e cinco anos toma conta do negcio, que pertenceu a seu pai

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- Muito bem, irei l amanh. Acho que uma estalagem no  o tipo de lugar que voc possa visitar.

- Voc no est mais em Londres e garanto-lhe que O Bico da Cegonha  uma estalagem muito respeitvel... - disse Pandora, rindo.

Achando que ele havia ficado surpreso, acrescentou:

- Claro que em Lindchester eu no poderia entrar em uma estalagem. Tio Augustus, se soubesse, teria um ataque! Mas o sr. Tubb sempre tinha um copo de suco de ma reservado para mim, quando eu era menina. Alm disso, jamais serviu algum que j tivesse abusado da bebida. A embriaguez em Chart  algo muito raro.

-  um bocado diferente do que acontece no castelo de Chart observou o conde secamente,

- Voc pode achar que  muita ignorncia de minha parte, mas no consigo entender como uma pessoa pode apreciar tanto a bebida, j que no dia seguinte passa to mal. Parece-me um desperdcio, pois a vida  to curta...

- Voc fala como se tivesse oitenta anos. Ainda tem muito o que viver.

- O tempo no ser suficiente para fazer tudo o que pretendo... Se pelo menos tivesse oportunidades...

- E o que voc quer fazer?

- Ler, para incio de conversa; viajar e ver Chart recuperar seus dias de glria.

- E o castelo no lhe parece suficientemente glorioso, agora?

- Para dizer a verdade, no. As pessoas que trabalham no castelo querem que seus esforos sejam reconhecidos. No adianta os jardineiros cuidarem de jardins maravilhosos e produzirem frutos esplndidos no pomar, se no h ningum para apreci-los. Os cavalos ficam gordos e preguiosos nos estbulos, pois no faz sentido exercit-los se no vo ser cavalgados por algum que lhes d o justo valor.

- Voc est sugerindo que eu deveria morar em Chart?

- E por que no? Quando vov era jovem, costumava viver em Chart nove meses no ano. Isto aqui era lindssimo no vero e o outono era a poca da caa. Ele costumava dizer que, se no fosse a guerra, passaria a primavera em Roma e no sul da Frana.

O conde no disse nada e, aps uma pausa, Pandora prosseguiu:

- Nosso palcio em Londres abria-se durante a alta estao. Quando mame foi apresentada  sociedade, houve um baile magnfico e ela no se cansava de descrev-lo.

- E voc gostaria que tivessem lhe oferecido um baile...

- Quer que lhe conte como passei o dia dos meus dezoito anos?

- Vamos l.

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- Passei a manh distribuindo folhetos piedosos para as velhinhas em um asilo, que em lugar deles preferiam ter um gatinho para aninhar no colo... Depois do almoo, minha tia ficou muito zangada porque eu no tinha lavado as toalhas de mesa to bem quanto ela gostaria. Como castigo, mandou que eu as lavasse novamente e levei mais de uma hora passando-as no ferro quente... No  a mesma coisa do que ser festejada com um baile no palcio de Chart, em Londres...

Sua voz tremia e ela esporeou o cavalo para que o conde no notasse as lgrimas que lhe umedeciam os olhos. Logo depois, disse a si mesma que no devia ter se queixado ao conde.

No tivera a inteno de faz-lo, mas algumas vezes era difcil, especialmente quando se encontrava em Chart, no se revoltar diante da infelicidade e do sofrimento que a vida ao lado de seus tios havia acarretado para ela.

Aps visitarem o moinho, o conde declarou com relutncia:

- Acho que est na hora de voltarmos. Pandora havia esquecido da hora e perguntou:

- J  muito tarde?

- Cinco e quinze...

- Tudo isso? Ainda no lhe mostrei metade do que pretendo.

- Podemos deixar para amanh.

- Sim,  claro - disse Pandora, aliviada.

Faltavam ainda dois dias para seus tios regressarem e ento imaginava que teria de voltar para Lindchester.

- No tinha a menor ideia de quantas pessoas trabalham para mim, at que Farrow me contasse - disse o conde, quando regressavam ao castelo,

- No direi aquilo que  bvio.

- Mas est pensando... Voc acha que sou a pessoa menos indicada para estar aqui, simplesmente porque no me interessei o suficiente para ficar a par dessas coisas.

- Pois est muito enganado.

- Ento me diga o que estava pensando.

- Quer mesmo saber a verdade?

- Sim.

- Estava pensando que  intil voc lutar contra Chart, pois o castelo ir captur-lo, envolv-lo, faz-lo apaixonar-se... Isto aqui no  apenas um lugar belssimo, mas tambm muito interessante. H tanta coisa a ser feita...

- Que tipo de coisa?

- Novas casas a serem construdas, novas pedreiras a serem exploradas, outras partes da terra a serem cultivadas. Papai costumava dizer

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que, aps a morte de tio George, vov desinteressou-se de tudo. Em quatro anos as coisas podem ir para trs e decarem.

- Compreendo o que voc est tentando dizer. E qual seria sua resposta, se eu dissesse que prefiro minha vida dissoluta em Londres  alegria que isto aqui poderia me proporcionar?

Exprimia-se com agressividade, mas Pandora sabia que ele voltara a enfrent-la.

- H uma parbola, na Bblia, relativa ao filho prdigo.

- Mas ele comia cascas de rvores e sentava-se entre os porcos.

- A esta altura, voc deve saber que tipo de companheiros eles so
- comentou Pandora, em tom provocante.

- Se est se referindo a meus amigos, vou puni-la. Voc certamente merece!

Ela j havia antecipado qual seria a sua reao e, rindo, deu uma pequena chicotada no cavalo, afastando-se dele a todo galope.

Atravessaram o parque e o conde tentou inutilmente passar  sua frente. Somente quando chegaram  ponte de pedra, Pandora freou o cavalo e esperou que ele viesse ao seu encontro.

- Venci! Voc deve ser magnnimo... e me perdoar.

- Desta vez voc se safa. Lembre-se porm, Pandora, que eu sou um Chart moreno e tenho um temperamento difcil.

Ela voltou a rir, enquanto eles atravessavam juntos a ponte.

- Voc gosta de pescar? - perguntou, olhando para as guas lmpidas do rio.

- Costumava pescar - respondeu o conde -, e com muito sucesso.

- Pois, se voc se comportar bem, mostrarei o lugar onde papai costumava pescar as trutas mais deliciosas.

- Vamos fazer um piquenique e, para provar o quanto sou bom, voc mesma assar as trutas que eu pescar.

- Sim, porque seria uma vergonha se voltssemos para casa famintos.

- Pois se as trutas existirem, prometo que isto no acontecer! disse o conde, cheio de confiana em si mesmo.

Os criados estavam  espera deles e, ao desmontar, Pandora achou que um piquenique seria algo muito divertido.

Subitamente ocorreu-lhe que o conde poderia levar Kitty e os demais convidados com ele.

Quase havia se esquecido da presena dos demais em Chart Hall, at o momento em que subiu at seu quarto para mudar de roupa e ouviu vozes e risadas vindas do salo.

Colocou um daqueles seus vestidos muito simples e quando desceu verificou

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que os convidados j estavam bebendo. Kitty e Caro acompanhavam os homens.

As atrizes estavam vestidas com trajes de seda e gaze, de cores brilhantes. Suas jias faiscavam e a maquilagem disfarava os estragos provocados pelos excessos da vspera. Ambas faziam muito barulho, mas, assim que Pandora entrou no salo, Kitty perguntou agressivamente:

- Onde foi que vocs estiveram o tempo todo? Ouvi dizer que voc saiu a cavalo com meu namorado.

- Estive mostrando a propriedade a meu primo e acho que esquecemos das horas. Ele teve de ver tanta gente...

- E voc, sem dvida, teve muito o que lhe dizer... - comentou Kitty, com amargura e ironia.

Burrows seguira Pandora at o salo e perguntou:

- Gostaria de tomar ch, srta. Pandora?

- Gostaria muito, Burrows. Obrigada.

Atrs dele vieram dois criados carregando uma bandeja de prata na qual havia um bule de ch, leiteiras e aucareiros usados no tempo de sua me. Havia tambm sanduches, biscoitos e outras guloseimas. Pandora, olhando para Hettie e Caro, perguntou:

- Algum mais quer ch?

- Quem h de querer ch, quando pode tomar champanhe? perguntou Caro, em tom de desprezo.

- Pois eu quero - disse sir Gilbert, colocando a taa sobre a mesa e aproximando-se da bandeja.

- Leite e acar? - perguntou delicadamente Pandora, servindo-o. Sabia que ele a estava encarando de um modo que ela abominava e

desviou propositalmente o olhar, ao lhe entregar uma xcara de ch.

- Receei que voc tivesse ido embora - disse ele em voz baixa, sentando-se a seu lado. - S me tranquilizei quando me informaram que tinha ido dar um passeio a cavalo.

- No vejo por que isto haveria de interess-lo particularmente.

- Pois ento lhe direi, mas seria mais fcil se ficssemos a ss... Ela no respondeu e concentrou-se no ato de servir-se de ch.

- Voc  mesmo linda! Gostaria de v-la montada a cavalo. Se soubesse que voc  dada  equitao, teria recusado o convite de Trentham e ficado aqui.

- Meu primo e eu tnhamos negcios a tratar - disse Pandora, com bastante frieza.

- Mas agora voc est livre e pode me dar ateno.

- Acho que daqui a pouco  hora de nos trocarmos para o jantar.

- Venha me mostrar a galeria de quadros, pois ainda no a conheo.

- No haver tempo,

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- Voc est querendo me despistar, mas garanto-lhe que sou um caador tenaz e muito bem-sucedido...

Pandora disse a si mesma que no deveria envolver-se com aquele tipo de conversa. Aquele homem dava a todas as suas palavras um significado oculto. Tomou o ch sem dizer mais nada, tendo uma conscincia por demais aguda daquele homem sentado a seu lado.

Ento, para seu grande alvio, o conde entrou no salo.

As mulheres deram gritinhos de prazer ao v-lo, mas ele ignorou-as e, enquanto se aproximava de Pandora, ela notou que seu primo trazia algo na mo.

Era um leno de seda e continha algo pesado, que ele colocou sobre seu colo.

Pandora olhou-o surpreendida e ele disse:

- Voc tinha razo. Farrow encontrou-os. Insistiu em revistar a bagagem de Dalton, antes que ele partisse.

Pandora abriu o leno. L estavam quatro caixinhas de rap. No conseguiu reprimir um grito de satisfao.

- Faltam vrias outras, mas Dalton confessou onde as vendeu e Farrow acha que poder recuper-las.

- Que bom! - exclamou Pandora. Pegou uma das caixas de rap.

- Sabia que esta aqui foi dada por Pedro, o Grande, a um ancestral nosso, embaixador na corte de So Petersburgo? Eu me sentiria to infeliz se ela no fosse achada...

O conde estava para dizer algo, quando foi interrompido.

- Que histria  esta? Por que voc est dando todos estes presentes a ela? - perguntou Kitty, furiosa.

Olhou para a caixa de rap na mo de Pandora e berrou:

- Diamantes tambm! Se algum tem que ganhar diamantes, saiba que esse algum sou eu!

Fez meno de tirar a caixa de Pandora, mas o conde impediu-a.

- No se trata de um presente. As caixas pertencem ao castelo, mas foram roubadas por um dos criados.

- Acha que vou acreditar nesta bobagem? E, mesmo que seja verdade, dando para mim!

- Elas no so de nenhuma utilidade para voc - declarou o conde, bem-humorado. - Voc no poder us-las no pescoo ou na orelha.

- Elas tm diamantes, que podem ser transformados em outras jias - exclamou Kitty, furiosa.

Pandora colocou a caixa dentro do leno e levantou-se, dizendo:

- vou coloc-las em um lugar mais apropriado.

- No vai, no! - gritou Kitty

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Livrou-se do conde com um repelo e voou para cima de Pandora. Deu-lhe um safano, tentando apoderar-se do precioso embrulho. Pandora tropeou e quase caiu, mas, para grande constrangimento seu, sir Gilbert a amparou.

- Agora basta, Kitty - disse o conde, encolerizado. - Comporte-se! J lhe disse: as caixas de rap pertencem  minha casa e ningum vai tir-las daqui.

A firmeza com que ele se exprimia surpreendeu ao mesmo tempo Kitty e Pandora.

Esta ltima tentou desvencilhar-se dos braos superprotetores de sir Gilbert.

- Muito obrigada - disse. - Agora estou bem.

- Eu lhe darei amparo o tempo que for necessrio...

- No  preciso.

O conde, s voltas com Kitty, percebeu de repente o que estava acontecendo.

- Solte-a, Gilbert. Quanto mais cedo as caixas estiverem de volta a seus lugares, melhor.

-  um prazer ampar-la. Voc  uma criatura adorvel - murmurou ele, baixinho, ao ouvido de Pandora, soltando-a com muita relutncia.

Pandora foi at o fundo do salo e colocou duas caixas de rap sobre uma mesinha Lus XIV. Em seguida, sem olhar para trs, saiu rapidamente, fechando a porta.

As duas outras caixas pertenciam  biblioteca e ela notou a falta de mais trs, todas valiosas, cravejadas de pedras preciosas e com brases esmaltados.

Precisamos urgentemente de um novo conservador da coleo do castelo, pensou ela.

O antigo conservador havia morrido h trs anos e no fora substitudo. Sabia que o catlogo por ele elaborado, e que descrevia todas as obras de arte existentes em Chart, estava em uma das gavetas da escrivaninha do escritrio.

Perguntaria a Michael Farrow, no dia seguinte, se ele poderia pensar em algum qualificado para assumir aquele cargo. Pensando melhor, achou que aquilo seria um erro. Talvez fosse uma interferncia excessiva de sua parte.

Tentou imaginar o que sua me teria feito. Deveria persuadir o conde da importncia de um conservador, mas a sugesto da contratao deveria partir dele.

Se quero de fato ajud-lo, devo agir com inteligncia. Os homens detestam mulheres mandonas e, j que ele se dispe a dirigir a casa

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sozinho, no aceitar minha interferncia ou a de quem quer que seja, pensou Pandora.

Uma coisa era pensar com lgica e calma, e outra, muito diferente, sentir que tudo era uma questo de tempo.

O tempo avanava impiedosamente e aproximava-se o dia do regresso de seus tios.

Ainda tenho dois dias diante de mim, pensou, sentindo uma alegria enorme e disposta a aproveitar integralmente o tempo que lhe restava.

Foi at seu quarto e l encontrou Mary quase histrica, tamanha era sua felicidade.

- As coisas j mudaram muito, senhorita! Assim que a sra. Meadowfield chegou, tudo se alterou.

- Era o que eu imaginava - disse Pandora, sorrindo.

- Duas criadas foram embora com a sra. Jenkins, pois vieram com ela para c. Estamos com falta de gente, mas vamos trabalhar por quatro, para deixar as coisas como elas devem ser!

Enquanto Pandora se vestia, a sra. Meadowfield veio v-la.

- Tem tudo de que necessita, srta. Pandora?

- Sim, obrigada, sra. Meadowfield. Que bom t-la de volta!

A sra. Meadowfield sorriu, grata. Usava um sbrio vestido preto com um avental de tafet, de que Pandora lembrava-se to bem, e de sua cintura pendia uma correntinha de prata, com um molho de chaves que tilintavam.

Mandou Mary executar uma determinada tarefa e, quando a moa saiu, disse a Pandora:

- Nunca presenciei tamanha confuso como a que reina nesta casa no momento, srta. Pandora. No imagino o que sua me teria dito! A roupa de cama e mesa est mal passada, os-quartos desarrumados e vrios objetos esto quebrados ou simplesmente desapareceram.

- Tenho certeza de que em breve a senhora colocar tudo na mais perfeita ordem.

- Espero que sim, srta. Pandora. O senhor conde no deveria estar usando o aposento principal do castelo para...

Ela interrompeu a frase pela metade, mas Pandora sabia perfeitamente o que queria dizer.

- Temos de ajudar o senhor conde. Leva muito tempo para se conhecer Chart do modo como a senhora e eu conhecemos. Meu primo tem a maior boa vontade, mas  homem e no devemos pression-lo muito.

- A senhorita  to sensata quanto sua me. Mais de uma vez ela me disse, referindo-se a seu av: Deixe o conde pensar que a ideia  dele, sra. Meadowfield. Foi exatamente o que fiz.

- E  assim que deve voltar a agir.

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A sra. Meadowfield olhou  sua volta para ver se estava tudo em ordem e declarou:

- Aqui  seu lugar, srta. Pandora, e isto  um fato. Cansei de dizer a minha irm: no  certo a srta. Pandora morar em Lindchester, quando o lugar dela  aqui.

Pandora beijou a sra. Meadowfield no rosto.

- O castelo, a aldeia e a senhora sempre representaro muito para mim. Aqui  o meu verdadeiro lar!

Desceu para o salo, onde quase todos os convidados j estavam reunidos.

Kitty entrou espalhafatosamente, no momento em que o conde consultava o relgio, com o cenho franzido. Usava um vestido ainda mais audacioso do que o da vspera. Trazia um colar de esmeraldas em torno do pescoo e uma pequena tiara de esmeraldas na cabea.

Tomou o brao do conde de modo extremamente possessivo.

- Voc se atrasou! - murmurou o conde, enfadado.

- Em vez disso, voc deveria dizer que vale a pena esperar por mim... Usava um perfume forte e embriagador. Pandora achou que ele se chocava com a fragrncia das flores e o cheiro de lavanda, que eram caractersticos do castelo.

Acomodaram-se  mesa de jantar, como na vspera, e mais uma vez Pandora viu-se sentada ao lado de sir Gilbert.

Na noite anterior havia sentido medo dele, mas agora estava tomada por uma nova confiana em si mesma e no permitiria que ele prosseguisse em suas investidas.

Havia menos gente  mesa, que se apresentava tambm menos ornamentada. Estava, entretanto, decorada com flores, e Pandora percebeu que se tratava de um indcio de que os jardineiros tambm estavam contentes com as mudanas.

Tinha certeza de que Michael Farrow voltaria a empregar o oai de Mary. Quem sabe j o tinha feito... por isso as flores estavam l.

- Voc tambm  uma flor - disse-lhe sir Gilbert, seguindo a direo de seu olhar.

- Pois eu acho que as pessoas assemelham-se mais aos animais retrucou Pandora, sem saber muito bem o que dizer.

- Se  assim, voc  como uma daquelas coras fugidas que vi no parque.,. Tornam-se criaturas encantadoras, uma vez que so domadas...

Pandora fingiu no ouvir o que ele dissera, mas sabia que o jantar ia ser difcil e no se enganou.

Sir Gilbert tentou fazer-lhe a corte o tempo todo e tudo o que ela dizia, por mais banal que fosse, ele tentava transformar em um galanteio.

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Percebeu que era um homem muito experiente, mas tinha certeza de que qualquer outra criatura teria ficado aborrecida, ou at mesmo insultada, diante das respostas desdenhosas que ela fazia a comentrios to ardentes. No era porm o caso de sir Gilbert!

Ele a continuou importunando e ela sentiu-se aliviada quando o jantar terminou.

- Gostaria de levar s senhoras at o salo, Pandora? - perguntou o conde.

Pandora levantou-se, porm Kitty declarou:

- No vamos deixar vocs bebendo garrafas e mais garrafas de vinho do porto at carem de quatro. Ou vocs vm com a gente, ou ento ficamos aqui!

- Vamos, Kitty! Seja camarada! - disse Freddie. - Voc poderia tomar um clice de vinho do porto, mas no ganhar nenhum, depois do que aprontou ontem  noite.

- No quero outra coisa a no ser champanhe, mas vou ficar com Norvin, apesar de tudo o que vocs disserem,

Olhou intencionalmente-para Pandora e acrescentou:

- No aceito ordens de quem quer que seja, sobretudo da parte de quem no tem direito de d-las!

- vou dizer a Burrows que traga conhaque para o salo - disse o conde. - Talvez Kitty tenha razo e no devamos tomar vinho do porto hoje  noite.

- Isto estraga todos os meus planos - exclamou Freddie. - Mas quem sabe amanh as coisas dem certo...

- Sem a menor dvida - comentou Clive. - No conheo mais ningum que resista to pouco aos prazeres de uma garrafa!

- Ainda bem que a adega de Norvin  generosa... - disse Freddie cinicamente.

Foram todos para o salo e Pandora constatou, para sua grande surpresa, a presena de vrias mesas de jogo.

- com que ento vamos jogar! timo! - exclamou Hettie.

- Espero que Clive possa bancar o que voc perder - disse Kitty, despeitada. - Anteontem a brincadeira custou-lhe uma fortuna.

- Recuperei alguma coisa ontem  noite - retrucou Hettie. Pandora, para seu grande alvio, percebeu que sir Gilbert estava muito entretido, disputando com Freddie, quem tiraria um s primeiro.

No tinha o menor desejo de jogar e no dispunha de meios para isso. Por outro lado, no admitiria que algum pagasse por ela. Aproveitou o momento e saiu para o terrao.

A noite estava quente e via-se no horizonte manchas avermelhadas, indicando que o sol se pusera h pouco tempo.

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No havia neste mundo nenhum lugar to belo quanto Chart, pensou Pandora, caminhando em direo ao gramado verde.

O lago era como um espelho, refletindo os rannculos dourados, e estava coalhado de lrios dgua. O perfume das rosas e das magnlias, forte e embriagador, parecia-lhe mais penetrante do que nunca. Aproximou-se mais do lago, prestando ateno no coaxar das rs e no cricri dos grilos.

A sra. Meadowfield tem razo, pensou. Perteno a este lugar e, alis, sempre pertenci.

Pensou que onde quer que estivesse, mesmo que nunca mais voltasse a ver Chart Hall ou a aldeia, uma parte de seu corao permaneceria ali, e isso ela jamais haveria de esquecer.

Estava to entregue a seus pensamentos que no ouviu algum aproximar-se, at o momento em que aquela voz que ela detestava disse baixinho:

- com que ento eu a encontrei, menina fugitiva! Tinha a impresso de que voc estaria mesmo aqui.

Todo o encantamento se rompeu e Pandora encarou-o, irada.

- Vim para c porque quero ficar sozinha.

- E eu vim porque quero ficar com voc.

- Se o estou evitando,  porque no desejo ouvir o que o senhor tem a me dizer. Pode achar que estou sendo indelicada, mas  a pura verdade.

Sir Gilbert riu.

- Acho-a diferente de todas as pessoas que conheci, e isto  muito excitante. Voc me atrai, Pandora, e no tenho a menor inteno de deix-la sozinha.

Ele deu um passo  frente e Pandora pressentiu que a tomaria nos braos. Tentou escapar, mas era tarde demais.

Sir Gilbert puxou-a brutalmente para ele e ela comeou a debater-se desesperadamente, compreendendo que no adiantava opor-se  sua fora. Ele se inclinou e seus lbios procuraram sofregadamente os dela.

Pandora deu um grito, revoltada, pois sua proximidade e a ideia de ser beijada por ele deixavam-na enojada. Virava a cabea de um lado para outro, tentando subtrair-se a ele, mas sir Gilbert cessou de procurar seus lbios e tomou-a nos braos.

- Vamos para um lugar um pouco mais escondido... L eu lhe ensinarei a ser um pouco mais submissa...

Ele se exprimia com volpia e Pandora percebeu que o tinha deixado excitado.

- Ponha-me no cho! - gritou. - Como ousa comportar-se assim? Eu o odeio! Est me ouvindo? Eu o odeio!

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- vou ensin-la a me amar. Devo dizer-lhe, Pandora, que sou um professor muito experiente...

- Solte-me! Para onde est me levando? Solte-me!

Sabia que ele no tinha a menor inteno de atender a suas splicas e que a estava levando para os arbustos ao lado do lago.

Deitou-a sobre o gramado e, no momento em que Pandora fez meno de fugir, jogou-se por cima dela.

Ela gritou, aterrorizada, procurando defender-se, mas intua que seus esforos eram vos. Estava inteiramente  merc dele.

Voltou a gritar e percebeu aquele fogo lbrico brilhando nos olhos dele. Sabia que ele estava saboreando o momento em que silenciaria seus gritos.

Algum caminhava por entre os arbustos e, logo em seguida, antes que Pandora pudesse se dar conta do que estava acontecendo, sir Gilbert foi agarrado pela gola da casaca e jogado  distncia.

Pandora sabia que era o conde. Sentiu um alvio indescritvel apoderarse de todo o seu ser.

- Mas, afinal de contas, o que voc pensa que est fazendo? ouviu-o perguntar, irado.

Soltou sir Gilbert e ele quase perdeu o equilbrio.

- Achei que fosse suficientemente honrado para deixar minha prima em paz, depois do que lhe disse ontem  noite.

- E por que eu a deixaria em paz? - perguntou sir Gilbert, furioso. - Voc est se divertindo por a e eu tambm quero me divertir.

- Mas no com minha prima!

- No recebo ordens de voc!

Saltou inesperadamente para cima do conde e o teria esmurrado no rosto, se Norvin no tivesse percebido o golpe, desviando-se a tempo.

Foi entretanto atingido no ombro, e vacilou.

Revidou, golpeando sir Gilbert. Pandora percebeu que era um pugilista experiente.

Sir Gilbert tambm sabia como se defender e ambos, saindo do meio dos arbustos, puseram-se a lutar no gramado.

Bateram-se furiosamente e aparavam os golpes um do outro. Subitamente, quando menos se esperava, o conde atingiu sir Gilbert no queixo.

Este vacilou e deu alguns passos para trs. Agora lutavam na beira do lago e sir Gilbert, tropeando, caiu dentro da gua, afundando lentamente.

De repente, ouviu-se o som de palmas. Pandora e o conde voltaram-se surpreendidos, e viram que Freddie, Clive e Richard tinham assistido a toda a cena..

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- Muito bem, Norvin! - exclamou Freddie. - No sabia que voc lutava to bem!

- Aprendi na escola da vida.

Foi at o lago e tirou sir Gilbert de dentro da gua. Estava fora de si, mas logo comeou a sacudir a cabea, pondo gua pela boca. Os outros homens foram at ele, ajudando-o a levantar-se.

- Foi uma luta e tanto! - exclamou Clive. - E agora que vocs liquidaram o assunto, acho que todos ns merecemos um drinque.

- No vamos guardar ressentimentos - disse o conde, estendendo a mo para sir Gilbert. - No pretendia jog-lo no lago.

Sir Gilbert afastou o cabelo da testa, mas ignorou a mo do conde, limitando-se a encar-lo com uma expresso de dio.

- Exijo satisfaes de voc, Chartwood! E pretendo obt-las! Fez-se o mais absoluto silncio e Freddie disse:

- Ora, Gilbert, seja esportivo. Foi uma luta limpa e no h a menor dvida de que Norvin ganhou.

- Ns nos bateremos novamente amanh de manh - declarou sir Gilbert.

- Voc est propondo um duelo? - indagou o conde. - Ora, Gilbert, o assunto est liquidado. Sinto muito. Desculpe-me se fui grosseiro em relao a voc.

- Voc, por acaso,  covarde demais para se portar como um cavalheiro? - perguntou sir Gilbert, com agressividade.

- No admito que ningum me chame de covarde!

- Muito bem. Ns nos encontraremos amanh s seis da manh. Clive, peo-lhe que seja meu padrinho. Como no tenho a menor inteno de dormir nesta casa hoje  noite, Trentham arranjar outro lugar onde possa abrigar-me.

- Voc no est falando a srio! - protestou Freddie.

com uma dignidade um tanto cmica, levando-se em conta o fato de que ele estava molhado da cabea aos ps e humilhado, sir Gilbert afastou-se em direo  casa.

Todos permaneceram em silncio, contemplando-o enquanto ele se afastava, at que Freddie exclamou:

- No tinha a menor ideia de que Gilbert fosse capaz desse tipo de reao!

Pandora falou pela primeira vez, desde o incio da disputa:

- Voc... no deve se bater em duelo. No  direito... e pode ser muito perigoso.

- Gilbert, nesse sentido, tem uma reputao muito negativa. Ele sempre se bate em duelo com rapazes jovens e inexperientes - comentou Clive.

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- No sou inexperiente - declarou o conde com secura. - Freddie e Richard, vocs sero meus padrinhos.

- No tenho a menor vontade de ser padrinho de Gilbert - observou Clive.

- No lhe resta outra escolha - retrucou o conde. - Ns nos encontraremos s seis horas. Acho melhor que seja no parque. No quero que os jardineiros sejam nossos espectadores.

- Ningum pode pr um paradeiro nisto? - perguntou Pandora,

desolada.

Durante um momento, ningum disse nada. Ento, como se estivesse compreendendo o que ela sentia, Clive comentou:

-  uma questo de honra. No vou contar nada s mulheres. Elas iriam armar uma confuso.

- Sim... tem razo... - concordou Pandora.

Olhou para o conde e sentiu vontade de dizer-lhe o quanto se sentia grata por ele ter vindo em seu socorro. Ao mesmo tempo, nunca imaginou que uma coisa daquelas pudesse acontecer.

Mal podia acreditar que ele iria se bater em duelo por causa dela.

Sinto muito! Sinto muito! era o que tinha vontade de lhe dizer, mas ele se afastava rapidamente, indicando a todos que desejava ficar a ss...

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CAPTULO V

Assim que Pandora e os rapazes entraram no salo, Kitty perguntou, furiosa:

- Onde foi que vocs se meteram? E onde est Norvin? Eu disse a vocs que o trouxessem para c.

- No conseguimos encontr-lo, mas acho que daqui a pouco ele aparece.

- Est acontecendo um negcio muito esquisito e no estou gostando nem um pouco! - disse Kitty, em tom desagradvel.

Pandora recusou-se a ouvir o restante. Atravessou o salo e, sem falar com quem quer que fosse, abriu a porta e foi para o hall.

Havia percebido que mais uma vez as mulheres tinham abusado da bebida.-Caro estava jogada no fundo de um sof, com os olhos cerrados.

Como  que os homens podem ach-las divertidas, com essa aparncia lamentvel?, perguntou a si mesma.

Tinha notado, durante o jantar, que bebiam demais. Cada copo parecia torn-las mais barulhentas e mais vulgar seu comportamento.

No podia deixar de pensar no que o velho Burrows acharia daquilo tudo, mas ele era experiente demais para deixar de encarar os fatos com ar de perfeita impassividade.

Viu-o censurar, com um olhar glacial, um dos criados que sorria diante de um comentrio qualquer emitido por uma das atrizes.

- Ah, se Chart Hall fosse como outrora... - Pandora disse baixinho, suspirando.

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No conseguia pensar em mais nada, a no ser no fato de que, na manh seguinte, o conde estaria se batendo em duelo por causa dela.

Tinha certeza de que ele seria um preo duro para sir Gilbert. Sabia, ao mesmo tempo, que os duelos podiam ser perigosos e lembrava-se de ter lido histrias ou ouvido falar de tragdias ocorridas aps tais disputas, quando o vencedor via-se obrigado a fugir do pas, com medo de ser detido.

Sabia que a culpa era toda sua. No deveria ter sido to tola a ponto de ir sozinha para o jardim. Deveria ter adivinhado que sir Gilbert a seguiria, mesmo imaginando que ele estaria preocupado demais com o jogo de cartas.

Tudo dar certo... tenho certeza de que tudo dar certo, disse a si mesma com otimismo, mas ao mesmo tempo sentindo-se atemorizada.

Mary veio ajud-la a despir-se, mas, pela primeira vez, sentiu-se desinteressada em relao s coisas que a menina tinha para lhe contar. Pandora deitou-se, assim que se viu a ss, mas permaneceu acordada na escurido.

Comeou a rezar fervorosamente para que tudo desse certo e para que o conde no fosse ferido.

Se ele sasse daquele encontro com o mais leve arranho, poderia ficar zangado com ela e censur-la pelo acontecido.

A ideia era to deprimente que o sono custava cada vez mais a chegar.

Mais ou menos uma hora e meia depois, Pandora ouviu os convidados subindo a escada, a fim de se recolherem. Faziam mais barulho do que nunca.

Ouviu o grande relgio do hall bater duas horas e ainda estava acordada, quando voltou a bater, meia hora mais tarde.

Tudo estava muito tranquilo e, porque se sentia muito desperta, sem conseguir deixar de pensar um s momento, levantou-se e foi at a janela.

Afastou as cortinas de seda e ficou a contemplar toda a beleza que se estendia diante de seus olhos. As estrelas brilhavam e uma meia-lua recortava-se no cu, alm das grandes rvores do parque.

Pensou no que iria acontecer durante a manh e mais uma vez rezou para que o conde no fosse ferido. Nesse momento, notou que uma das janelas do andar trreo estava aberta. Imaginou que os criados deviam ter esquecido de fech-la. Lembrou-se de que seu av insistia sempre para que as janelas permanecessem fechadas  noite.

- Ser muito fcil algum penetrar por elas - dizia -, e  de se duvidar que os vigias possam perceber.

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Havia sempre dois vigias em Chart Hall, Underwood e Colby, a menos que tivessem sido despedidos. Ambos tinham uma certa idade e j no ouviam to bem quanto antes.

vou procurar um dos dois e falar-lhe a respeito da janela, pensou Pandora.

Vestiu um roupo azul de seda que pertencera a sua me e enfiou chinelinhas da mesma cor. Abriu a porta do quarto e saiu no corredor.

A maior parte dos candelabros sobre os aparadores j estava apagada. Havia-os, porm, em nmero suficiente para ela divisar o caminho, apesar de sentir-se capaz de percorr-lo ainda que de olhos vendados.

Achou que Underwood ou Colby estariam no hall, pois era l que costumavam finalizar sua inspeo, mas tal no se deu.

Aps inspecionar em vo o corredor que levava  biblioteca, Pandora dirigiu-se para o lado oposto, deixando para trs os aposentos situados entre o salo e a sala de jantar.

L tambm no havia o menor sinal dos vigias. Imaginou que os encontraria na cozinha, tomando um copo de cerveja ou comendo algo.

So mais relaxados do que no tempo de vov, pensou.

Passou atravs da enorme porta que separava a parte principal do castelo da cozinha, despensa, lavanderia e demais dependncias.

Antes de chegar at l, Pandora tinha de passar pela copa.

Lembrou-se de repente que, se no pudesse localizar os vigias, sempre haveria um criado dormindo na copa, a fim de tomar conta do grande cofre onde era hbito guardar a prataria.

Quando era criana, costumava achar que aqueles criados certamente no deveriam gozar do menor conforto, pois dormiam em uma cama estreita, que era embutida na parede durante o dia e posta para fora durante a noite.

J se aproximava da copa, sem o menor rudo, graas a suas chinelas macias, quando ouviu vozes.

C esto os vigias, naturalmente batendo papo, pensou, sorrindo.

Deu mais alguns passos adiante. Nesse momento, viu algum cado no cho do corredor e ficou intrigada, sem saber o que pensar.

A princpio no conseguiu perceber o que estava acontecendo. Ento, muito chocada, verificou que o homem desacordado era Underwood.

Durante alguns iqstantes, chegou a pensar que ele estava adormecido, mas logo um pensamento assustador passou-lhe pela cabea.

Sem compreender muito bem o que estava fazendo, saiu correndo em

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direo  copa, a fim de procurar ajuda, mas parou na soleira da porta, horrorizada com o que via.

O criado, amordaado e com as mos amarradas, estava de frente para uma das paredes. A porta do cofre estava aberta e, diante dela, com um objeto dourado na mo, encontrava-se Dalton.

Ao seu lado, com um saco na mo, estava outro homem. Teve certeza de que se tratava do sr. Anstey, a partir da descrio que haviam feito dele.

No se conteve e deu um grito, horrorizada. Dalton, que estava de costas para ela, voltou-se. O sr. Anstey perguntou:

- Quem  ela?

- A prima do conde. Desconfio que foi por causa dela que ele me demitiu!

Aproximou-se de Pandora e ela percebeu, tarde demais, o perigo que corria.

Tentou fugir, mas ele foi mais rpido do que ela, segurando-lhe os braos e torcendo-lhe os punhos.

- Solte-me! Que atrevimento! - disse Pandora, indignada e assustada, gritando em seguida.

Nesse momento, Anstey amordaou-a. Ela tentou debater-se, mas era impossvel.

Entregue ao desespero, pensou que estava completamente  merc daqueles homens, mas, nesse instante, ouviu-se uma voz carregada de indignao.

- O que est acontecendo?

Pandora sentiu-se imensamente aliviada, pois era o conde, que trazia na mo uma pistola.

- Soltem esta moa imediatamente ou atirarei!

Apontava a pistola para Dalton, mas Anstey passou o brao em torno de Pandora e encostou-a na porta do cofre.

- Vamos com calma! - disse ao conde.

Pandora, aterrorizada, sentiu a lmina afiada de uma faca contra sua garganta.

Anstey dominava a situao.

- Pegue os sacos - ordenou a Dalton. - E agora, senhor conde, deixe-nos passar ou verificar que no estou brincando ao dizer que esta bela jovem poder cair morta a seus ps.

Havia algo de perverso no modo como ele se exprimia, como se aquelas palavras lhe proporcionassem grande satisfao.

- Isto no vai ficar assim - disse o conde.

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- O senhor logo descobrir que sou melhor e mais experiente como ladro do que o senhor como nobre... - replicou Anstey.

Pandora notou a expresso de ira no olhar do conde e chegou a pensar que ele enfrentaria as consequncias de sua atitude e atiraria em Anstey ou Dalton.

Se ela morresse, seria por uma causa justa, pois no podia suportar a ideia de saber que aqueles homens inescrupulosos estavam levando embora os preciosos objetos de ouro e prata que haviam pertencido a seus antepassados.

- V em frente! - disse Anstey a Dalton. - O senhor conde nada pode fazer e no o atacar. Alis, ele sabe disto muito bem...

com a faca ainda encostada na garganta de Pandora e agarrando-a com tanta fora que chegava a doer, ele deu dois passos adiante, sem tirar os olhos do conde.

- As pessoas morrem rapidamente, quando se corta a jugular... Basta um gesto seu, senhor conde, e vai correr sangue!

Lentamente, como se cada passo lhe custasse um esforo enorme, o conde afastou-se da porta.

Pandora conseguia ler seus pensamentos. Sabia que ele estava na dvida se atiraria ou no em Anstey.

Tinha vontade de incit-lo a correr o risco. No lhe importava morrer, mas estava sendo empurrada pelo homem que a usava como escudo.

Assim que chegaram  porta da cozinha, Pandora viu que o conde dava-lhes as costas e refazia o caminho por onde havia vindo. Imaginou que iria at o estbulo, a fim de solicitar ajuda dos cavalarios.

No momento em que ele desapareceu, o homem que a arrastava ps-se a agir mais rapidamente. Dirigiu-se com ela ptio afora, at a entrada de servio, onde estava parada uma calea.

Dalton j se encontrava l e colocava os sacos no veculo, que era bastante leve e puxado por dois cavalos. Pandora percebeu que poderiam deslocar-se com rapidez.

No teve tempo de pensar em algo que no o desconforto em que se encontrava, pois Anstey tomou-a nos braos e colocou-a por cima dos sacos.

Em seguida, com uma agilidade que ela no acreditou ser possvel, ele e Dalton acomodaram-se na calea e chicotearam os cavalos.

Os animais deslocavam-se com tamanha rapidez que Pandora imaginou que estariam na estrada principal muito antes que o conde tivesse tempo de despertar os cavalarios e mand-los arrear os cavalos, a fim de persegui-los.

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O corpo doa-lhe, devido ao modo brutal como tinha sido jogada por cima dos sacos.

Enquanto os cavalos galopavam, seu corpo era jogado de um lado para outro. Chegava a ter a impresso de que terminaria aquela corrida insensata com alguns ossos partidos.

- Vamos conseguir escapar - ouviu Dalton dizer. - Estamos levando uma bela vantagem.

- O que ele estava fazendo quela hora da noite, com uma pistola na mo? - perguntou Anstey.

- No tenho a menor ideia.

Tinham de gritar um para o outro, tentando sobrepujar o barulho das patas dos cavalos, das rodas e do entrechoque dos objetos de prata.

Pandora, com certo esforo, conseguiu sair de cima dos sacos, acomodando-se ao lado deles. Ficou em uma posio um pouco mais confortvel, mas a mordaa a incomodava demais, e, como seus braos estavam atados por detrs das costas, era impossvel impedir que eles se machucassem ao menor movimento.

Oh, meu Deus, faa com que Norvin nos alcance e me salve!, suplicou Pandora.

Ocorreu-lhe subitamente que, quando eles cessassem aquela louca corrida, a fim de evitar a captura, os dois indivduos no pensariam em levla mais adiante.

Matariam-na e jogariam seu corpo em uma valeta. No deveriam ter a menor inteno de deix-la com vida e, como seriam fatalmente enforcados por roubo, sabiam que a penalidade no seria aumentada, caso a assassinassem.

Socorro, meu Deus, socorro!, dizia para si mesma, desesperada. Ficou a imaginar se seu pai, agora no cu, acaso saberia o que estava lhe acontecendo naquele instante e se ele, de uma certa maneira, poderia ajudar o conde a salv-la.

No havia mais ningum que pudesse faz-lo, pois somente o conde sabia o que tinha acontecido e unicamente ele tinha conscincia do perigo que ela corria.

Pandora tentou calcular quanto tempo levaria para que o conde pudesse alcan-los. Nesse momento, Anstey, que conduzia a calea, gritou:

- Olhe para trs. Se ele estiver nos seguindo, atire nele! H uma pistola aqui no meu bolso, do lado esquerdo.

- E por que no a usou? - perguntou Dalton, furioso.

- Ele me pegou de surpresa e a faca estava mais  mo. De que voc se queixa?

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- De nada, mas gostaria que ele estivesse morto.

- Pois ento atire, caso ele aparea.

Dalton voltou-se, espreitando a estrada pela qual tinham vindo, e Pandora sentiu vontade de gritar, aterrorizada.

Jamais ocorreria ao conde que os ladres tivessem uma pistola, pois eles no a tinham usado em Chart Hall.

No momento em que ele se aproximasse dos gatunos, seria baleado e ela tambm morreria.

No lhe restava fazer mais nada, a no ser rezar desesperadamente, de todo corao. Ento, para sua grande surpresa, surpreendeu-se a pensar:

Se eu tiver de morrer, no tem muita importncia... contanto que o conde viva... acho que ele comeou a gostar de Chart e... cuidar do castelo e o preservar...

Rezou com tamanha intensidade que fechou os olhos.

Subitamente, ouviu-se um barulho semelhante a uma exploso. O mundo todo parecia ter entrado em convulso. Ouviram-se gritos, tumulto e o relincho assustador dos cavalos.

Pandora levou uma pancada na cabea e ficou completamente tonta. Durante alguns segundos, perdeu a conscincia.

Surpreendida, verificou que ainda estava viva e que algum a retirava da calea, segurando-a nos braos.

- Norvin! - foi a palavra que lhe ocorreu, mas ainda estava amordaada.

Sentiu que ele desatava o n do leno e apoiou a cabea em seu ombro. Deu um suspiro fundo, que se transformou em uma exclamao de medo.

- Est tudo bem - disse o conde. - Voc no se machucou de verdade. Arrisquei, acreditando que eles a colocariam na parte de trs da calea, juntamente com os objetos roubados.

Pandora achou impossvel compreender o que ele dizia.

Ele ento rompeu as cordas que lhe prendiam as mos e ela, levantando os olhos, viu uma incrvel confuso na estrada.

Os cavalos estavam cados de joelhos, a calea havia perdido uma das rodas e mantinha-se em equilbrio precrio; na estrada havia dois corpos.

Pandora assustou-se, sem compreender o que havia acontecido. O conde deu todas as explicaes, enquanto acabava de desat-la:

- Coitados dos cavalos! Devem ter ficado machucados, mas achei mais seguro estender uma corda na estrada do que atirar na calea, pois voc estava em poder daqueles facnoras.

- Uma corda... na estrada? - murmurou Pandora.

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- s rvores facilitariam meu trabalho - informou ele, sorrindo de satisfao.

- E como foi que voc nos alcanou... com tamanha rapidez?

- Os cavalarios conheciam um atalho atravs do campo. Da prxima vez saberei vir sozinho...

Seus braos ainda a rodeavam e ela se apoiava nele.

- Voc me salvou! Rezei tanto para que isso acontecesse...

- As preces das santas so sempre atendidas!

Pandora tentou rir, pois sabia que era isso mesmo que ele esperava, mas sentiu-se muito prxima s lgrimas. Tudo aquilo tinha sido muito assustador. Ela, entretanto, deveria ter imaginado que Norvin, sendo um Chart, resolveria qualquer situao, por mais difcil que ela se apresentasse.

Os cavalarios amarravam Anstey e Dalton, que ainda estavam desacordados. Um deles aproximou-se do conde e perguntou:

- O que devemos fazer com eles, senhor conde?

- Deixe-os a ao lado da estrada. Mais tarde mando algum busc-los e entreg-los  polcia. Retire os cavalos da calea.

- Est bem, senhor conde.

- Ser que vocs conseguem carregar os sacos?

- Pode deixar por mossa conta, senhor conde.

Olhou para Pandora com ar de dvida e o conde declarou:

- Levarei a srta. Stratton na garupa.

O outro cavalario trouxe o cavalo do conde, que estava escondido entre as rvores. O conde tirou a casaca e colocou-a por cima da sela.

- Montarei primeiro - disse ao cavalario. - Ajude a srta. Stratton.

- Pois no, senhor conde.

Norvin acomodou-se na sela e, com auxlio do cavalario, colocou-a diante dele, segurando-a firmemente com o brao esquerdo.

- Iremos com calma, pois no h mais necessidade de nos apressarmos - informou. Pandora, no conseguindo mais se controlar, apoiou o rosto em seu ombro, de modo que ele no conseguisse perceber suas lgrimas.

- Achei que eles fossem me matar... - murmurou.

- Agora est tudo acabado,  uma aventura que contarei algum dia para meus netos ou ento para meus bisnetos!

Pandora no conseguiu deixar de rir.

- Foi culpa minha. Quando vi a janela aberta, devia ter adivinhado que Dalton estava tentando roub-lo.

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- Teria sido mais sensato de sua parte informar-me do que enfrent-los sozinha!

Caminhavam lentamente para o castelo e Pandora replicou:

- Na realidade, estava procurando os vigias noturnos, mas eles puseram Undenvood fora de combate.

- Disse a um dos criados, antes de sair, que cuidasse dele e daquele infeliz rapaz!

- Voc pensa em tudo! - comentou Pandora, cheia de admirao.

- At que no me sa muito mal para um amador! Voc, sem sombra de dvida,  capaz de criar um clima dramtico, de grande excitao. Sempre imaginei que o campo fosse um lugar montono, onde no havia nada para se fazer!

Pandora achou que ele se referia tambm ao duelo e, aps alguns instantes, perguntou, cheia de timidez:

- Voc precisa mesmo... se bater com ele?

- Sentirei um prazer enorme em faz-lo. Aquele homem  um canalha e merece castigo.

- Mas ele  perigoso. J participou de muitos duelos.

- Eu tambm, de uma maneira ou de outra, e tentarei no desonrar o nome da famlia nessas circunstncias, independentemente do que possa fazer em outras.

- No conseguiria suportar... - disse Pandora, interrompendo a frase pela metade.

- Suportar o qu?

- Que voc fosse ferido por minha culpa. Foi uma tolice de minha parte ir ao jardim... sozinha.

- Uma grande tolice, sem dvida, especialmente sabendo que aquele imbecil est interessado em voc. Mas como  que voc iria imaginar que uma coisa daquelas pudesse acontecer?

- De certo modo, foi ainda mais assustador do que pensar que eu podia ter sido... morta!

Estava falando consigo mesma, mais do que com o conde, e de repente sentiu que a presso do brao dele aumentava em torno de sua cintura.

- Nenhuma dessas experincias deveria ter acontecido com voc. Pandora percebeu subitamente o quanto estava prxima dele. Norvin usava apenas uma camisa branca de linho e ela conseguia sentir o calor daquele corpo e a fora do brao que a segurava.

Tinha uma conscincia aguda e plena de sua masculinidade. Nunca estivera to prxima de um homem e jamais experimentara uma sensao to intensa de segurana.

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Prosseguiram em silncio at que o conde comentou, um tanto inesperadamente:

- Seus cabelos cheiram a violeta.

- Lavo-os com uma loo que mame costumava preparar na primavera. No jardim da casa paroquial h um canteiro cheio delas.

Enquanto falava, pensava no perfume forte e extico que Kitty usava e ficou sem saber se era o que o conde preferia.

Ele no acrescentou mais nada e ento Pandora percebeu que haviam deixado a estrada e atravessavam os campos que delimitavam com o parque.

- J estamos perto de casa e o ouro e a prata esto salvos - comentou Pandora. - Se, ao despertar de manh, tivesse descoberto que no se encontravam mais no castelo, choraria at secarem minhas lgrimas.

O conde no disse nada e, aps um momento, Pandora indagou, hesitante:

- Voc... teria... se importado? Ele sorriu ligeiramente e declarou:

- Sei o que voc quer que eu diga. Normalmente, eu no permitiria que voc me encostasse contra a parede. Voc, no entanto, passou por uma experincia terrvel. Quero, portanto, mim-la e declaro: sim, eu me importaria muito!

Pandora suspirou.

- Era o que eu imaginava - comentou. - Apenas quero que voc ame Chart.

Nesse momento, avistaram o castelo, no fundo do vale que se estendia diante deles.

Estava mais belo do que nunca,  luz do luar, que parecia transformar o grande edifcio em prata. Pandora no conseguiu deixar de comentar, entusiasmada:

- Tudo isto  seu... inteiramente seu!

Sentiu que o brao de Norvin ficava mais tenso, como se se tratasse de uma reao instintiva que ele no conseguia dominar. Teve a sensao de que estava ainda mais junto dele e um sentimento estranho e indizvel tornou a apoderar-se dela.

Era algo que ela nunca tinha experimentado jamaes e, no entanto, tratava-se de um momento to carregado de xtase, to belo, que se assemelhava ao prprio claro da lua.

O conde esporeou o cavalo e eles se aproximaram rapidamente de Chart Hall.

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Ao entrar no quarto, Pandora sentiu como se tivesse vivido um sonho estranho e demorado.

Parecia-lhe quase impossvel ter vivido tantas coisas aps aqueles breves momentos em que havia abandonado a cama e ido at a janela olhar o luar.

O conde props-lhe tomar um drinque quando voltaram, mas ela no aceitou.

- Pois ento v dormir - disse ele. - Deve estar cansada, depois de tudo o que aconteceu.

- Voc tambm deve ir dormir.

- O sono no me faz falta.

Parados no hall, ele no parecia estar pensando no que dizer, mas a fitava com uma expresso estranha no olhar.

O velho Burrows tinha deixado a porta aberta e esperava por eles. Fora despertado pelo cavalario, que tinha ido desamarrar o criado.

- Senhor conde, h bebidas e o que comer l na saleta - disse Burrows, com aquele seu jeito calmo e discreto.

- Muito obrigado. O vigia noturno est bem?

- Eles o deixaram inconsciente, senhor conde, mas, a no ser uma dor de cabea, no h nenhum osso quebrado.

- Que alvio! - exclamou o conde.

Pandora j subira alguns degraus da grande escadaria, mas apoiou-se no corrimo, a fim de ouvir a resposta de Burrows.

O conde caminhou at o p da escadaria e olhou para ela.

- Sou-lhe profundamente grato - disse. - Se voc no tivesse interferido e colocado sua vida em perigo, eles teriam se apropriado no somente do ouro e da prata, mas tambm de vrios outros objetos.

- J que voc est me agradecendo, tenho tambm de mostrar-me reconhecida, pois foi voc quem me salvou.

- Pois ento me limitarei a dizer-lhe que v para a cama e esquea o assunto - disse o conde, sorrindo. - Lembre-se,  pouco provvel que uma coisa dessas acontea uma segunda vez.

- Espero que tenha razo.

Nesse momento, lembrou-se do duelo, que ainda estava por acontecer.

- Prometa-me que tomar muito cuidado!

Viu no seu olhar que ele compreendia o alcance de seu pedido e replicou, cheio de cinismo:

- Tanta gente ficar contente, se sir Gilbert acabar comigo...

- No fale assim, isto s pode lhe trazer azar!

- Ela lhe disse: no tenho medo dele

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- No se deve subestimar o inimigo... nunca!

- , voc tem razo. E j que me pediu... saberei me cuidar.

- Sim... por favor, por favor!

Ficaram perdidos na contemplao um do outro e por um momento parecia que a vida estava em suspenso.

E ento, porque se sentia intimidada, porque tinha uma sbita conscincia de que usava apenas uma camisola e que seus cabelos caam-lhe pelo ombro, Pandora deu-lhe as costas e subiu correndo a escada.

Pandora, para sua grande surpresa, adormeceu, mal sua cabea tocou o travesseiro.

Achava que seria incapaz de dormir, no s devido s coisas terrveis que acabavam de acontecer, como tambm porque seu corpo estava todo dolorido, por causa do desconforto a que fora submetida na calea.

Em um determinado momento, voltou-se e acordou assustada, sentindo uma dor no brao, aguda e persistente.

A sra. Meadowfield deve ter algum linimento e cuidar de mim, pensou.

Movimentou as pernas e verificou que elas tambm estavam doloridas.

Percebeu subitamente que estivera dormindo, que o dia havia nascido e que o conde, naquele momento, se batia em duelo. Sentou-se na cama e constatou que a luz invadia seu quarto.

J est nascendo o sol!, pensou.

Levantou-se, sentindo dores em todo o corpo, e afastou uma das cortinas. Os primeiros raios de sol douravam o horizonte. O cu estava avermelhado e as estrelas feneciam.

Devem ser umas cinco horas da manh, pensou, mas quando consultou o relgio em cima da lareira verificou que eram cinco e meia.

Olhou pela janela. No se via ningum.

Sabia muito bem que uma mulher jamais presenciara um duelo, mas agora tratava-se de uma situao excepcional, na qual ela estava envolvida.

No vou deixar que ningum me veja, mas tenho de espiar o que vai acontecer, pensou Pandora.

Vestiu-se rapidamente e foi at a janela esperar.

Uns dez minutos mais tarde viu o conde, acompanhado de Freddie e Richard, sair por uma porta lateral situada pouco depois da biblioteca.

Percebeu que no haviam usado a porta da frente para que o criado que estava a postos no percebesse que haviam sado do castelo.

Percorreram o ptio, para o qual dava uma das janelas do quarto de Pandora, e ela constatou a elegncia com que todos se vestiam.



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O conde, que estava no meio dos outros dois, surgia diante de seus olhos como uma figura de grande proeminncia. Achou que aquele homem seria notado onde quer que se apresentasse.

 porque ele  um Chart, pensou, tomada por uma sensao de triunfo. Sabia que ele riria dela, se soubesse o que estava pensando.

Assim que eles chegaram  ponte, Pandora viu uma pequena calea percorrendo a alameda e constatou que sir Gilbert chegava.

Sentiu-se subitamente apreensiva e angustiada e no conseguiu pensar em mais nada.

Por sua causa, estava para travar-se um duelo e agora estava possuda por uma sensao de terror, que parecia percorrer todo seu corpo, como uma descarga eltrica.

Saiu correndo do quarto, desceu para o andar trreo e usou uma porta diferente daquela pela qual o conde havia passado e que lhe permitia evitar atravessar o hall.

Percebeu que os adversrios encaminhavam-se para um gramado situado perto da ponte e que antigamente tinha sido usado para o jogo de criquete. Agora ningum mais o ocupava, mas os jardineiros cortavam automaticamente a grama, pois aquilo tinha se transformado em um hbito. Era rodeado por arbustos e apresentava-se como um lugar ideal para um duelo.

Pandora esgueirou-se por entre o arvoredo, sabendo que no seria percebida por ningum, pois conhecia muito bem o caminho.

Aproximou-se com o mximo de cautela, metendo-se por entre os arbustos, at que percebeu os padrinhos no centro do gramado. Ao lado deles estava um homem, a quem ela reconheceu como sendo sir Edward Trentham, alm de um desconhecido.

Imaginou que sir Gilbert tivesse trazido consigo um amigo para atuar como juiz.

No havia a menor dvida de que aquele era seu papel, pois, assim que Pandora aproximou-se, ouviu-o dizendo:

- Cinco... seis... sete...

Afastando um pouco a folhagem, viu que o conde caminhava para a direita e sir Gilbert para a esquerda.

- Oito... nove... dez!

Os dois homens voltaram-se e dispararam simultaneamente. Era impossvel certificar-se de qual pistola havia disparado em primeiro lugar.

Por um momento, Pandora sentiu que tudo danava diante de seus olhos e era difcil ver o que tinha acontecido

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Percebeu ento que o conde levava a mo  cabea e caa pesadamente.

Gritou e, apartando os arbustos, saiu correndo em direo a ele, com Freddie a seu lado.

O conde estava cado no cho e ela conseguia ver o sangue escorrendo-lhe pelo rosto, a partir de um ferimento na tmpora.

Pandora, aterrorizada, pensou que ele havia morrido.

- Ele foi apenas atingido de raspo - disse Freddie, mal conseguindo reprimir o alvio que sentia.

Aterrorizada diante do que via, Pandora descobriu naquele momento que amava Norvin.

Tudo estava incrivelmente emaranhado: seu amor, a sensao de terror e o alvio que experimentou diante do que Freddie dizia.

Levantou a cabea do conde, apoiando-a em seu regao. Richard aproximou-se correndo e informou:

- Ele atingiu Gilbert no brao. Acho que vamos precisar de um mdico.

- Precisamos levar Norvin para o castelo - disse Pandora.

- Sim, claro - concordou Freddie. - Vamos carreg-lo? Pandora olhou para o conde, que no abrira os olhos.

- Seria melhor se o pusssemos em uma maca.

- tima ideia - concordou Richard -, mas onde  que vamos encontrar maca por aqui?

- Ao lado daqueles arbustos h um porto e, pouco depois, um depsito. L encontraro o que precisam.

Freddie e Richard saram correndo, sem dizer mais nada, e ela tentou estancar com um leno o sangue que ainda descia pelo rosto do conde.

Sua camisa ficou toda manchada e Pandora sentiu um sbito receio de que ele estivesse mortalmente ferido.

Uma bala no brao podia ser facilmente extrada, mas um ferimento na cabea poderia ser algo muito srio. Sabia que os mdicos conheciam muito pouco ou quase nada em relao a tais tipos de leso.

Tranquilizou-se logo aps, enquanto continuava a limp-lo, dizendo a si mesma que a bala no deveria ter-se alojado na cabea do conde, mas que passara de raspo na tmpora, arranhando o couro cabeludo.

Sir Gilbert apontou de propsito para a cabea dele, pensou.

Era um atirador experiente e ser-lhe-ia impossvel deixar de atingir o brao esquerdo do conde, se assim o quisesse.

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Levantou os olhos e viu que sir Gilbert caminhava, vacilante, em direo a ela, apoiado em sir Edward Trentham.

Seu brao ferido estava envolto em um leno, que comeava a ficar empapado de sangue.

- Espero que Norvin esteja bem - comentou ele, ao aproximar-se de Pandora.

Ela o encarou, furiosa.

- O senhor tentou mat-lo! - disse, em tom acusador. -  um atirador exmio e se o atingiu na cabea  porque esta era sua inteno.

Notou, pela expresso estampada no olhar de sir Gilbert, que acabava de dizer a verdade.

- Que acusao mais ridcula... - disse, sendo interrompido por sir Edward.

- No  de seu feitio, Gilbert, proceder desta maneira.

- Pandora tem razo - exclamou Clive, que estivera prestando ateno na conversa. - Juro que, se Norvin morrer, farei tudo para que voc seja punido!

- Vocs esto todos histricos - disse sir Gilbert, de pssimo humor. - Leve-me para casa, Edward. No tenho a menor disposio para ouvir acusaes to absurdas.

- Ser que so to absurdas assim? - perguntou sir Edward, enquanto ajudava sir Gilbert a se afastar.

- Ele que v para o inferno! - exclamou Clive. - Sempre ouvi dizer que  um assassino e no me mentiam.

Ajoelhou-se ao lado do conde e perguntou:

- O ferimento no  muito grave, no  mesmo?

- Espero que no - respondeu Pandora, mas sua voz vacilava.

A cabea do conde continuava apoiada em seu colo e ela aceitou o leno de Clive, pois o seu estava empapado de sangue.

Freddie e Richard voltaram com a maca.

com muito cuidado, ajeitaram nela o conde e puseram-se a carreg-lo para o castelo.

Pandora saiu correndo na frente deles.

- Levem-no para a porta da frente - disse. - vou ver se o quarto dele j est arrumado e mandarei um criado chamar o mdico.

A porta da frente j estava aberta e duas criadas lavavam os degraus. Para seu grande alvio, encontrou a sra Meadowfield no hall.

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- O senhor conde foi ferido - disse Pandora, mal conseguindo respirar,

- O sr. Burrows tinha certeza de que algo esquisito estava para acontecer! - exclamou a sra. Meadowfield. - O que se passou com o senhor conde?

- Foi ferido na cabea, durante um duelo. Mande imediatamente um criado ir chamar o dr. Graham.

- Claro, senhorita! Ele saber muito bem que providncias tomar. Pandora sentiu um alvio imenso quando o doutor chegou, uma hora mais tarde.

No havia trocado de roupa, desde que trouxeram o conde para casa, e sua camisola de algodo estava toda manchada de sangue. No pretendia troc-la enquanto no ouvisse o que o mdico tinha a dizer.

Teve a impresso de que havia transcorrido um sculo, enquanto esperava, mas durante o tempo todo possua uma conscincia muito clara do quanto o conde significava para ela. Sequer por um momento havia imaginado que poderia sentir aquilo por ele.

Agora achava o fato inevitvel, vendo que ele era to diferente dos outros homens a quem havia conhecido.

Ele, no entanto, fazia parte de seu sangue e de tudo que lhe importava. Era natural, portanto, que se apaixonasse por ele, como teria acontecido a qualquer colegial desavisada.

Sou uma tola!, pensou ela. Ele tem Kitty e todas essas mulheres fascinantes, que lhe proporcionam a alegria e as diverses que ele realmente aprecia.  impossvel que lance os olhos sobre algum como eu.

A simples ideia de que Kitty dormia no quarto ao lado do conde magoou-a profundamente; sabia muito bem que aquele sentimento no passava de cime.

Como posso ser to absurda, to idiota?, disse para si mesma. Amanh terei de voltar para Lindchester e talvez nunca mais venha a v-lo. Quem sabe ele no haver de querer me ver...

A ideia era por demais angustiante. Disse a si mesma que seus sentimentos no tinham a menor importncia, contanto que ele se recuperasse e no se tornasse lesado devido  traio de sir Gilbert.

O dr. Graham saiu do quarto do conde e Pandora foi correndo at ele.

- O que o senhor me diz, doutor? Ele foi ferido gravemente? Ficar bom?

As perguntas escapavam-lhe dos lbios, uma aps outra, e o dr. Graham deu-lhe um tapinha afetuoso no rosto.

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- Pandora, no a estou reconhecendo... Voc foi sempre to sensata e corajosa...

- Sim, eu sei, mas  que...

- Foi muito desagradvel,  claro, mas acho que, mediante cuidados apropriados, no haver complicao alguma e logo veremos o conde andando novamente.

- O senhor est falando a srio?

- Voc sempre confiou em mim.

- E continuo confiando, doutor. Que bom que o senhor est aqui!

- O senhor conde vai precisar de muita ateno nas prximas quarenta e oito horas. Talvez fique com febre alta e possivelmente ir delirar. Precisa ser vigiado, para que nocometa alguma tolice.

- Tomarei conta dele.

- Achei que voc se disporia a tanto - disse o mdico, sorrindo.
- J vi o quanto voc  eficiente, naquela ocasio em que seu pai sofreu um acidente durante uma caada.

- O senhor precisa me dizer o que tenho a fazer.

- J dei instrues  sra. Meadowfield. Voc pode revezar-se  sua cabeceira e o criado particular do conde parece-me tambm uma pessoa muito sensata.

- O senhor acha que o ferimento poder de alguma forma afetar o crebro dele?

-  to pouco provvel que penso no haver a menor razo para preocupaes. Quem atirou em lorde Chartwood era inexperiente ou fez o que pde para cometer um homicdio.

- Tambm acho.

- Por que estes jovens arriscam suas vidas? Suponho que para eles seja um modo honroso de resolver uma contenda, mas pessoalmente acho uma pena que a humanidade tenha feito to pouco progresso e ainda recorra a procedimentos do tempo da pedra lascada...

Pandora tentou rir. J estava acostumada com os comentrios originais do mdico. Acompanhou-o at a escada e ele lhe fez as ltimas recomendaes:

- Agora v se trocar e descanse. Pode deixar tranquilamente o conde entregue aos cuidados da sra. Meadowfield durante as prximas horas. Voltarei l pelo meio-dia, mas no espero grandes melhoras em seu estado, em um prazo to curto. No se preocupe, portanto.

- Tentarei no me preocupar, doutor.

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- Tenho a impresso de estar ouvindo sua me - disse o mdico, sorrindo, e descendo as escadas.

Pandora voltou s pressas para o quarto do conde.

Entrou nele silenciosamente e verificou que a sra. Meadowfield arrumava o aposento.

O mdico havia colocado uma bandagem na cabea do conde, o qual ainda estava deitado de costas, com os olhos fechados e com a mesma aparncia de antes, s que um pouco mais plido.

Pandora ps-se a rezar para que o doutor tivesse razo e que o ferimento no fosse grave.

Eu o amo!, disse interiormente. Eu o amo e voc precisa sarar logo, pois h tantas coisas aqui que necessitam de sua ateno...

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CAPTULO VI

Pandora trocou de roupa, mas no descansou, conforme o mdico havia sugerido. Em vez disso, desceu at a sala de jantar, onde sabia que os rapazes estavam tomando o caf da manh.

Levantaram-se, assim que ela entrou, e Burrows apressou-se em lhe oferecer numerosas iguarias. Apesar de no sentir fome, comeu um pouco e esperou at que os criados tivessem sado.

- O que disse o mdico? - perguntou Freddie, ansioso, no conseguindo mais dominar sua inquietao.

- Norvin deve ser atendido com muito cuidado e precisa de repouso absoluto durante alguns dias.

Olhou diretamente para Freddie, enquanto falava, e ele intuiu imediatamente aquilo que ela no chegou a revelar.

- Partiremos antes do almoo.

- Voc est querendo dizer que iremos embora assim que conseguirmos tirar as mulheres da cama e fazer nossas bagagens... - comentou Richard.

O olhar de Freddie cruzou novamente com o de Pandora e ele indagou, voltando-se para Richard:

- Quem vai acompanhar Kitty?

- Por qu? Ela tambm vai?

- J est na hora de ela voltar a Londres para os ensaios. No h de querer perder o seu papel na pera dos Mendigos.

- Pois ento trate de persuadi-la - disse Richard, com secura.

- Ellison est voltando a encenar essa pea? - perguntou Clive.

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- Sempre faz sucesso e ningum deixar de ir ver madame Vestris desempenhando o papel do capito Macheath...

Pandora seguia o dilogo e achou muito extraordinrio que uma mulher se dispusesse a aparecer em pblico usando trajes masculinos,

Ficou a imaginar o que Prosper Witheridge diria, se soubesse que uma das atrizes, a quem ele reprovava com tamanha veemncia, aparecesse no palco de calas compridas.

Sua expresso devia evidenciar o que ela estava pensando, pois Freddie disse, sorrindo:

- Voc no  a nica pessoa a sentir-se chocada, Pandora. As mulheres no param de bisbilhotar no teatro, quando madame Vestris e Kitty entram no palco com calas compridas.

- , acho que sou mesmo antiquada...

Levantou-se da mesa e dirigiu-se para a porta, pedindo, antes de sair:

- Por favor, Freddie... voc informar  srta. King do estado de Norvin?

Notou pela sua expresso que no era uma tarefa que apreciasse especialmente, mas ele sorriu para ela e disse:

- Pois no, mas acho extraordinrio que seja eu o escolhido, toda vez que se apresenta uma tarefa incmoda!

Pandora ouviu as risadas dos outros rapazes, enquanto subia para o primeiro andar.

Foi at a porta do quarto do conde e pediu  sra. Meadowfield que viesse para o corredor, onde poderiam falar sem ter necessidade de baixar a voz.

- Os convidados iro embora assim que suas bagagens estiverem feitas.

- Que boa notcia, srta. Pandora! No queremos que ningum incomode o senhor conde, no  mesmo?

- No, claro que no - concordou Pandora. - Sra. Meadowfield, as caixas de rap precisam de uma boa limpeza, pois ningum cuidou delas em sua ausncia.

No precisou acrescentar mais nada. Percebeu, ao notar a expresso estampada no rosto da sra. Meadowfield, que ela havia compreendido com exatido o sentido de suas palavras.

A governanta afastou-se e Pandora entrou no quarto do conde.

Ainda estava na mesma posio em que ela o havia deixado, mas Pandora achou-o mais plido do que antes. Uma pequena mancha de



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sangue era visvel na bandagem que o doutor enrolara em torno de sua cabea.

Sentou-se ao lado da cama. Como era possvel que, em to pouco tempo, tivesse perdido completamente o corao em favor de um homem que, aos olhos de seu tio, o bispo de Lindchester, era a prpria encarnao da perverso e do mal?

Conseguia compreender muito bem o que ele havia sentido quando seu pai morrera, pois no recebera ajuda de nenhum membro da famlia.

Compreendia tambm o quanto seu av odiaria quem quer que fosse que tomasse o lugar de seu amado filho George,

Tentou imaginar o que o conde havia feito em Londres, a partir do momento em que herdou uma colossal fortuna. Seu dio aos Chart o havia levado  resoluo de dissip-la at o ltimo centavo.

Bastava-lhe pensar em Kitty, que ainda dormia no quarto ao lado, para saber que ele se havia voltado instintivamente para mulheres que gozavam da reputao de desfaatez e imoralidade. Mulheres, como costumava dizer sua tia, em cuja companhia nenhum homem decente pensaria em ser visto.

Ele se tinha proposto a comportar-se de modo dissoluto e o tinha conseguido. No fora porm Kitty King a causadora daquele duelo e sim ela, Pandora.

Como se bastasse pensar na atriz para despert-la, Pandora ouviu-a falando em voz alta e irada no corredor. Logo em seguida, bateram com violncia na porta.

Pandora apressou-se em abri-la e deparou com Kitty discutindo asperamente com Freddie, o qualtentava impedi-la de entrar no quarto do conde.

- No  voc quem ir me impedir de v-lo - dizia, furiosa, acrescentando, assim que viu Pandora: - E muito menos voc, sua lambisgia, sua priminha de mentira!

Pandora fechou a porta, impedindo quem quer que fosse de entrar.

Kitty usava apenas um xale rendado sobre a camisola e seu rosto ainda no tinha recebido aquelas camadas espessas de pintura com que costumava valorizar-se.

Mesmo assim, com os cabelos ruivos em desordem e os lbios com sua cor natural, parecia muito atraente.

Sua pele apresentava-se toda manchada, devida ao excesso de bebida, e as olheiras negras davam-lhe um aspecto sombrio, mas, com tudo isso, era ainda excepcionalmente bela e Pandora conseguia entender perfeitamente

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por que o conde estava enamorado dela. Dirigiu-se a ela com toda calma:

- J lhe contaram que meu primo foi ferido em um duelo? Sir Gilbert atingiu-o na cabea e o mdico disse que ele necessita de repouso absoluto.

- No acredito em voc!  um truque para me manter longe dele.

- Pois ento verifique voc mesma. Peo-lhe apenas uma coisa: se tiver qualquer sentimento por ele, no fale ou faa barulho.

Teve a impresso de que Kitty ia dizer-lhe alguma grosseria. Abriu a porta rapidamente e entrou no quarto mergulhado na penumbra. Kitty seguiu-a at a cama senhorial e imponente, na qual todos os cabeas da famlia haviam dormido, desde o reinado de Carlos II.

Kitty aproximou-se e, pela primeira vez, percebeu a necessidade de guardar silncio. Aps contemplar o conde durante alguns segundos, deu-lhe as costas e saiu do quarto.

Freddie esperava no corredor.

- Ele vai morrer? - perguntou Kitty, abruptamente.

- Esperamos que no.

- Estou achando que ele vai ficar de cama durante muito tempo.

- Sim, sempre existe essa possibilidade.

- Acho melhor voc me levar de volta para Londres.

- Seria muito sensato de sua parte. Alm do qu, j lhe disse que os ensaios esto  sua espera.

Kitty refletiu durante alguns momentos e, tomando uma deciso, voltou-se para Pandora:

- Muito bem, voc ganhou! S que no vou embora daqui sem dinheiro. S Deus  quem sabe como  que vou me arranjar at ele voltar a ficar bom.

Pandora olhou para Freddie, perplexa.

Ele levantou as sobrancelhas em um gesto expressivo, indicando que ela no se livraria de Kitty a menos que lhe desse o que ela exigia.

- E quanto ... que vai querer? - indagou Pandora.

- Tanto quanto voc puder! Pelo menos cem libras.

- Cem libras!?

Aquela quantia parecia-lhe enorme e achou que seria impossvel arranjar tanto dinheiro, mesmo com a maior boa vontade.

Lembrou-se ento que Michael Farrow, o novo administrador, poderia recorrer s finanas do castelo.

Pareceu-lhe que deveria discutir com Kitty e dizer-lhe que ela pedia demais. Sabia porm que a atriz no faria concesses.



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- vou ver se consigo o dinheiro - disse secamente. - Enquanto isso, no quer chamar uma criada para fazer sua bagagem?

- Voc est agindo como se fosse a dona disso tudo, no  mesmo?
- disse Kitty, sorrindo com desprezo. - Pois aproveite bastante, enquanto ele ainda est fraco demais para dizer o que quer. Ele voltar para mim assim que puder levantar. No tenha dvidas a esse respeito!

Foi para seu quarto e bateu a porta com violncia.

- Voc conseguir reunir cem libras? - indagou Freddie. - Fazer uma pergunta destas em um lugar como este parece uma tolice, mas ela no arredar p sem o dinheiro.

- Darei um jeito.

Voltou para o quarto do conde e tocou a campainha. Quem atendeu foi o criado particular do conde, que lhe pareceu to sensato quanto o mdico o dissera.

- Quer fazer o favor de chamar o sr. Michael Farrow? Talvez ele esteja no escritrio. Caso contrrio, mande um criado descobrir onde ele se encontra. Preciso falar-lhe imediatamente.

- Pois no, senhorita. O senhor conde est bem?

- Penso que sim. No h mais nada a fazer por ele at o mdico voltar, l pelo meio-dia.

- No est precisando de mais nada, senhorita?

- No momento no, obrigada.

O criado saiu e Pandora voltou a sentar-se na cadeira ao lado da cama.

As palavras de Kitty ecoavam em seu ouvido e, no fundo do corao, tinha certeza de que a atriz estava com a razo.

Quando o conde se recuperasse, haveria de querer ir para Londres ou traria Kitty de volta para Chart Hall.

Ela  linda, constatou Pandora, suspirando, e, a no ser quando est bbada, possui uma alegria de viver que diverte e fascina qualquer homem. Penso que jamais poderei ser assim...

Constatou mais uma vez que sabia muito pouco a respeito dos homens e que vivia na mais completa ignorncia das diverses que Londres podia proporcionar. Tinha certeza de que l o conde encontraria muito mais recursos do que em Chart...

Custou-lhe muito encarar a verdade, mas no lhe restava outra alternativa.

Houve um momento em que chegou a interess-lo nos assuntos relativos  enorme propriedade, mas, agora, parecia-lhe to distante o dia em que ele lhe perguntou se ela esperava v-lo viver permanentemente no campo...

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Contemplou o conde, ainda inconsciente, e sentiu vontade de pedir-lhe de joelhos que desse a si mesmo a oportunidade de compreender e amar Chart.

Sabia, porm, que ele se sentiria solitrio em Chart, a menos que tivesse algum a seu lado com quem pudesse compartilhar sua existncia. Tinha certeza de que esse algum seria Kitty ou uma mulher como ela.

Ouviu que batiam de leve na porta e o criado entrou.

- O sr. Farrow est l embaixo, na sala de estar, senhorita.

- Quer ficar fazendo companhia ao senhor conde? No me demoro. Quando entrou na sala de estar, deparou com Michael Farrow, em p,

ao lado da lareira. Tinha uma aparncia slida e inspirava grande confiana.

- Senti muito quando soube o que aconteceu, srta. Pandora. Como est o senhor conde?

- O dr. Graham disse que ficar bom dentro de alguns dias, mas  assustador v-lo imobilizado.

- Eu a compreendo muito bem.

- Queria v-lo por duas razes. A primeira  que preciso imediatamente de cem libras.

- Imediatamente? - perguntou Michael Farrow, sem disfarar a surpresa que sentia. - Bem, darei um jeito, mas no h tempo de ir at o banco, em Lindchester.

- Pois ento pea o dinheiro emprestado e entregue-o imediatamente  srta. King.

- Farei o que me pede, srta. Pandora.

- Meu segundo pedido  que seu pai v imediatamente para Londres e tranque a residncia.

Voltou a notar a surpresa estampada no rosto de Michael Farrow e explicou com toda franqueza:

- Como voc j deve ter percebido, as coisas podem ser roubadas ou ento desaparecerem, quando no h algum que cuide delas. O conde est doente e de qualquer maneira o vero est chegando ao fim. Assumo a responsabilidade de sugerir a seu pai que dispense os criados que no estavam a servio de meu av e tambm verifique tudo o que est faltando, antes que eles saiam.

No declarou abertamente ao administrador que achava Kitty capaz, na ausncia do conde, de apropriar-se de todo objeto valioso que despertasse sua cobia.

Tinha certeza de que Kitty tentaria apoderar-se das caixas de rap, antes de ir embora de Chart Hall.

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Michael Farrow ficou em silncio durante alguns momentos e perguntou:

- Srta. Pandora, no acha uma boa ideia meu pai levar o sr. Winslow em sua companhia, a fim de fazer uma inspeo na casa de Londres?

- O sr. Winslow?

Ento lembrou-se de que ele tinha sido o diretor da escola de Lindchester at sua aposentadoria, quando mudou-se para a aldeia. Seus pais consideravam-no um homem muito inteligente.

- Ele sempre comenta com meu pai o quanto lhe interessa a histria de Chart Hall e a coleo da famlia.

Os olhos de Pandora brilharam. Quem sabe l estava o conservador que ela tanto esperava encontrar...

Aprovou inteiramente a sugesto do administrador e, sentindo que tudo caminhava da melhor maneira possvel, voltou para o quarto do conde.

O dr. Graham regressou por volta do meio-dia e achou que no havia mudana alguma no paciente.

Pandora o acompanhava escada abaixo, quando notou que todos os convidados estavam reunidos no hall, prontos para a partida.

As caleas estavam alinhadas na porta do castelo e os criados transportavam as bagagens.

As atrizes vestiam-se como no dia em que chegaram, com suas capas vistosas de tafet e os chapus profusamente ornamentados com plumas.

Formavam um caleidoscpio multicor, que contrastava um bocado com a dignidade e o bom gosto do castelo.

Pandora parou instintivamente, ao notar quem a esperava no hall e no teria prosseguido se o mdico no continuasse a descer os degraus. Sentiu que devia acompanh-lo.

- Estvamos  sua espera para dizer-lhe adeus, Pandora - disse Freddie, afastando-se das atrizes que no paravam de falar -, mas soubemos que voc acompanhava o doutor.

- Ele est de partida.

Apresentou-lhe o dr. Graham e Freddie declarou:

- Espero que o conde se recupere logo. Tenho certeza de que, se o senhor necessitar de um parecer, no hesitar em chamar algum mdico de Londres.

- J pensei no assunto e pretendia examin-lo com a srta. Stratton.

- Ento tenho certeza de que meu amigo se encontra em muito boas mos.

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Os homens aproximaram-se para despedir-se de Pandora e o mesmo fez Caro. Somente Hettie e Kitty, que tinham ficado de lado, cochichando, olharam-na com hostilidade pouco veiada.

Sabia que Kitty imaginava que ela tivesse pretenses em relao ao conde.

- Assim que Norvin estiver em condies de ouvir, pode dizer a ele que estou  sua espera, mas, se ele no se apressar, vai acabar no me encontrando mais - disse Kitty em altos brados.

- No  uma mensagem muito encorajadora para enviar a um homem doente - protestou Hettie.

- Norvin sabe muito bem que no  o nico homem no mundo.

- Mas h poucos homens que sejam to generosos - disse Hettie em voz pretensamente baixa, mas para que Pandora pudesse ouvir.

- No tenho a menor inteno de ficar esquentando a cadeira por muito tempo,  espera dele, e trate de enfiar isto na cabea do conde.

Kitty pronunciou estas ltimas palavras com toda a fria que sentia naquele momento, e foram dirigidas claramente a Pandora.

Em seguida, sem esperar sequer uma resposta, atravessou o vestbulo como um furaco e entrou na calea, que felizmente dispunha de espao suficiente para abrigar trs pessoas.

- Vamos apostar uma corrida! - gritou Caro. - Aposto dez libras que Richard e eu chegaremos a Tyburn Mill antes de vocs.

- Aceito! - retrucou Kitty. - Mas vamos acrescentar s dez libras um jantar regado a champanhe.

- Ganharemos, com toda certeza! - disse Hettie a Clive.

- Os cavalos de Freddie so melhores do que os meus - observou Clive.

- Mas so trs pessoas na calea e Kitty tem mais bagagem do que qualquer um de ns.

- Bem, temos boas probabilidades de vencer, mas no conte com o dinheiro at ele estar em suas mos.

- Vamos indo sem perder mais tempo! - gritou Caro. Partiram a toda a pressa, no auge do entusiasmo, gritando de uma calea a outra.

Assim que a ltima calea atravessou a ponte, Pandora deu um suspiro que saa do fundo de seu corao.

Achou que o mdico tambm iria embora, mas ele caminhou para a sala de visitas, dizendo...

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- Quero lhe dar uma palavrinha. Pandora.

Seguiu-o at a sala onde tinha visto o conde pela primeira vez e sentiu, por um breve momento, que ainda conseguia v-lo refestelado na poltrona do av, inteiramente  vontade.

Como podia adivinhar que acabaria se apaixonando por ele?

- Pandora, acho melhor voc me contar o que pretende fazer. Aquela pergunta deixou-a extremamente surpreendida.

- Quero ficar aqui... e cuidar de meu primo.

- Sozinha, sem uma senhora que lhe faa companhia?

- No se pode dizer que as mulheres que acabaram de sair fossem exatamente boa companhia...

- O que ser que sua me diria, se voc ficasse sozinha nesta casa?

- Mas no me restava outra alternativa. Tio Augustus pretendia que eu desposasse seu capelo.

- Prosper Witheridge?

- O senhor o conhece?

- Ns nos encontramos uma ou duas vezes, em Lindchester.

- Ento sabe como ele . Trata-se de um homem horrvel e eu o odeio. Como poderia suportar a ideia de casar com semelhante criatura?

- E ento voc pediu a seu primo para salv-la dessa aliana...

- Sabia que, se me refugiasse aqui, Prosper Witheridge ficaria to chocado que desistiria de minha mo, e foi exatamente o que aconteceu.

- Bem, para grandes males, grandes remdios... Mas o que o bispo tem a dizer em relao a tudo isso?

- Tio Augustus s volta de Londres hoje.

O mdico no fez nenhum comentrio e ela prosseguiu:

-  provvel que ele exija que eu volte. Se isto acontecer de fato, o senhor... lhe dir... que minha presena aqui  necessria?

- Para falar com franqueza, no sei que resposta dar a esta indagao, Pandora. Conheo perfeitamente a reputao de que o senhor conde goza em Lindchester e tambm na aldeia de Chart.

- As coisas agora tendem a melhorar. O mdico sorriu.

- J me informaram como voc o persuadiu a despedir aquele desonesto do Anstey e a readmitir Farrow. Quando me contaram o que tinha ocorrido e que voc o levou a visitar os meeiros, achei que era uma atitude digna de sua me.

- Tenho certeza de que... ela estava guiando meus passos - disse Pandora, com simplicidade.

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- E voc acha mesmo que sua me gostaria que voc permanecesse aqui?

- Mas que outra alternativa me resta? Voltar para Lindchester? Mesmo que o sr. Witheridge j no me queira mais como esposa, minha tia tornar minha vida um tormento tal que nem consigo descrev-lo.

Seus olhos encheram-se de lgrimas e ela prosseguiu:

- Oh, dr, Graham, tenho sido to infeliz naquela casa, e no  somente porque perdi papai e mame. Isto foi terrvel, mas viver no meio do dio, de implicncias constantes e infundadas e saber que tudo o que fao  errado, tornou-se para mim um purgatrio pior do que tudo o que Prosper Witheridge tivesse a me oferecer.

Ela se exprimia com uma intensidade apaixonada que comoveu o mdico. O dr. Graham passou o brao em torno de seus ombros e disse:

- Gosto de voc, Pandora, desde que era uma garotinha. Senti grande orgulho em ter seu pai e sua me entre meus amigos. Acontea o que acontecer, pode contar comigo para fazer por voc o que estiver a meu alcance.

- Est falando a srio?  tanta bondade de sua parte, que nem sei como lhe agradecer.

- Claro que  difcil saber o que posso fazer, mas pensarei em algo.

- No posso voltar para o palcio... no posso!

- Esperarei e verei o que seu tio tem a dizer em relao a tudo isso. No tem outros parentes que possam cuidar de voc?

- Se existem, fizeram o possvel para me ignorar, desde que mame e papai morreram. Se pelo menos eu conseguisse trabalho, como por exemplo tomar conta de alguma senhora idosa ou cuidar de crianas pequenas...

- Era mais ou menos o que eu tinha em mente.

O mdico deu-lhe um tapinha afetuoso nas costas e disse:

- Tenho alguns pacientes  minha espera e duvido que consiga almoar, mas estarei de volta s cinco horas.

- Quem sabe at l Norvin tenha melhorado - disse Pandora, com otimismo. - Muito obrigada, dr. Graham, por tanta bondade. Sabia que o senhor compreenderia.

- Melhor do que ningum... Mas at mesmo um rato de sacristia deve concordar que um homem que est fora de si possa constituir perigo para uma jovem.

- com primo Norvin no corro perigo.

Desejava acrescentar: Infelizmente!, mas, em vez disso, acompanhou o mdico at a porta da entrada e despediu-se dele.

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Assim que ele partiu, Pandora subiu correndo a escada, sentindo-se subitamente alegre e animada, pois no havia mais inimigos na casa. Pelo menos durante algumas horas, teria o conde s para ela.

Sentou-se em uma cadeira, naquele quarto mergulhado na penumbra, e, devido ao cansao, dormiu durante alguns momentos.

Acordou com um sentimento de culpa, achando que no tinha cuidado do paciente com a dedicao necessria.

Consultou o relgio e calculou que quela hora seus tios deveriam estar chegando de Londres.

Imaginava-os sendo acolhidos por Prosper Witheridge e sabia que ele sentiria um prazer maligno em relatar-lhes o acontecido.

Tinha certeza de que ele jamais a perdoaria por ter dito que o odiava e que no sentia o menor desejo de despos-lo.

Ele se vingaria, exagerando tudo o que tinha acontecido em Chart Hall e ela estava certa de que sua descrio das atrizes no escamotearia nenhum detalhe, por mais chocante que fosse.

Tio Augustus vai levar no mnimo uma hora ouvindo todo o relato, pensou. Em seguida, h de querer trocar de roupa e comer qualquer coisa.  pouco provvel que esteja aqui antes das seis e meia ou sete horas.

Olhou para o conde e murmurou:

- Preciso de voc! Preciso de voc para lutar por mim e me proteger. Reconheceu que, no fundo, sempre estivera  espera do momento em que ele desafiaria seu tio, como ela desafiara Prosper Witheridge. Constatou, quase desesperada, que a situao era muito diferente.

Seu tio era tambm seu tutor. Quaisquer que fossem os argumentos apresentados pelo conde, sabia que o bispo tinha maiores direitos de decidir a vida dela do que um primo distante.

- Perteno  famlia Chart - disse Pandora em voz alta. - Os Strattons so completamente diferentes daquilo que sinto e sou. Papai os achava muito maantes e evitava seus parentes sempre que podia. Por que ento seria eu forada a obedec-los?

Como se a ideia tivesse provocado nela grande agitao, levantou-se e foi para perto de uma das amplas janelas.

As cortinas estavam fechadas e passou por entre elas, a fim de contemplar o jardim.

- Perteno a este lugar! - disse Pandora. - Aqui esto minhas razes!

Sentiu de repente que preferia morrer a regressar a Lindchester. Se se afogasse no lago ou saltasse pela janela, permaneceria para sempre em Chart, por mais que tentassem afast-la de l.

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Compreendeu ento que no tinha o menor desejo de morrer. Queria viver para o conde, mesmo que ele no se importasse com ela, dispensando-lhe apenas o tratamento afvel que caracterizava seu relacionamento at ento.

Ele a tinha provocado, desafiado, discutido com ela e, no entanto, todos os segundos, todos os momentos passados em sua companhia haviam sido de uma doura inexprimvel.

Talvez, se eu me oferecesse para trabalhar na sala de costura ou no jardim, ele consentiria em minha permanncia, pensou ela. No teria necessidade de me ver, a menos que quisesse, e seria maravilhoso estar prxima a ele.

Voltou para o quarto e, enquanto se aproximava da cama, tentando acostumar-se novamente com a penumbra, ocorreu-lhe que talvez conseguisse comunicar seus anseios e seu amor ao subconsciente de Norvin.

Aproximou-se da cama e ajoelhou-se a seu lado.

- Eu o amo! E quero que voc ame Chart. No peo nada para mim. contanto que possa permanecer aqui, pois perteno a este lugar. Sei que um dia Chart lhe proporcionar muita felicidade, se voc deixar que isso acontea.

Falava com tamanha intensidade que as lgrimas vieram-lhe aos olhos.

O conde no se moveu, porm, e ela pensou, desesperada, que ele no conseguia ouvi-la. O tempo corria, seu tio estava para chegar e a levaria com ele.

Sabia que, se ele insistisse em seu retorno, no lhe restava outra alternativa a no ser obedec-lo, pois seria muito duvidoso que ele ouvisse o dr. Graham, a quem desprezaria como um simplrio mdico da roa.

Se eu voltar para o palcio episcopal, pensou ela, Norvin se esquecer de mim, e, quando ele regressar a Londres, Kitty estar  sua espera.

Sentiu como se estivesse enfiando uma espada no corao.

De nada adiantava fingir. Kitty, por mais bbada e vulgar que fosse, ainda o divertiria, ainda seria o tipo de mulher a quem o conde, Freddie, Richard e Clive preferiam.

Pandora levantou-se e, nesse instante, a sra. Meadowfield voltou.

- Descansei bastante, srta. Pandora - disse baixinho. - Agora v at o jardim tomar um pouco de ar fresco. No  certo ficar trancada aqui quando o dia l fora est to bonito. Burrows preparou ch para a senhorita. Beba uma xcara antes de sair, que h de lhe fazer muito bem.

Pandora sentiu-se tocada, ao perceber que os criados pensavam nela.

Lembrou-se, porm, com um estremecimento, que sua tia, com a mania de repreend-la o tempo todo e de castig-la, obrigando-a a fazer tudo duas ou trs vezes, estava para regressar ao palcio.

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A mesa estava posta ao lado da janela e um raio de sol atravessava a sala, enquanto Pandora bebia o ch perfumado que sua me havia preferido a qualquer outro. Comeu um sanduche e achou-o delicioso. Pegou mais dois sanduches do prato e foi para o jardim.

Lembrou-se de que havia feito o mesmo na noite anterior e aquele passeio havia resultado no desafio de sir Gilbert, obrigando o conde a bater-se em um duelo de graves consequncias.

Tanta coisa aconteceu desde que vim para c, pensou Pandora, suspirando.

Atravessou o gramado aveludado e percorreu os canteiros de rosas. O relgio de sol era muito antigo e ela parou a seu lado, imaginando quantos Chart haviam feito o mesmo antes dela.

Talvez eles se sentissem to apreensivos e receosos em relao ao futuro quanto eu, pensou ela, mas, o que quer que lhes tenha acontecido, no teve tanta importncia assim, pois, aps a morte deles, Chart continuou vivendo.

Tentou convencer-se de que no importava o que viesse a lhe acontecer. Sabia, no entanto, que desejava viver, experimentar todas as emoes acessveis a um ser humano, sobretudo o amor.

Era impossvel impedir que seus pensamentos se voltassem para o conde. Evocou as sensaes que sentiu quando ele a tomou em seus braos, no momento em que montaram. Estava to junto a ele que conseguia sentir seu corao batendo.

Seus tios, com toda certeza, achariam ultrajante que ela fosse salva usando apenas um leve penhoar sobre a camisola de dormir... Ficariam escandalizados se soubessem o quanto estivera prxima do conde, a ponto de conseguir esconder o rosto em seu ombro...

No houvera nada de mal naquilo. Fora uma atitude to natural, to despida de malcia... Por melhor que fosse, Prosper Witheridge jamais conseguiria entender aquele gesto, e muito menos sua tia Sophie e seu tio Augustus.

O conde portara-se como um verdadeiro cavalheiro, salvando-a da desonra. No entanto, aqueles que lhe queriam mal estavam to convencidos de que tudo o que ele fazia era errado, que no conseguiam imagin-lo praticando uma boa ao.

Pensava naquele momento em que ele surgira em seu quarto, livrando-a da presena odiosa de sir Gilbert. Pela primeira vez imaginou que o mundo acharia muito repreensvel que ele, o perverso conde, entrasse em seu quarto e que ela no lhe ordenasse sair.

Mas  que, naquele momento... no pensava nele como um homem pensou Pandora.

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Agora, porm, tudo havia mudado e aquele era o homem a quem ela amava.

Tudo est na mente, pensou ela, tocando o relgio de sol.

Ocorreu-lhe um verso de Milton e constatou que tinha muita vontade de recit-lo para o conde:

A mente repousa em seu prprio lugar, E pode fazer do cu um inferno E do inferno o cu.

-  s a mente que conta - disse Pandora em voz alta -, nem sempre ela se debrua sobre as aes de quem pensa.

Somente o conde seria capaz de entender seu raciocnio.

Um paraso infernal, um inferno paradisaco... pensou ela.  isto que eu quero que ele encontre em Chart: um cu, que ele um dia imaginou ser um inferno, quando odiava tudo aquilo que este lugar representa. Eu o farei compreender... eu o farei se dar conta de como ele pode transformar o passado em um novo futuro...

Morria de vontade de rev-lo e voltou correndo para o castelo.

Quando estava no grande hall de entrada, preparando-se para ir ao primeiro andar, olhou para fora e sentiu-se como se tivesse se transformado em uma esttua de pedra.

A porta da frente estava aberta e, atravs dela, viu uma carruagem que lhe era familiar.

Estava  espera de seu tio, mas, agora que ele chegara, sentiu medo e desespero. Sentia-se como uma criana que tivesse sido surpreendida fazendo uma travessura inqualificvel e sabia que no havia como escapar  punio. Ficou  espera, intuindo que devia estar, naquele momento, muito plida.

Ento, para sua grande surpresa, em vez da figura esqulida e alta de seu tio subindo os degraus, viu Burrows voltando da carruagem, com algo na mo.

Pegou uma salva de prata e aproximou-se de Pandora.

- Uma carta para a senhorita.

Durante alguns instantes, Pandora sentiu uma grande vontade de mover-se. Fazendo um grande esforo, tirou a carta da salva e foi para o salo.

Era um alvio to grande no ver seu tio, saber que ele no tinha vindo em pessoa, conforme havia prometido... No conseguia pensar em quase mais nada.

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Olhava fixamente para a carta, reconhecendo a letra inconfundvel com a qual ele traara seu nome e pensando que tinha sido salva na ltima hora.
Abriu o envelope. As letras danavam diante de seus olhos, mas ela se dominou e leu.

Minha querida sobrinha:

Sua tia e eu voltamos de Londres e soubemos, atravs do sr.. Prosper Witheridge, de seu comportamento escandaloso e imperdovel, logo que demos as costas...

Mal posso acreditar que uma jovem decentemente educada pudesse agir de modo to pouco convencional e decepcionante e que est a merecer justa retribuio.

Sua tia e eu discutimos seu comportamento, que nos deixou profundamente desolados. Decidimos, muito a contragosto, que, nas presentes circunstncias, no poderemos convid-la para voltar a viver conosco no palcio.

Meu capelo me informou que seu comportamento j est sendo comentado em Lindchester. Dar cobertura a semelhante atitude envolveria a mim e a sua tia em uma situao extremamente desagradvel.

Resta-me, portanto, esperar que seus parentes Chart estejam preparados para oferecer-lhe um lar e cuidar de seu bem-estar, a exemplo do que tentamos fazer.

 com um sentimento de desnimo e uma sensao de ter falhado, pessoalmente que a abandono  sua conscincia e  piedade de Deus.

Pandora leu a carta de olhos arregalados. Ento, como se mal pudesse acreditar na informao que acabava de receber, voltou a l-la.
Estava livre! Seu tio desistia do poder que tinha sobre ela e abandonava-a a seu destino! Era o que ela sempre havia desejado, mas sentiu-se um tanto temerosa, agora que a coisa tinha acontecido..

Agora estava s, completamente s, de uma maneira como nunca tinha sucedido em toda a sua vida.

Viu ento que havia algo mais includo na carta. Era um pedao de papel e, examinando-o mais detidamente, notou que se tratava de um cheque. Olhou-o surpreendida e verificou que era de quarenta e duas libras. tudo o que restara da herana de seus pais.

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Percebeu que o bispo havia deduzido todas as despesas com o enterro de seus pais e tambm uma determinada quantia relativa  sua manuteno, a partir do momento em que fora morar no palcio episcopal.

Pelo menos no estava inteiramente desamparada!

Segurando a carta e o cheque, saiu do salo e subiu lentamente a grande escadaria.

A sra. Meadowfield disps-se a deixar o conde, assim que Pandora apareceu. Foi at o corredor e disse:

- A senhorita talvez gostasse de ficar sabendo que aquelas senhoras que se hospedaram aqui fizeram as criadas colocar em suas bagagens vrios objetos que no lhes pertenciam.

- Isto no me surpreende nem um pouco, sra. Meadowfield.

- Agiram como um bando de aves de rapina, senhorita. Fronhas rendadas, toalhas de rosto, de linho fino, enfeites que se encontravam sobre as penteadeiras, tudo isso teria sido levado embora, se elas tivessem alcanado seus objetivos. E aquela tal de srta. King chegou ao cmulo de colocar na bolsa trs miniaturas antigas, do quarto da condessa.

- Ela no obteve permisso de lev-las, sra. Meadowfield? - perguntou Pandora, assustada.

- No, senhorita. Felizmente deixou a bolsa no quarto, quando foi avistar-se com outra senhora, e eu coloquei as miniaturas nos seus respectivos lugares.

- Oh, muito obrigada, muito obrigada! Acho que a senhora entendeu perfeitamente, quando me referi s caixas de rap.

- A srta. King perguntou-me onde se encontravam e eu informei que tinham ido todas para o conserto. Ela ficou de mos atadas...

- Pois ...

O conde talvez achasse que ela estava se intrometendo excessivamente, mas sentia-se contente por ter salvo os tesouros de Chart Hall.

Tinha igualmente certeza de que o sr. Farrow, quando chegasse a Londres, impediria que ocorressem roubos na residncia da cidade.

Essas mulheres so to pouco escrupulosas e desonestas quanto Dalton e o sr. Anstey!, disse a si mesma, enquanto ia para o quarto do conde.

Pandora gostaria de comunicar ao primo o que havia acontecido, mas sabia que seria mais sensato no dizer nada.

Ele talvez se ressentisse com sua intromisso e, caso lhe fosse conveniente, no hesitaria em dizer que desejava dar a Kitty e s outras mulheres tudo o que elas quisessem.

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Ainda conseguia ouvi-lo dizer que no deixaria a seus sucessores nada, alm de paredes nuas.

Pareceu-lhe que, se ele se mostrava to disposto a livrar-se de tudo aquilo que Chart Hall continha, com maior razo se disporia a livrarse dela.

Chegou a pensar, durante certo tempo, que seu dio pela famlia tinha se dissipado, em virtude do que ela lhe contara a respeito de sua me, sempre disposta a ajudar todo mundo. No conseguia entretanto ter certeza de nada e muito menos do que ele sentia em relao a ela.

Mais uma vez voltou a ajoelhar-se a seu lado.

Norvin estava to imvel e silencioso que sentiu subitamente um grande medo de que o primo tivesse morrido sem que ela percebesse.

Assustada, enfiou a mo por debaixo da camisa, para sentir seu corao.

Constatou que ele palpitava; sentindo-o pulsar de encontro  palma de sua mo, foi percorrida por uma emoo intensa, que se apoderou de todo o seu ser e era mais forte do que tudo que tinha acontecido antes.

- Eu o amo... e perteno a voc! Perteno a voc, quer queira ou no... e nunca mais amarei outra pessoa! Voc preenche minha vida, agora e para sempre...

Era quase como se ela estivesse fazendo um voto e, enquanto suas palavras morriam no silncio do quarto, Pandora tinha plena convico de que elas exprimiam a verdade.

Ela havia se abandonado completamente a Norvin e nada do que ele pudesse dizer ou fazer conseguiria modificar esse fato.

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CAPTULO VII

- Obrigado, Farrow, ns nos veremos amanh. Espero que at l j tenha levantado.

- Eu tambm espero, senhor conde.

Pegou os papis que tinham acabado de examinar, fez uma reverncia e saiu.

Assim que Farrow fechou a porta, o conde olhou para um dos cantos do quarto e estalou os dedos.

No mesmo instante, uma criaturinha pequena, esperta e gil pulou na cama e comeou a lamber suas mos. O conde acariciou as orelhas macias da cadela.

- Voc vai levar um grande pito por estar deitada na colcha de cetim...

A voz do conde pareceu alegrar ainda mais a cadela e ela mais uma vez lambeu sua mo.

Fora a primeira coisa que acontecera ao conde, depois que ele voltou a si e ficou sabendo que estivera delirando durante trs dias. Ficou a imaginar quem estaria beijando-lhe a mo; viu em seguida os olhos castanhos de um cocker-spaniel branco e preto.

- O nome dela  Juno - disse uma voz tranquila, e ele viu Pandora aproximar-se.

- Mas quem disse que eu queria um co? - perguntou o conde, intuindo que conhecia a resposta quela pergunta. Era mais um liame que o ligava a Chart.

Pandora no dissera nada. Ficou a contempl-lo e ele constatou que em seu olhar havia a mesma expresso do olhar de Juno.

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Pandora sabia que sua escolha tinha sido apropriada, no momento em que levou Juno ao quarto do doente.

O animalzinho parecia entender exatamente o que se esperava dele. Sentou-se no cho, ao lado da cama, como se soubesse que deveria esperar seu dono acordar.

O conde, naqueles ltimos dias, achou impossvel resistir s solicitaes de Juno e, apesar de todas as advertncias de Pandora, a cadelinha sempre pulava para a cama, quando no havia ningum no quarto.

Subitamente, Juno prestou ateno e, saltando rapidamente para o cho, voltou para o cantinho onde estava. Logo em seguida, algum abriu a porta.

Pandora entrou, carregando um vaso repleto de lrios.

- Estava esperando Michael Farrow sair, a fim de lhe trazer estas flores. So to lindas...

- E to pouco apropriadas para um grande pecador como eu... disse o conde, em tom de zombaria. - Voc devia t-las em seu quarto. Pandora. Sempre me disseram que os lrios so o smbolo da pureza.

Desde que ele havia melhorado, provocava Pandora e eles se disputavam atravs das palavras, como tinha acontecido antes.

- Farrow me contou o quanto voc esteve atarefada, desde que fiquei de cama - disse o conde, enquanto Pandora colocava o vaso em cima de uma mesinha.

A jovem sentiu-se um tanto tensa. No lhe contara nada do que tinha feito aps o duelo, pois no desejava incomod-lo sob nenhum pretexto.

No entanto, se fosse honesta consigo mesma, tinha de admitir sentir receios de que ele fosse pensar que ela estava se intrometendo em coisas que no lhe diziam respeito.

- Voc mandou o velho Farrow fechar a casa de Londres? - disse o conde, e ela achou que havia um tom de acusao em sua voz.

-  que o vero est chegando ao fim... e achei que seria desnecessrio voc empregar tantos criados... quando  pouco provvel que voc v para l... antes do inverno.

- Os teatros de Londres ainda esto funcionando.

O conde disse tais palavras de propsito e observou a reao de Pandora.

Viu que ela corava, mas a jovem deu-lhe as costas e aproximou-se da janela.

- Ser muito fcil... tornar a abrir a casa.

- Farrow contou-me que voc conseguiu que um certo Winstow

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fizesse um inventrio da casa. Assinalou todas as peas que esto faltando. Acho que voc gostaria de examinar o relatrio.

- Isto no me diz respeito - balbuciou Pandora.

- No? Pois achei que voc se interessaria.

Ela no disse nada e, aps um momento, ele prosseguiu:

- Farrow tambm me contou como foi difcil levantar o dinheiro que Kitty exigiu antes de partir. Teve at mesmo de pedir dez libras emprestadas ao vigrio. Mais uma vez a igreja socorre um pecador acrescentou, rindo.,

- Por favor, no fale assim. Voc talvez ache que eu tenha agido mal... mas, caso contrrio, ela teria se recusado a partir e era muito importante... que voc no fosse perturbado.

- E ela exercia sobre mim uma influncia nociva, segundo voc. Mais uma vez o conde se exprimia com ironia.

- Sinto muito se o que fiz no foi correto - murmurou Pandora.
- Sei que no devia me intrometer... mas achei que estava agindo... da maneira mais apropriada.

- Do seu ponto de vista ou do meu? - indagou o conde.

- Do seu ponto de vista,  claro. No tinha nada a ver comigo.

- Chart no tinha nada a ver com voc? Minha santa Pandora, o que voc acaba de dizer tem um cheirinho de mentira...

- Eu amo Chart... voc sabe disso muito bem! Mas isto aqui lhe pertence,  sua casa, sua propriedade, seu reino...

- De novo voc est citando o poeta Milton! Pois ento deixe-me tambm fazer uma citao: sou como aquele que, ao procurar coisas menores, acabou encontrando um reinado.

-  verdade?

Ela se exprimia com uma intensidade tal que chegou a ficar surpreendida. O conde estendeu-lhe a mo.

- Venha c, Pandora. Quero conversar com voc.

Nervosa, com certa relutncia, ela se aproximou lentamente, dizendo:

- Se estiver se sentindo bem, tambm quero conversar com voc.

- Estou me sentindo muito bem e vamos conversar imediatamente. Como temos muito a nos dizer um ao outro, vou fazer o papel do cavalheiro e conceder a uma senhora o direito de falar em primeiro lugar.

Pandora sentu-se em uma cadeira ao lado da cama. No olhou diretamente para ele e baixou os olhos, fixando seus dedos cruzados sobre o colo.

O conde no tirava os olhos dela e, aps alguns segundos, declarou:

- Estou esperando e sinto uma curiosidade enorme em ouvir o que voc tem a me dizer.

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- Voc talvez tenha ficado intrigado em saber... porque tio Augustus permitiu que eu permanecesse aqui, depois que ele voltou de Londres.

- Sim, isto me ocorreu, mas como voc estava tomando conta de mim com tamanha eficincia, achei que jamais passaria pela cabea dele que eu constituiria uma ameaa para sua juventude e sua inocncia, visto o estado em que me encontrava...

- Tio Augustos no me procurou pessoalmente. Esperava que ele o fizesse, mas, em vez disso, mandou-me uma carta. Disse que eu havia provocado tamanho escndalo em Lindchester pelo fato de vir para c... que minha tia j no podia mais... receber-me em seu lar.

O conde franziu o cenho e declarou:

- Mas voc j devia esperar por isso, a partir do momento em que se refugiou aqui, para escapar aos avanos daquele fogoso capelo... O que foi mesmo que voc me disse, quando pensava em achar uma soluo para seu problema? Algo relativo ao fato de que eu s recebia mulheres de vida airada e atrizes, com as quais nenhum homem decente deveria se associar...

Pandora fez meno de protestar, mas no interrompeu o conde, que prosseguiu:

- Voc mesma escolheu fazer sua descida aos infernos... No pode culpar o bispo, se ele sente que, ao agir assim, sua reputao tornou-se ligeiramente manchada.

- No estou me queixando, mas... tenho de fazer planos para o futuro.  por isso que queria lhe perguntar... algo.

- De que se trata?

- Estava pensando... ser que voc me deixaria... ficar aqui? Claro que no como uma hspede, como algum que vai lhe acarretar inconvenientes. Voc nunca me veria e eu poderia trabalhar na sala de costuras, ajudando a sra. Meadowfield a cuidar da roupa de cama e mesa. H tantas coisas que eu poderia fazer e voc nem sequer saberia que eu me encontro aqui...

- E voc acha que isto a tornaria feliz?

- Permanecer em Chart Hall  como estar no cu! Dou-lhe minha palavra de honra que no farei nada que possa irrit-lo e nem imporei minha presena. Simplesmente morarei aqui e algumas vezes poderei ver...

Interrompeu a frase pela metade. Estava to entusiasmada com o que dizia que lhe custou perceber o quanto se comprometeria, se terminasse aquela frase. Devia imaginar, entretanto, que aquela pausa no escaparia ao conde.

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- Ver o qu? Ou a quem?

- Os moradores da aldeia... de quem gosto tanto...

- Claro. E voc desistiria de me repreender se eu trouxesse para c aqueles meus amigos dissolutos de Londres, que quebrariam, roubariam ou se apropriariam de coisas que voc considera sagradas por estarem na famlia h tantos anos?

- Eu me importaria, sim... claro que me importaria... mas voc no perceberia meus sentimentos.

- S porque voc no os expressaria? Ento voc acha que eu no sentiria sua condenao vibrando atravs do castelo, enfrentando-me como se fosse a voz de minha conscincia, desafiando-me l nas profundezas de minha devassido?

- Tentaria no faz-lo... sentir-se assim...

- Pois imaginemos que eu lhe diga que, por mais que voc tentasse, eu teria plena conscincia de seus pensamentos e sentimentos, bem como de sua infelicidade.

- O que voc est tentando dizer  que voc no me quer aqui.

- No disse isso.

- Mas esta  sua inteno... e eu compreendo.

Ela deu um suspiro e ele percebeu que seus dedos tremiam, mas havia em sua voz um tom de desafio, enquanto ela prosseguia:

- O dr. Graham disse que tentaria conseguir para mim algum tipo de emprego... mas seria melhor se eu fosse embora de Chart de uma vez para sempre.

- Acho que seria muito egosmo de sua parte.

- Egosmo?

- Quem vai me ensinar a histria da famlia, se voc no estiver aqui? Quem vai me contar como se comportava o ltimo conde, o conde antes dele e os outros que o antecederam?

- No compreendo o que est dizendo. Voc no me quer aqui... e no entanto voc diz que...

.. - No disse que no a quero. Disse que, por mais que voc se esconda, uma vez que voc esteja no castelo sentirei sua presena.

Pandora esboou um gesto de desamparo e encarou-o, sentindo-se perdida.

- Ento diga-me... o que devo fazer.

Norvin fitou-a e foi impossvel para ambos desviar o olhar.

Ento, aps uma longa pausa, quando parecia para ela que no havia mais nada neste mundo, a no ser a expresso no olhar do conde, a jovem voltou a dizer, em um murmrio quase inaudvel:

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- Eu... no compreendo.

O conde estendeu a mo e ela, como se estivesse hipnotizada, fez o mesmo gesto.

Ele a puxou com muita firmeza para seu lado e ela no percebeu muito bem o que tinha acontecido, mas, de repente, viu-se sentada a seu lado, na cama, e com o rosto quase colado ao dele.

- O que estou tentando dizer, Pandora,  que, se eu tenho de permanecer em Chart, e alis, voc tem insistido para que eu o faa, ento voc precisa ficar aqui, em minha companhia.

Ele percebeu uma sbita expresso de esperana em seu olhar e prosseguiu:

- Mas nada de ficar na sala de costura ou escondida em algum recanto obscuro do castelo. Quero voc aqui comigo.

Sentiu que os dedos de Pandora faziam uma leve presso sobre os seus e que ela se apegava a ele, receosa de que o que acabava de ouvir no fosse verdade ou que tivesse interpretado mal sua significao.

- Se vamos viver juntos aqui, o povo de Lindchester com toda certeza ter motivos de sobra para fazer fuxicos, a menos que voc se esforce para conferir um ar de respeitabilidade a Chart Hall.

- E como seria possvel?

- Ser que vou ter de soletrar letra por letra? Bem, acho que toda mulher deve passar por esse drama, que  um pedido de casamento...

Notou a expresso de surpresa e susto no rosto de Pandora e disse com muita suavidade:
- Quer casar comigo, meu anjo? Ser uma unio muito desigual: a do pecador com a santa, mas quem sabe poderemos chegar a um meio-termo...

Ele fazia o possvel para se mostrar irnico e divertido, mas havia em seu olhar uma expresso tal que Pandora quase perdeu o flego.

- Voc... voc est falando a srio?

O conde passou o brao em torno dela e puxou-a para si.

- Nunca falei to a srio em toda a minha vida. - Seus lbios se encontraram e foi um instante de deslumbramento.

Por um momento, Pandora mal podia entender ou acreditar no que estava acontecendo.

Ento compreendeu que era tudo o que ela queria, tudo o que sempre havia desejado, apesar de achar aquilo impossvel e completamente fora de seu alcance.

Seus lbios eram tenros, suaves e inocentes e o conde, movido pelo instinto, provocou seu desejo e beijou-a ternamente, at sentir que ela reagia e que seu corpo palpitava de encontro ao dele.

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Para Pandora, a maravilha que eram aqueles lbios evocava intensamente a sensao que ela havia experimentado, quando sentiu o corao de Norvin bater de encontro  palma de sua mo.

Seu abrao aumentou de intensidade e ela sentiu que aqueles lbios lhe transmitiam toda a beleza de Chart, reforando o amor que ela sentia pelo castelo e pelas coisas que tanto lhe importavam, pois ela fazia parte delas.

Todo o seu corpo reagiu  proximidade do corpo de Norvin e ela estremeceu de prazer.

Finalmente, quando o conde levantou a cabea e encarou-a, Pandora sentiu que ele a levava para o paraso e que era impossvel regressar  terra.

- Eu o amo! - murmurou. Dissera aquelas palavras dezenas de vezes, mas jamais imaginou que conseguiria dirigi-las diretamente a Norvin.

- O que foi que voc fez comigo, meu amor? - perguntou o conde, e ela percebeu que ele estava muito emocionado. - Eu deveria ter previsto que isto acabaria acontecendo, quando a vi pela primeira vez na saleta, assustada e linda naquele seu vestido to singelo...

- Voc... me ama de verdade? - perguntou Pandora.

- Tentei odi-la por voc ser uma Chart, membro da famlia a quem eu amaldioava. Queria que voc se sentisse chocada e ultrajada por meus amigos e pelo comportamento deles. Em vez disso, tornei-me incapaz de ver qualquer coisa que no fosse seu rosto e seus olhos. Eles me assombraram, me cativaram e estou plenamente convencido de que ser assim para o resto da vida.

- No  verdade... no pode ser verdade que voc... goste realmente de mim...

No conseguia mais se controlar e as lgrimas comearam a correr por seu rosto.

O conde enxugou-as com seus beijos e seus lbios voltaram a encontrar-se. Foi um encontro exigente, apaixonado, como se ele quisesse possuir cada parcela de seu ser.

- Eu a amo! - disse ele. - Eu a amo to apaixonadamente que, a exemplo de voc, no posso acreditar que isto esteja acontecendo de verdade. Acho que voc vai dizer que  um feitio abenoado que o cu lanou sobre ns.

- Talvez isto se deva a esta casa... s pessoas que nela viveram... ou ento talvez se trate apenas de ns mesmos... mas quando me apaixonei por voc, jamais imaginei que voc me amaria, Norvin!

- E agora voc sabe que isto  verdade?

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Pandora escondeu o rosto em seu ombro, pois sabia que era impossvel responder-lhe, impossvel explicar os impulsos selvagens que percorriam todo o seu corpo ou contar-lhe que seu corao entoava naquele momento uma cano, acompanhada por um coro celestial que vinha do paraso.

O conde beijou seus cabelos.

- Voc exalava um perfume de violetas quando a transportei em meu cavalo, depois que aqueles celerados a raptaram. Sabia que desejava um dia sentir aquela fragrncia em minha casa e ela j morava em meu corao.

- Oh, Norvin! - murmurou Pandora, pensando no perfume forte que Kitty e as outras atrizes usavam.

Ele declarou, como se tivesse adivinhado seu pensamento:

- Esquea aquelas criaturas. Elas tiveram um propsito, pois nos aproximaram. O destino percorre caminhos bem misteriosos!

- Se isto for verdade, eu me sentirei grata, profundamente grata por elas terem me trazido at voc, mas... Norvin?

- O que foi?

- Elas so to bonitas, divertidas... e receio que voc me ache sem graa.

No teve coragem de encar-lo, enquanto falava, e o conde sorriu, como se estivesse contemplando o passado e concluindo que era um captulo encerrado em sua vida.

- Talvez voc no disponha das luzes da ribalta para realar seus encantos, meu amor; talvez voc no use calas compridas e beba champanhe at alta madrugada. Tenho porm a sensao de que todo o romance que Chart lhe proporciona ser muito mais divertido do que qualquer pea de teatro. Prometo-lhe que nenhuma primeira atriz poderia ser mais bela ou excitante do que voc.

Ela o encarou com uma expresso de adorao e mais uma vez seus lbios se encontraram.

Ele a beijou com insistncia, at que ela sentiu uma chama interior, que reagia ao fogo que o possua. Conseguia sentir as batidas loucas de seu corao, de encontro a seus seios.

Teve de exercer um grande esforo para repeli-lo e se levantou.

- Voc est doente - disse Pandora, com um tremor na voz e mal conseguindo respirar. - No deve fazer nenhum esforo... ou excitar-se demais...

- Mas estou superexcitado...

- Ento... eu o excito?

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- Sim, a ponto de me deixar louco. Quero que voc venha para a cama comigo a fim de que eu demonstre o quanto a amo.

Ele se exprimia com paixo e notou que um intenso rubor invadia o rosto de Pandora.

Meu amorzinho, minha menina adorada, minha santinha inocente,

no devo choc-la!

Fez meno de tom-la novamente nos braos, mas ela o evitou, ficando fora de seu alcance, mas fitando-o com uma expresso de adorao no olhar.

Ao contemplar seu rosto afogueado, os lbios rubros e midos e os cabelos em desalinho, Norvin percebeu que jamais imaginara que uma mulher pudesse ser to bela e to tentadora.

Estendeu os braos para ela.

- Venha c! Eu a desejo!

- Voc precisa ser sensato... e cuidar de si mesmo.

Sentiu-se atrada por ele, a despeito de si mesma, e, aproximando-se, ajoelhou-se a seu lado.

-  verdade... que voc me quer para sua esposa? Sempre alimentei esse desejo... e mame teria ficado feliz ao saber que eu permaneceria para sempre nesta casa, que foi o seu lar! Mas tudo est sendo por demais maravilhoso.  impossvel deixar de pensar que no se trata de um sonho e que no irei despertar dentro em breve...

- Mas  verdade, meu amor, s que voc ter de me ajudar. Introduzi a mais completa confuso nesta casa e tenho perfeita conscincia deste fato. Preciso de voc! S Deus sabe o quanto preciso de voc!

Pandora encostou o rosto em sua mo e ele prosseguiu:

- Imagino que estas sejam as palavras que um homem diz a uma mulher quando ele deseja seu corpo e seu amor, mas eu quero muito mais de voc.

Pandora levantou o rosto e o encarou. Seus olhos resplandeciam.

- Vivi com um mau destino durante tanto tempo - prosseguiu o conde - que por fim fiquei impregnado dele. Meu fado coloriu tudo o que fiz, disse e pensei. Quando afirmo que sou um pecador, no exagero, Pandora. Fiz coisas das quais me envergonho. Espero que voc nunca tome conhecimento delas, mas no posso desfaz-las ou apag-las completamente de minha conscincia ou daquilo que voc denominaria minha alma.

- Voc est perdoado... - disse Pandora com ternura.

- Voc est pensando que os cus se rejubilam porque um pecador se arrependeu - disse o conde com um ligeiro sorriso. - Eu, porm,

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no estou preocupado com os cus, Pandora, mas com voc. Acho-a to perfeita, to boa e to pura, que chego a sentir medo.

- De qu?

- De que mais cedo ou mais tarde voc se afaste de mim, decepcionada, de que voc me abandone, por mais que eu tente, pois, como disse o poeta:  longo e spero o caminho que das trevas do inferno nos conduz  claridade!

Pandora levantou-se e mais uma vez sentou-se na cama, abraando-o.

- Voc se esqueceu de algo - murmurou.

- De qu?

- De que possumos a nica coisa que importa, a nica coisa que dissipa qualquer treva, qualquer mal, e at mesmo os entraves do passado.

- E voc acha que nosso amor poder sobrepor-se a tudo?

- Voc ainda duvida? O verdadeiro amor iluminou e santificou aqueles que a ele se entregaram, isto desde que o mundo  mundo.

- E  este amor que sentimos um pelo outro?

-  o jeito que tenho de am-lo. Para mim, voc sempre foi a encarnao de tudo aquilo que  belo e bom. No estou preocupada com o que aconteceu antes de nos conhecermos. A nica coisa que ocupa meus pensamentos  que estaremos juntos... nos dias que viro.

O conde a apertava com tanta fora de encontro a si que ela mal conseguia respirar.

- Estaremos juntos. Sei, meu anjo, que seu amor me proporcionar, no o que eu mereo, mas o que eu quero.

- E... isto bastar?

- E poderia eu desejar algo mais que no voc... e,  claro, um futuro condezinho de Chart?

Pandora queria ouvir aquilo mais do que tudo. Levantou o rosto e beijou-o.

O fogo despertou instantaneamente, tornando-a prisioneira, e o conde beijou-a at que o aposento comeou a girar e ela j no sabia mais onde se encontrava.

- Eu o amo! Oh, Norvin... como eu o amo! Mas voc... precisa descansar.

Exercendo um esforo sobre-humano, ela afastou-se novamente da segurana que aqueles braos lhe proporcionavam e disse, em tom acusador:

- Veja s a Juno! Eu j lhe disse para no subir na cama. A sra. Meadowfield ficar furiosa!

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O conde riu e olhou para a cadelinha que, ciumenta por no conseguir atrair a ateno dele, mordia a coberta da cama.

- Na verdade, o que a deixa preocupada  que Juno est estragando este acolchoado, que foi bordado por alguma donzela da famlia, que no tinha nada melhor a fazer.

- E isto aconteceu exatamente em 1706! Este acolchoado foi feito para o segundo conde de Chart, quando ele guerreava ao lado do duque de Marlborough.

Pandora exprimia-se automaticamente, como se estivesse recitando uma lio, e ela e o conde puseram-se a rir.

- Pelo que vejo, mesmo quando estamos fazendo amor voc ainda se comporta como a enciclopdia viva da histria dos Chart!

Ela o contemplou um tanto desconcertada, sem ter certeza se ele estava apenas se divertindo ou um tanto enfadado. Logo em seguida, Norvin tomou-lhe as mos e beijou-as.

- Sou um aluno muito atento, meu anjo, contanto que voc me deixe ensinar-lhe algo que  muito mais importante do que a histria de nossos virtuosos e respeitveis antepassados.

- E de que se trata?

- Eu a ensinarei a me amar. Por mais conhecimentos que voc tenha em relao a alguns assuntos, minha adorvel santinha, acho que nesse particular serei o professor e voc a aluna.

- Uma aluna de enorme boa vontade e muito humilde... - murmurou Pandora,

No conseguiu mais dominar-se e deixou que ele a tomasse novamente nos braos, abandonando-se a seus beijos selvagens, audaciosos, apaixonados.

L fora, o sol transformava o lago em um espelho dourado e punha reflexos de fogo nas janelas da grande manso que, atravs dos sculos, tinha protegido, inspirado e dado nimo queles que tiveram a ventura de viver nela.

FIM

